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O choro sem lágrimas

revistaoeste.com By Augusto Nunes 2026-03-20 711 words
Gilmar Mendes interrompeu o ligeiro sumiço e reapareceu no Supremo Tribunal Federal mais Gilmar Mendes que nunca. Na sessão deste 19 de março, a apresentação dividiu-se em duas partes. Na primeira, o decano do Pretório Excelso intrometeu-se nas atribuições do Congresso para socorrer o ministro Dias Toffoli, afundado até o pescoço no pântano do Banco Master, principal esconderijo dos meliantes que consumaram a maior fraude financeira da história do Brasil. Com a insolência que exibe quando veste uma toga, Gilmar anulou a quebra de sigilo do fundo Arleen — um dos tentáculos da criatura parida pelo vigarista Daniel Vorcaro —, aprovada pela CPI do Crime Organizado.

Ponto para os delinquentes. Em 2021, o Arleen adquiriu a participação da empresa Maridt no resort Tayayá, homiziado no litoral do Paraná. ("Mari" é o diminutivo de Marília, cidade natal de Dias Toffoli. Que integra o quadro societário da empresa da família, como informam as duas consoantes que complementam o nome da Maridt. DT.) Assim Gilmar concluiu o serviço iniciado em 27 de fevereiro, quando baixou no Egrégio Plenário para anular a quebra de sigilo da Maridt, determinada pela mesma CPI. Motivo alegado pelo decano: a medida fora aprovada "em manifesto e incontornável descumprimento dos limites do objeto da CPI".

A introm
issão de Gilmar foi resumida em língua de gente pelo senador Alessandro Vieira, integrante da CPI: "Infelizmente, não me surpreende essa ação articulada por alguns ministros com o objetivo expresso de travar investigações e garantir a impunidade dos poderosos. Para contemplar seus interesses, não têm nenhum constrangimento em rasgar a Constituição e atropelar outro Poder da República". Não têm mesmo, confirmou a segunda parte da apresentação de Gilmar, reservada às homenagens prestadas a Alexandre de Moraes por ter completado na quinta-feira nove anos como titular do Timão da Toga.

Nas últimas linhas da discurseira que canonizou Moraes, o orador presenteou o parceiro e comoveu a plateia de ministros com a mais fofa de suas invenções: o choro convulsivo sem lágrimas. É um espetáculo e tanto. De repente, a voz fica embargada e vai perdendo força até cair fora da garganta. Volta depois que o orador engole água. Some de novo quando recita serviços prestados à Nação pelo inspirador do palavrório. Estranhamente, não se vê uma única e escassa lágrima pendurada em qualquer canto dos olhos. O que atesta a exuberância desse pranto é o beiço tremendo, que se projeta na direção do homenageado como um foguete bojudo prestes a decolar.

Foi a qu
inta exibição pública da singularíssima espécie de comoção. A estreia ocorreu em 2020, quando Celso de Mello se despediu da Corte que o transformara no Pavão de Tatuí. Em 2021, pouco antes de decretar que o juiz Sérgio Moro "agiu com parcialidade" ao mandar Lula para a gaiola, o decano contemplou o agora colega Cristiano Zanin com o mais espalhafatoso choro convulsivo sem lágrimas. "Nós fazemos, eu faço, na pessoa do doutor Zanin, uma justa homenagem à advocacia brasileira", derramou-se entre um e outro copo d'água. Em 2023, chorou a depredação da sede do Supremo Tribunal Federal. Em 2025, na despedida de Luís Roberto Barroso, o beiço e a voz embargada revogaram o célebre bate-boca em que o país ficou sabendo das pitadas de psicopatia.

A performance que condecorou Moraes chegou ao ápice na leitura do último parágrafo do palavrório. "Vossa Excelência evitou que caíssemos em um abismo autoritário, onde ainda estaríamos vivendo tempos sombrios. (Pausa. A voz regressa com o timbre de quem acabou de ouvir no altar um "não" da noiva.) O Brasil tem uma dívida para com Vossa Excelência, ministro Alexandre… (Pausa. Começa o choro sem lágrimas. Ouve-se, segundos depois, um fiapo de voz.) As (pausa) futuras (pausa e água) gerações (pausa mais longa, outro gole, mais uma pausa) saberão (pausa, silêncio, água) reconhecê-la. Muito obrigado."

Desta vez, decepcionou-se quem aguardava com justificada ansiedade a atuação dos lábios possantes. O ministro talvez tenha decidido que bastariam a voz embargada, as pausas e o litro de água. Também é possível que tenha poupado o beiço para uma tarefa bem mais complicada: justificar o contrato mágico que promoveu a milionária a advogada bisonha que alugou a um bandido de nascença o marido que salvou a democracia à brasileira. Convém providenciar um barril de água.

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