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O que muda na prática com o fim da patente do Ozempic - Nexo Jornal

nexojornal.com.br By Carlos Roberto Oliveira 2026-03-20 686 words
O ano de 2026 marca o fim da patente da semaglutida (princípio ativo de medicamentos usados no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade) em vários países. No Canadá, ocorreu em janeiro; no Brasil, na China e na Índia acontece nesta sexta-feira, dia 20 de março, seguido de México, Turquia e Arábia Saudita nos próximos dias. Com isso, o mercado dos medicamentos para diabetes e obesidade entra em uma nova etapa: começa agora uma fase de maior pressão competitiva sobre o laboratório Novo Nordisk (fabricante do Ozempic e do Wegovy), que perde a exclusividade comercial sobre a substância.

Após lucrar com a explosão global da demanda, enfrentar períodos de desabastecimento e a pressão dos medicamentos manipulados nos Estados Unidos, a empresa farmacêutica Novo Nordisk reposicionou sua estratégia para preservar mercado diante do avanço da concorrência.

Em vez de sustentar preços elevados sob o abrigo da exclusividade patentária, a empresa ampliou a oferta de seus produtos em plataformas digitais de telessaúde e em programas de venda direta ao consumidor, com preços mais baixos para pagamentos à vista. Mais do que uma simples inovação tecnológica, trata-se de uma resposta comercial à perda de exclusividade e à disputa por um mercado bilionário que ela própria ajudou a criar.

Independentemente desse novo modelo, sem a cobertura do Estado, o uso dos medicamentos emagrecedores continuará restrito às camadas mais privilegiadas da população, e assim permanecerá por algum tempo, apesar de uma mais agressiva concorrência com o fim das patentes e do lançamento próximo de genéricos.

No Brasil, a expiração da patente tampouco significa abastecimento imediato por versões mais baratas do Ozempic. O que se anuncia é a entrada gradual de laboratórios nacionais na produção de semaglutida (entre eles, EMS, Hypera Pharma, Cimed e Biomm), enquanto a Anvisa já registra ao menos 14 pedidos de produtos com o princípio ativo.

A chegada dessas alternativas dependerá da tramitação regulatória e deverá ocorrer de forma faseada, o que tende a adiar uma ampliação efetiva da oferta e uma redução mais expressiva dos preços. Hoje, no Brasil, uma caixa de semaglutida ou tirzepatida custa entre 900 e 3.000 reais — uma clara barreira de classe.

O que muda com o fim da patente, portanto, não é o desaparecimento súbito dos obstáculos econômicos e jurídicos que cercam esse mercado, mas a forma como eles se reorganizam. Se, por um lado, a expiração da exclusividade abre espaço para novos competidores, por outro, intensifica tanto a inovação e manipulação quanto a falsificação, contrafação e judicialização. É nesse terreno que se situam os desafios atuais dos medicamentos emagrecedores.

Os impasses para a ampliação do acesso

Os Estados Unidos se deixaram seduzir como nenhum outro país pelos novos medicamentos. Entre janeiro de 2021 e dezembro de 2023, a demanda cresceu quase 450%, com o Ozempic respondendo por cerca de 70% das prescrições. Quando a Novo Nordisk não conseguiu suprir tal procura, o desabastecimento tornou-se um problema de saúde pública. Quase 75% da população adulta vive entre o sobrepeso e a obesidade, debatendo-se entre os insidiosos apelos publicitários da indústria alimentícia e o ideal de contenção em busca da saúde.

Seguindo as previsões legais para casos de desabastecimento, a Food and Drug Administration (FDA) permitiu, entre março de 2023 e fevereiro de 2025, a produção de cópias de medicamentos GLP-1 em farmácias de manipulação. Nesse período, enquanto a Novo Nordisk tentava aumentar sua produção e excluir essas farmácias por meio de longos e custosos processos jurídicos, a China exportou para os Estados Unidos, a preços baixíssimos, os insumos necessários à preparação, sobretudo, de versões manipuladas de semaglutida. Quando a empresa conseguiu se recuperar econômica e industrialmente, teve de enfrentar a concorrência da tirzepatida (comercializada como Mounjaro e, depois, como Zepbound) da Eli Lilly com maiores taxas de emagrecimento.

O precedente norte-americano antecipa, sob outras formas, parte dos impasses que tendem a se ampliar com o vencimento da patente. O fim da exclusividade não elimina o conflito entre acesso e controle do mercado; ao contrário, pode deslocá-lo para outras formas de venda (como as plataformas digitais de telessaúde e a venda direta ao consumidor), novas disputas concorrenciais e zonas de ilegalidade.

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