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Graciliano Ramos, o mestre do romance social

operamundi.uol.com.br By Estevam Silva 2026-03-20 1257 words
Graciliano Ramos, o mestre do romance social

Jornalista e romancista modernista, conhecido pelo clássico 'Vidas Secas', retratou cotidiano dos retirantes do Sertão nordestino, destacando a desigualdade social e luta de classes

Há 73 anos, em 20 de março de 1953, falecia o romancista, cronista e jornalista alagoano Graciliano Ramos.

Considerado um dos maiores ficcionistas e cronistas brasileiros do século 20, Graciliano foi expoente da Segunda Fase do Modernismo, destacando-se pela visão crítica das relações humanas e pela abordagem dos problemas sociais do Nordeste brasileiro.

Suas obras são imbuídas de notável vigor realista, linguagem objetiva e ênfase na análise psicológica do contexto sociocultural, características particularmente notáveis em Vidas Secas, obra-prima da literatura nacional.

Juventude e primeiros trabalhos

Graciliano Ramos nasceu em 27 de outubro de 1892, em Quebrângulo, no interior de Alagoas. Era o primogênito dos 16 filhos do comerciante Sebastião Ramos de Oliveira e de Maria Amélia Ferro Ramos.

Ainda pequeno, Graciliano se mudou com a família para Buíque, no Agreste de Pernambuco. Retornou a Alagoas já em 1904, passando a viver em Viçosa e concluindo as primeiras letras em um internato. Nessa época, fundou o Dilúculo, o jornalzinho para crianças em que publicou seu primeiro conto, intitulado O Pequeno Pedinte.

Aos 13 anos, Graciliano tornou-se colaborador do jornal Echo Viçosense, onde se aproximou de Mário Venâncio, seu futuro mentor intelectual. Publicou no periódico a crônica Dolente, narrando as desilusões amorosas de um jovem.

Em 1905, Graciliano mudou-se para Maceió. Ele concluiu o ensino secundário no Colégio Quinze de Março e se interessou cada vez mais pela carreira literária. No ano seguinte, tornou-se colaborador da revista O Malho, escrevendo sonetos sob o pseudônimo Feliciano de Olivença.

Graciliano também publicou seus textos em periódicos como o Jornal de Alagoas, o Correio de Maceió e o Paraíba do Sul, usando os pseudônimos Almeida Cunha, Soares Lobato e Ramos de Oliveira. Em 1910, mudou-se com a família para Palmeira dos Índios, onde conciliou sua atividade literária com o trabalho no comércio de seu pai.

Casamento e carreira política

Em 1914, visando consolidar um nome como escritor e articulista, Graciliano se mudou para o Rio de Janeiro. Na antiga capital, assumiu o cargo de jornalista e de revisor nos periódicos Correio da Manhã, A Tarde e O Século.

A passagem pelo Rio seria breve. Já no seguinte, o escritor viu-se obrigado a retornar a Palmeira dos Índios, após o falecimento dos irmãos Otacília, Leonor e Clodoaldo e do sobrinho Heleno, todos vitimados pela epidemia de peste bubônica. Voltou então a trabalhar no comércio do pai.

Em 1916, casou-se com Maria Augusta Barros, que faleceria em trabalho de parto alguns anos depois, deixando-lhe quatro filhos. No ano seguinte, passou a administrar a loja de tecidos Serena.

Filiado ao Partido Democrata, Graciliano foi eleito prefeito de Palmeira dos Índios em 1927. Em sua gestão, o escritor criticou os coronéis e buscou suprimir as práticas clientelistas. Ele construiu escolas, reformou estradas e estabeleceu um sistema de taxação progressiva, cobrando mais impostos de quem tinha mais dinheiro. As reformas lhe renderam inimizades poderosas. Em 1928, Graciliano sobreviveu a um atentado.

O escritor se casou pela segunda vez nesse mesmo período, unindo-se a Heloísa de Medeiros, com quem teve outros quatro filhos — incluindo o também escritor Ricardo Ramos.

A carreira literária

A qualidade literária dos relatórios de prestação de contas do município, escritos por Graciliano e remetidos ao governo de Alagoas, chamaram a atenção do poeta e editor Augusto Frederico Schmidt, que tratou de procurar o escritor e incentivá-lo a seguir a carreira literária.

Graciliano renunciou então à prefeitura de Palmeira dos Índios e mudou-se para Maceió, assumindo o cargo de diretor da Imprensa Oficial. Em 1933, foi nomeado diretor da Instrução Pública do estado e tornou-se redator do Jornal de Alagoas.

Nesse mesmo ano, Graciliano publicou Caetés, seu primeiro romance. O livro narra a história de João Valério, um guarda-livros que se envolve com a esposa de seu patrão. A trama aborda temas como a hipocrisia social, a frustração intelectual, o provincianismo e a incapacidade de realização e é repleta de referências ao Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade.

Em 1934, Graciliano publicou São Bernardo, romance sobre a ascensão social de um trabalhador rural que se torna um poderoso fazendeiro — e que deixa uma trajetória de ambição, autoritarismo e comportamentos inescrupulosos. Apinhado de comentários sobre a exploração no campo, o livro consolidou Graciliano como um dos ícones do romance social.

Dois anos depois, o escritor lançou Angústia, obra aclamada e comparada por muitos críticos ao célebre Crime e Castigo, de Dostoiévski. O romance aborda a vida de Luís da Silva, um funcionário público modesto e solitário que vive uma existência marcada por mediocridade, dívidas, tédio e angústia existencial.

"Memórias do Cárcere" e "Vidas Secas"

Após o malsucedido Levante Comunista de 1935, Graciliano tornou-se alvo da repressão do governo de Getúlio Vargas.

Acusado de "subversão" por suas posições progressistas e por seus vínculos com intelectuais filiados ao Partido Comunista do Brasil (antiga denominação do PCB), incluindo Rachel de Queiroz e Jorge Amado, o escritor foi detido e levado à Prisão de Ilha Grande, no Rio de Janeiro, onde permaneceu recluso por onze meses.

Graciliano foi libertado em 1937, sem ter sido formalmente acusado ou julgado. Durante a prisão, travou amizade com diversas lideranças comunistas, incluindo Luiz Carlos Prestes, Olga Benário, Apolônio de Carvalho, Epifrânio Guilhermino e Rodolfo Ghioldi.

As experiências vividas na prisão, bem como os abusos e torturas que testemunhou, foram relatados na obra Memórias do Cárcere, publicada postumamente, em 1953.

Após sua libertação, Graciliano fixou residência no Rio de Janeiro, vivendo em uma pequena pensão com a esposa e as filhas. Em 1938, publicou Vidas Secas, sua obra mais conhecida e ícone do romance modernista, que se converteria em um clássico da literatura brasileira.

A obra aborda o cotidiano dos retirantes do Sertão nordestino e o flagelo da seca, da miséria e da fome, sob a perspectiva crítica da desigualdade social e o enfoque na luta de classes.

No ano seguinte, Graciliano assumiu o cargo de Inspetor Federal do Ensino Secundário e publicou o livro de contos A Terra dos Meninos Pelados, laureado com o Prêmio de Literatura Infantil do Ministério da Educação.

Militância no PCB e últimas obras

Em 1945, Graciliano publicou o livro de contos Dois Dedos e o relato autobiográfico Infância. Nesse mesmo ano, o escritor se filiou ao PCB, aceitando o convite de Luiz Carlos Prestes, secretário-geral da agremiação.

Graciliano permaneceria como militante ativo do PCB até o fim da vida, mas suas críticas recorrentes aos padrões estéticos do realismo socialista provocariam desentendimentos com parte da cúpula da agremiação.

A interpretação ortodoxa da teoria marxista também o levaria a recusar a colaboração com os jornais burgueses, causando contratempos com seu amigo Paulo Bittencourt, proprietário do Correio da Manhã. Nos anos seguintes, Graciliano realizaria uma série de viagens à União Soviética e aos países socialistas do Leste Europeu — experiências relatadas em um livro póstumo intitulado Viagem.

Graciliano foi eleito presidente da Associação Brasileira de Escritores em 1951. O escritor adoeceu gravemente no ano seguinte, vitimado por um câncer de pulmão. Chegou a viajar para Buenos Aires a fim de realizar uma cirurgia, mas os médicos confirmaram a irreversibilidade do quadro.

De volta ao Brasil, Graciliano celebrou seu aniversário de 60 anos com uma sessão solene na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, presidida por Peregrino Júnior, da Academia Brasileira de Letras, e prestigiada por nomes como Jorge Amado e José Lins do Rêgo. Ele faleceu no Rio de Janeiro pouco tempo depois, em 20 de março de 1953.

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