Quem apoiou os abusos de Moraes e depois mudou de opinião
Por anos, Alexandre de Moraes acumulou poderes com a tolerância de uma parcela significativa da sociedade brasileira.
O Inquérito das Fake News, aberto em 2019 sem previsão constitucional clara, era apresentado como uma resposta necessária a ataques reais às instituições democráticas. As prisões, os bloqueios de contas e as restrições a perfis nas redes sociais eram enquadrados, por muitos, como o preço inevitável de conter um movimento que supostamente ameaçava o Estado de Direito.
E o pior: quem questionava os métodos era, com frequência, associado ao grupo que se dizia estar sendo combatido.
O cenário começou a mudar quando os alvos das ações de Moraes deixaram de ser exclusivamente figuras ligadas ao bolsonarismo. Depois, em agosto de 2024, as revelações da Vaza Toga expuseram o uso informal do aparato judicial para fins que iam além do combate à desinformação.
O escândalo envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro levantou questões sobre a fronteira entre a função pública e interesses privados. Até que a operação contra o jornalista maranhense Luís Pablo, determinada no âmbito do mesmo inquérito que tantos haviam apoiado, tornou o silêncio difícil de sustentar.
Assim, ganhou forma um fenômeno que merece registro: figuras e entidades de campos políticos distintos, que em momentos anteriores haviam apoiado ou tolerado a atuação de Moraes, passaram a questioná-la publicamente.
Em alguns casos, trata-se de uma revisão de posição clara e assumida. Em outros, de um amadurecimento gradual diante de fatos novos. Em todos, de um debate que o país precisava ter — e chegou tarde.
A seguir, listamos alguns dos exemplos mais emblemáticos.
1. Ordem dos Advogados do Brasil
A OAB apoiou a abertura do Inquérito das Fake News em 2019. Nos anos seguintes, enquanto a ação se expandia para além de seus limites originais, a entidade federal manteve silêncio.
O apoio
"A OAB apoia as medidas adotadas pelo Supremo Tribunal Federal para coibir a disseminação de notícias falsas e os ataques às instituições democráticas e ao Estado de Direito." — OAB Federal, março de 2019
A mudança
"Um inquérito deve apurar fatos específicos e não se transformar em uma investigação de natureza perpétua. O tom intimidatório alimentado por esse quadro é incompatível com o espírito democrático consagrado pela Constituição de 1988." — Ofício conjunto dos 27 presidentes estaduais da OAB, fevereiro de 2026
2. Hamilton Mourão
O senador é o único desta lista que citou a própria frase anterior e disse publicamente que estava errado. Vale lembrar que o senador tinha uma "dívida política" com o próprio Moraes: em 2021, o ministro votou no TSE contra a cassação da chapa Bolsonaro-Mourão, preservando o mandato do vice-presidente.
O apoio
"A partir de 1º de janeiro, o Brasil mudará de governo, mas não de regime. Vivemos em uma democracia pujante e plural." — em cadeia nacional de rádio e TV, dezembro de 2022.
A mudança
"Em meu discurso como presidente da República em exercício, no dia 31 de dezembro de 2022, enganei-me redondamente ao pensar e dizer que vivíamos em uma democracia pujante." — plenário do Senado Federal, agosto de 2024.
Procurado pela reportagem da Gazeta do Povo, o senador afirmou que sua visão "passou por um necessário amadurecimento diante da constatação de que os direitos individuais dos brasileiros se encontram hoje vulneráveis a preferências subjetivas de uma autoridade de Estado".
3. Ciro Gomes
Em 2020, Ciro já chamava de "exótico" o procedimento de abertura do inquérito. Mesmo assim, optou por blindar o STF em 2022 — uma decisão que ele mesmo reconheceu, anos depois, como mais custosa do que parecia.
O apoio
"Os brasileiros que amam a democracia têm de acatar a palavra derradeira da nossa Suprema Corte. Essa é a chave da estabilidade institucional." — agosto de 2022
A mudança
"Ele [Moraes] bate lateral, faz o gol de cabeça, como juiz valida, embora haja uma queixa de impedimento, e faz ele mesmo a perícia do VAR no lance." —agosto de 2024
4. Oriovisto Guimarães
Em 2021, o senador paranaense pediu aos colegas que "emprestassem os ombros" ao STF. Quatro anos depois, assinou o pedido de impeachment de quem protegia.
O apoio
"Se esse pedido chegar até este Senado, nos dê permissão para suportar juntos, para lhe emprestar os nossos ombros e dizer um redondo 'não' a essa tentativa de desestabilização da democracia." — agosto de 2021
A mudança
"O equilíbrio entre os Poderes é essencial. Não podemos aceitar que só um decida por todos." — agosto de 2025
5. Jorge Kajuru
O senador foi o primeiro parlamentar a pedir o impeachment de Moraes, em 2021. Doze meses depois, elogiou publicamente o mesmo ministro. Trinta e seis meses depois, assinou o segundo pedido de impeachment.
O apoio
"Não tenho dúvida de que os ministros Edson Fachin e Alexandre de Moraes saberão enquadrar as tentativas de minar a credibilidade do processo eleitoral." — fevereiro de 2022
A mudança
"O Brasil precisa de um STF forte, mas que exerça seu poder com autoridade moral, construída com exemplo, transparência e responsabilidade. Isso não é o que vemos hoje." — agosto de 2025
6. Arthur Lira
Em fevereiro de 2022, Moraes votou pela rejeição das denúncias de corrupção contra Lira no STF. Em junho de 2024, o ministro censurou reportagens sobre denúncias de agressão feitas pela ex-esposa do então presidente da Câmara. No mesmo período, Lira retinha na Câmara a CPI do Abuso de Autoridade — que já tinha as 171 assinaturas necessárias. A crítica a Moraes só veio quando não havia mais nada a proteger.
O apoio
"Cada Poder tem a sua atribuição. A independência entre os poderes preconiza isso." — ao ser questionado sobre a prisão de Daniel Silveira, fevereiro de 2021
A mudança
"Os magistrados não são eleitos pelo povo, o que compromete a legitimidade de suas decisões. O Judiciário ultrapassa os limites de atuação do Executivo e do Legislativo." — julho de 2025
7. Renan Santos
Devido à sua intensa participação no YouTube e nas mídias sociais, o líder do MBL e candidato à presidência pelo partido Missão representa um dos casos mais bem documentados de revisão de posição dentro da direita não bolsonarista.
O apoio
O MBL apoiou as ações de Moraes contra Bolsonaro e aliados — defendendo o inquérito das "milícias digitais" e medidas judiciais contra parlamentares bolsonaristas.
A mudança
"O ministro Alexandre de Moraes está executando uma vingança contra Bolsonaro." — novembro de 2025
Procurado pela reportagem da Gazeta do Povo, o líder do MBL afirmou que tem sido crítico de Alexandre de Moraes há muitos anos. Ele destacou que a revista Valete, publicada pelo movimento, estampou Moraes na capa de uma edição de 2023, condenando os "superpoderes" e a "postura ditatorial" do ministro. Renan ainda ressaltou que os questionamentos quanto aos métodos de Moares não invalidam as críticas do MBL a Bolsonaro e seus aliados.
8. Eduardo Leite
O governador do Rio Grande do Sul representa o caso com o intervalo mais curto desta lista: em julho de 2025, ele defendeu Moraes publicamente; em novembro, já falava em impeachment.
O apoio
"Antes de mais nada, Alexandre de Moraes é um cidadão brasileiro. Não é necessário concordar com todas as decisões do ministro para repudiar a medida imposta pelos EUA contra ele. Trata-se de um ministro da nossa Suprema Corte, exercendo suas funções de acordo com as nossas leis, gostemos ou não delas." — julho de 2025
A mudança
"Há indícios que sugerem haver uma relação espúria entre ministros do STF e investigados na operação Banco Master. Comprovados esses indícios, devem ser levados à responsabilização pelo Senado, inclusive pelo processo de impeachment." — novembro de 2025
9. Felipe Neto
O youtuber não revisou exatamente sua posição sobre Alexandre de Moraes. Ele simplesmente parou de falar — o que, dado o volume e a intensidade do que havia dito antes, é uma forma de resposta.
O apoio
"Esse papo de que 'não devemos permitir o banimento de contas pelo STF' soa muito como um viralatismo patético. Para essas pessoas, um CEO como Zuckerberg pode decidir banir uma conta pelo motivo que bem entender, mas a Suprema Corte do país, não. Gritar que o STF pratica censura dá, sem dúvida, bastante clique." — abril de 2024
A mudança (ou a ausência dela)
"Me envolvi em muita confusão, muitos problemas. A militância me levou para uma estrada que nunca quis entrar." — anunciando seu afastamento do debate público, em fevereiro de 2025.
A reportagem da Gazeta do Povo também entrou em contato com as assessorias de Ciro Gomes, Arthur Lira, OAB, Eduardo Leite, Oriovisto Guimarães, Jorge Kajuru e Felipe Neto, mas não obteve retorno até a conclusão deste texto.
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Source Quality
Source classification (primary/secondary/tertiary), named vs anonymous, expert credentials, variety
Summary
Good use of named sources and direct quotes from public figures, but relies heavily on secondary analysis of public statements.
Specific Findings from the Article (4)
""A OAB apoia as medidas adotadas pelo Supremo Tribunal Federal "
Direct quote from OAB Federal statement
Named source""Em meu discurso como presidente da República em exercício, no dia 31 de dezembro de 2"
Direct quote from Senator Hamilton Mourão
Named source""Ele [Moraes] bate lateral, faz o gol de cabeça, como juiz valida,"
Direct quote from Ciro Gomes
Named source"Procurado pela reportagem da Gazeta do Povo, o senador afirmou que sua visão "passou por um necessário amadurecimento "
Reporter's contact with Mourão's office
Secondary sourcePerspective Balance
Acknowledgment of multiple viewpoints, counterarguments, and balanced presentation
Summary
Comprehensively presents multiple political figures who changed positions, showing both initial support and subsequent criticism.
Specific Findings from the Article (3)
"figuras e entidades de campos políticos distintos, que em momentos anteriores haviam apoiado ou tolerado a atuação de Moraes, passaram a questioná-la publicamente"
Explicit acknowledgment of diverse political figures changing positions
Balance indicator"Em alguns casos, trata-se de uma revisão de posição clara e assumida. Em outros, de um amadurecimento gradual diante de fatos novos"
Acknowledges different types of position changes
Balance indicator"A OAB apoiou a abertura do Inquérito das Fake News em 2019. Nos anos seguintes, enquanto a ação se expandia para além de seus limites originais, a entidade federal manteve silêncio"
Shows evolution of OAB's position over time
Balance indicatorContextual Depth
Background information, statistics, comprehensiveness of coverage
Summary
Provides substantial historical context and timeline of events from 2019-2026, with specific dates and developments.
Specific Findings from the Article (3)
"O Inquérito das Fake News, aberto em 2019 sem previsão constitucional clara"
Provides historical context about inquiry origins
Background"Depois, em agosto de 2024, as revelações da Vaza Toga expuseram o uso informal do aparato judicial"
Provides key event context
Background"O senador é o único desta lista que citou a própria frase anterior e disse publicamente que estava errado"
Provides specific contextual detail about Mourão
Context indicatorLanguage Neutrality
Absence of loaded, sensationalist, or politically biased language
Summary
Mostly neutral reporting language with a few instances of potentially loaded terminology.
Specific Findings from the Article (3)
"figuras e entidades de campos políticos distintos, que em momentos anteriores haviam apoiado ou tolerado a atuação de Moraes, passaram a questioná-la publicamente"
Neutral description of position changes
Neutral language"A reportagem da Gazeta do Povo também entrou em contato com as assessorias"
Neutral reporting language
Neutral language"o pior: quem questionava os métodos era, com frequência, associado ao grupo"
Slightly dramatic framing with "O pior"
SensationalistTransparency
Author attribution, dates, methodology disclosure, quote attribution
Summary
Full author attribution, date stamp, clear quote attribution, and disclosure of reporting methodology.
Specific Findings from the Article (1)
"Procurado pela reportagem da Gazeta do Povo"
Discloses reporting methodology
MethodologyLogical Coherence
Internal consistency of claims, absence of contradictions and unsupported causation
Summary
No logical inconsistencies detected; article maintains clear chronological narrative and consistent argument.
Specific Findings from the Article (2)
"O cenário começou a mudar quando os alvos das ações de Moraes deixaram de ser exclusivamente figuras ligadas ao bolsonarismo"
Logical progression of events
Neutral"Assim, ganhou forma um fenômeno que merece registro"
Logical conclusion drawn from presented evidence
NeutralCore Claims & Their Sources
-
"Multiple political figures and entities who previously supported Justice Alexandre de Moraes have changed their positions and now criticize him"
Source: Analysis of public statements and positions from 9 different political figures and organizations Named secondary
-
"The shift in opinion occurred as Moraes' targets expanded beyond Bolsonaro allies and judicial overreach was exposed"
Source: Historical analysis of events from 2019-2026 including Vaza Toga revelations Named secondary
Logic Model Inspector
ConsistentExtracted Propositions (7)
-
P1
"The Fake News Inquiry was opened in 2019 without clear constitutional provision"
Factual -
P2
"Vaza Toga revelations exposed informal use of judicial apparatus in August 2024"
Factual -
P3
"OAB supported the Fake News Inquiry opening in March 2019"
Factual -
P4
"27 state OAB presidents criticized the inquiry's intimidating tone in February 2026"
Factual -
P5
"Expansion of Moraes' targets beyond Bolsonarism causes Began shift in public opinion"
Causal -
P6
"Vaza Toga revelations causes Exposed judicial overreach"
Causal -
P7
"Operation against journalist Luís Pablo causes Made silence difficult to sustain"
Causal
Claim Relationships Graph
View Formal Logic Representation
=== Propositions === P1 [factual]: The Fake News Inquiry was opened in 2019 without clear constitutional provision P2 [factual]: Vaza Toga revelations exposed informal use of judicial apparatus in August 2024 P3 [factual]: OAB supported the Fake News Inquiry opening in March 2019 P4 [factual]: 27 state OAB presidents criticized the inquiry's intimidating tone in February 2026 P5 [causal]: Expansion of Moraes' targets beyond Bolsonarism causes Began shift in public opinion P6 [causal]: Vaza Toga revelations causes Exposed judicial overreach P7 [causal]: Operation against journalist Luís Pablo causes Made silence difficult to sustain === Causal Graph === expansion of moraes targets beyond bolsonarism -> began shift in public opinion vaza toga revelations -> exposed judicial overreach operation against journalist luís pablo -> made silence difficult to sustain
All claims are logically consistent. No contradictions, temporal issues, or circular reasoning detected.