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Simone de Beauvoir, por Izaías Almada

jornalggn.com.br By Izaias Almada 2026-03-22 679 words
Simone de Beauvoir, por Izaías Almada

"A velhic
e não é um fato estático: é o término e o prolongamento de um processo. Em que consiste esse processo? Em outras palavras: o que é envelhecer? Essa ideia se acha ligada à de transformação. Mas a vida do embrião, do recém-nascido, da criança, constitui uma incessante transformação. Seremos levados a concluir, como o fizeram alguns, que nossa existência é uma morte lenta? Certamente não. Semelhante paradoxo desconhece a verdade essencial da vida: ela é um sistema instável no qual se perde e reconquista o equilíbrio a cada instante; a inércia é que é o sinônimo de morte. A lei da vida é mudar".

O texto acima, escrito por Simone de Beauvoir, colocado
na contracapa dos dois volumes da edição brasileira da "Difusão Européia do Livro", La Vieillesse, 1970, tocava num ponto, quanto a mim, fundamental: a inércia é que é o sinônimo da morte. Não seria o caso de nos perguntarmos por qual razão a inércia está tomando conta mundial e criando o caos na luta contra o neonazifascismo ascendente em vários países?

Sempre fu
i grande admirador do casal Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre. De seus livros traduzidos para o português li a maioria deles. O chamado existencialismo, ligado ao marxismo (Sartre pertenceu por um bom tempo ao Partido Comunista Francês), seduziu parte da juventude francesa e não só. Uma luta que veio a reboque do final da Segunda Guerra Mundial tornando-se um respiradouro para todos aqueles que sofreram os horrores provocados por um psicopata alemão…

Livros como "A Idade da Razão", "Sursis" e "Com a Morte na Alma", escritos por Sartre na primeira metade dos anos 50, tornaram-se um sucesso mundial de vendas. O trauma de uma guerra prolongada por um mentecapto que sonhava em dominar o mundo (tema que se refaz de tempos em tempos na história da humanidade, como nos dias atuais) fez com que a paz passasse a ser um bem a conquistar, deixando de lado a angústia e o medo existencial.

O ser humano está livre para tomar suas decisões e tomá-las com responsabilidade. Assim se deu a crise moral e de sobrevivência após a guerra. Ao contrário do filósofo Descartes que definiu a existência como fruto da nossa capacidade de pensar, ("penso, logo existo!), Sartre, após viver a destruição do humanismo pela guerra, considerou que a existência exigia de cada um de nós a liberdade para pensar e fazer suas escolhas com responsabilidade: existo, devo pensar com responsabilidade. A existência é humanista, desde que façamos nossas escolhas pelo bem comum.

Simone de Beauvoir era também uma existencialista e uma feminista "avant la lettre", ou seja, uma precursora que escolheu em sua obra literária mostrar a importância das mulheres para além da virtude de serem mães.

Em suas o
bras, particularmente em "Memórias de uma moça bem comportada", "A Força da Idade" e "A Velhice", mostra um ponto de vista corajoso ao expressar com muita propriedade e conhecimento o papel social da mulher.

Juntos, Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre criaram uma revista em 1945, "Les Temps Modernes", que se tornou famosa e bem acolhida em vários países mundo afora, constituindo-se numa forma de comunicação agregadora entre intelectuais e não só…

Foi quando homens e mulheres lutaram por um mundo melhor e mais solidário, sem imaginarem que essa "monstruosidade" seria novamente atacada por todos os lados por uma súcia de milionários que usam o seu dinheiro não para tornar o mundo melhor, mas para acabar com ele.

Izaías Al
mada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro nascido em BH. Em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.

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