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Avanço da agropecuária fez solos do Brasil liberarem 1,4 bilhão de toneladas de carbono - Nexo Jornal

nexojornal.com.br By Marcos Pivetta 2026-03-23 572 words
A conversão de áreas de vegetação nativa em lavouras ou pastos no Brasil nas últimas décadas retornou à atmosfera 1,4 bilhão de toneladas de carbono que estavam armazenadas nas camadas de solo com até 30 centímetros (cm) de profundidade. A quantidade corresponde a ter despejado no ar, ao longo do período, 5,2 bilhões de toneladas de dióxido de carbono (CO₂), principal gás do efeito estufa, que esquenta o clima global. Isso significa que essas camadas superficiais dos solos liberaram uma quantidade de carbono equivalente a pelo menos dois anos do total de emissões que ocorrem atualmente no país, levando-se em conta todos os processos e atividades envolvidos na produção de gases do efeito estufa.

Esses números fazem parte das principais conclusões de um amplo estudo nacional, coordenado por pesquisadores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), publicado no final de janeiro de 2026 na revista científica Nature Communications. O artigo compilou e analisou dados de 272 trabalhos publicados nos últimos 30 anos e usou informações de 4.290 amostras de solo provenientes dos seis biomas nacionais mantidas em um banco de dados. O valor calculado da emissão não inclui o carbono que volta para o ar devido à supressão da vegetação em si, que estava acima do solo. Ele abrange apenas a matéria orgânica com carbono (raízes mortas, restos de plantas e animais) acumulada nas camadas superficiais do solo.

Mais do que quantificar a perda de carbono do solo devido à conversão no uso da terra, o estudo indica o impacto de diferentes formas de exploração agropecuária. "A implementação de atividades agropecuárias em áreas que antes eram cobertas por vegetação nativa sempre faz o solo perder algum carbono", explica o engenheiro ambiental João Villela, que faz estágio de pós-doutorado na Esalq e é o primeiro autor do estudo. "Mas algumas práticas levam a uma maior liberação desse elemento do que outras."

Um dos objetivos do trabalho era determinar o peso de cada modalidade de uso da terra sobre a pegada de carbono deixada pelo solo nas grandes categorias de paisagens vegetais do país. Dessa forma, com base em dados obtidos em campo, é possível escolher por abordagens agrícolas que minimizem a perda de carbono ou até estimulem um leve aumento de retenção desse elemento (ver Pesquisa FAPESP nº 343).

A monocultura é a modalidade agrícola que mais reduz o carbono no solo, seguida das formas tradicionais de preparo da terra para plantio, ambas com uma diminuição acima de 20%, de acordo com o artigo. Ao revolver o solo com arado e outros instrumentos para moldar a área de cultivo, o trabalho convencional de preparo da terra acaba favorecendo a liberação de parte do carbono retido abaixo da superfície. Não por acaso o plantio direto, que dispensa a aragem, libera para a atmosfera apenas metade do carbono no solo, que é emitido pela adoção da maneira usual de preparar a terra.

Os sistemas de agricultura integrada, que podem promover concomitantemente o plantio de culturas e a adoção da pecuária e da silvicultura numa área, são os que menos liberam o carbono do solo. Em relação a 1 hectare com vegetação nativa, o solo de áreas manejadas dessa forma apresenta uma redução de 8,6% em seu total de carbono. A adoção da rotação ou consorciação de culturas e até mesmo da pecuária em certos contextos é outra estratégia que minimiza as perdas de carbono no solo (ver quadro).

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