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'Ajudar Trump em Ormuz acarreta mais riscos do que vantagens à Coreia do Sul', avalia especialista

operamundi.uol.com.br By Rocio Paik 2026-03-18 976 words
'Ajudar Trump em Ormuz acarreta mais riscos do que vantagens à Coreia do Sul', avalia especialista

Para Yoo Inseok, país asiático teme eventual retaliação do Irã em uma guerra 'sem objetivos definidos', enquanto tem capacidade para abandonar dependência dos EUA

No âmbito da escalada de tensões no Oriente Médio, um novo pedido do presidente norte-americano Donald Trump reacendeu o debate sobre os limites da autonomia estratégica da Coreia do Sul. A recente solicitação para que Seul envie navios de guerra ao Estreito de Ormuz, conforme o professor de Relações Internacionais, Yoo Inseok, do Departamento de Estudos Militares da Universidade Yeungnam, coloca o país asiático em uma posição potencialmente desvantajosa.

A Opera Mundi, o docente apontou que os objetivos estratégicos dos Estados Unidos na guerra contra a nação persa, que realiza em estreita cooperação com Israel, permanecem obscuros – uma crítica que tem sido feita, inclusive, pelos próprios parlamentares norte-americanos, em sua maioria, democratas –, e "quando os objetivos políticos de uma guerra não estão claramente definidos, torna-se difícil determinar que tipos de operações militares são necessários para alcançá-los".

"Responder diretamente ao atual pedido de envio de forças navais para o Estreito de Ormuz acarretaria mais riscos do que benefícios para a Coreia do Sul. Muitos aliados dos Estados Unidos já estão preocupados com a possibilidade de retaliação por parte do Irã e com a potencial escalada do conflito", afirmou Yoo, indicando que se trata de um cenário de alto risco para Seul, muito diferente de quando realizou operações do tipo no Oriente Médio, no início da década de 2020.

"Por essa razão, diversos governos parecem estar explorando estratégias que preservem um certo grau de flexibilidade e autonomia estratégica, ao mesmo tempo que se preparam para uma possível pressão de Washington", acrescentou.

De acordo com as estimativas das autoridades militares sul-coreanas nesta quarta-feira (18/03), caso o governo de Lee Jae Myung decida atender ao pedido de seu homólogo estadunidense, poderá levar mais de três meses para que a força naval chegue ao seu destino na região. Isso por conta da dificuldade das embarcações se locomoverem em um ambiente de ataques.

"Para a Coreia do Sul, essa situação ressalta a importância de avaliar cuidadosamente tanto a continuidade estrutural quanto a dinâmica em constante mudança dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, Seul precisa de uma estratégia clara para gerenciar as relações com Washington, particularmente sob uma administração como a de Trump. A Coreia do Sul não é mais um Estado fraco ou dependente", pontuou o professor, destacando a capacidade militar, econômica, informática e tecnológica da nação asiática.

Presença estratégica dos EUA na Ásia

Em 10 de março, o presidente sul-coreano Lee Jae Myung se opôs à decisão das Forças Armadas dos Estados Unidos na Coreia (USFK, na sigla em inglês) de transferirem sistemas de defesa antimísseis estacionados em solo nacional para uso no contexto da guerra contra o Irã. No entanto, o mandatário reconheceu que sua nação não poderia impedir uma medida tomada pelos Estados Unidos.

O professor Yoo explica que a autonomia da Coreia do Sul sobre as tropas norte-americanas, mesmo em seu território, é inerentemente limitada pela estrutura da aliança com Washington. "Essas forças permanecem, em última instância, sob a autoridade de comando dos Estados Unidos. Isso reflete uma característica central da dissuasão ampliada: embora o aliado abrigue as forças, a potência protetora mantém o controle sobre seu uso a fim de preservar a credibilidade e a flexibilidade", afirmou.

Situada no Nordeste Asiático entre importantes potências como China, Rússia e Japão, a localização geográfica da Coreia do Sul se inclui na agenda de interesses dos Estados Unidos, pois desempenha um papel estratégico na arquitetura regional.

"Desde o início da Guerra Fria, os Estados Unidos adotaram uma estratégia hegemônica cuidadosamente estruturada na Ásia, e a presença das USFK constituiu um componente importante dessa arquitetura estratégica mais ampla", destacou Yoo. "De maneira superficial, a principal justificativa para as USFK era deter a agressão norte-coreana e manter a estabilidade na Península Coreana. Na prática, porém, os desdobramentos nas relações EUA-China frequentemente se mostraram a variável mais importante na definição do papel estratégico das USFK".

De acordo com o docente, durante o início da Guerra Fria, Washington usou Seul como peça central para conter a influência crescente da China, priorizando isso até mesmo sobre a rivalidade com a União Soviética. Após a distensão sino-americana, nos anos 1970, o papel das USFK mudou para o de "estabilizador regional". Mais tarde, com o término da Guerra Fria, as forças norte-americanas na Coreia do Sul voltaram a assumir a função original de "dissuasor e equilibrador estratégico" contra Pequim, renovando a disputa entre as duas potências.

"A presença contínua das USFK contribui para sustentar a estabilidade hegemônica liderada pelos Estados Unidos no Nordeste Asiático, manter o equilíbrio entre as potências regionais e preservar a influência norte-americana na região", pontuou.

Na última década, a rivalidade entre Estados Unidos e China moldou o ambiente estratégico da Coreia do Sul, vinculando a cooperação militar com Washington à competição entre grandes potências. Segundo o docente, Seul tentou manter uma "estratégia de proteção", ou seja, uma aliança de segurança com os norte-americanos enquanto laços econômicos estáveis com os chineses, entretanto, esse equilíbrio tornou-se insustentável.

O episódio da implantação do sistema de defesa antimísseis THAAD, entre os anos 2016 2017, é um exemplo emblemático. Inicialmente, a medida foi justificada para proteção contra supostas ameaças vindas da Coreia do Norte, mas a China a interpretou como sendo parte de uma ameaça regional dos Estados Unidos e respondeu com pressão econômica e sanções contra empresas e indústrias culturais sul-coreanas.

"Se a Coreia do Sul for vista meramente como uma arena onde se desenrola a competição entre Estados Unidos e China, seu espaço político inevitavelmente se reduzirá", alertou o especialista. Nesse sentido, sustentou que a prioridade sul-coreana é garantir sua autonomia e, assim, permitir que o país desempenhe um papel ativo no equilíbrio regional.

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