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Os roteiros turísticos da memória LGBTI+ nas cidades brasileiras - Nexo Jornal

nexojornal.com.br By Lucas Veloso 2026-03-20 716 words
Um grupo caminha pelo centro de São Paulo numa manhã de sábado. A primeira parada é na praça Roosevelt, onde o guia lembra que foi ali que ocorreu, em 1997, a primeira Parada do Orgulho LGBT da cidade — pequena, com poucas centenas de pessoas. Hoje, o evento reúne milhões e se tornou um dos maiores do mundo.

Alguns quarteirões depois, a caminhada segue em direção ao Largo do Arouche, um dos pontos históricos de sociabilidade da comunidade LGBTQIA+ na capital paulista. Entre bares, monumentos e prédios antigos, surgem relatos pouco conhecidos fora de círculos militantes. É o momento de ouvir episódios de repressão policial, trajetórias de resistência e personagens icônicos –como Brenda Lee, travesti que transformou sua casa em um dos primeiros espaços de acolhimento para pessoas vivendo com HIV/Aids no Brasil durante a epidemia dos anos 1980.

Brenda teve atuação no entorno do Largo, que desde os anos 1970 concentra redes de sociabilidade e trabalho de travestis na cidade. Foi nesse território que ela construiu parte de sua liderança comunitária e articulou ações de apoio a pessoas vivendo com HIV/aids, experiência que posteriormente deu origem à Casa de Apoio Brenda Lee, no bairro da Bela Vista.

Iniciativas como essa têm surgido em diferentes cidades brasileiras. Guias independentes, coletivos culturais e projetos de educação patrimonial passaram a organizar caminhadas que revisitam o passado urbano a partir de experiências LGBTQIA+. Para quem participa, os espaços da cidade passam a ser vistos de outra forma. Lugares conhecidos ganham novas camadas de significado, conectando lembranças que raramente aparecem em monumentos, placas ou guias turísticos.

"É contar essa história em primeira pessoa da cidade em que a gente vive", diz Guilherme Soares Dias, da plataforma Guia Negro, que conduz um dos roteiros dedicados à história LGBTQIA+. Os roteiros começaram em 2018, acontece em datas específicas, já que depende de uma quantidade de pessoas com ingresso. "A região da República é um lugar onde a gente se encontra, celebra e constrói memória", cita o fundador.

O itinerário passa por pontos importantes da sociabilidade da comunidade e revisita episódios que marcaram esse percurso. Um deles é a Operação Tarântula, realizada em 1987 em São Paulo, quando travestis foram perseguidas e presas sob a justificativa preconceituosa de conter a disseminação do HIV.

"É uma história que muita gente não conhece", afirma Guilherme. "Quando as pessoas ouvem, percebem que a violência contra pessoas LGBTQIA+ não é algo distante, ela faz parte da história da cidade."

Outro ponto do roteiro é o Museu da Diversidade Sexual, localizado na estação República do metrô, que reúne exposições permanentes e temporárias sobre a trajetória da população LGBTQIA+ no Brasil.

Ao longo do passeio, os participantes também entram em contato com bares, centros culturais e pequenos negócios ligados à comunidade. A proposta é mostrar que esses territórios não são apenas lugares de preservação histórica, mas também de circulação econômica. "A gente tem essa preocupação de apresentar esses empreendedores", explica Guilherme. "As pessoas conhecem o lugar, consomem e voltam depois".

Tours LGBTQIA+ para entender a cidade

Em São Paulo, um desses projetos começou de forma inesperada. Estudante de turismo, Rica Castilho costumava organizar caminhadas com amigos em trilhas e cachoeiras como forma de descanso depois de uma rotina intensa de trabalho. Em 2023, os encontros passaram a reunir mais gente e a incluir discussões sobre cidade e desigualdade social. "Sempre que eu compartilhava essas experiências, outras pessoas demonstravam vontade de participar", conta. "Foi assim que o grupo foi crescendo".

A iniciativa ganhou novo impulso quando ele passou a trabalhar na recepção de um hostel na Vila Madalena, zona oeste da cidade. O contato com turistas estrangeiros interessados em conhecer a cidade além dos cartões-postais levou à criação de passeios guiados. "O visitante internacional busca mediação cultural para entender melhor o lugar que está visitando", afirma. "Ele quer conhecer histórias, entender os contextos".

Durante os percursos, feitos mediante agendamento e pagamento, que passam por diferentes locais — definidos de acordo com os interesses dos participantes — o grupo visita bares, feiras e espaços culturais ligados à comunidade LGBTQIA+, formando um circuito que conecta memória e economia local. "Quando a memória é apresentada de forma estruturada, ela deixa de ser só simbólica e passa a gerar renda", diz Rica, que realiza esse trabalho há dois anos.

SERVIÇO: PASSEIOS DE MEMÓRIA LGBTQIA+

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