Queda da Selic não resolve alta da inadimplência, diz economista do Serasa
Rebecca Crepaldi
Repórter de finanças
Publicado em 25 de março de 2026 às 05h00.
Mesmo com a Selic em trajetória de queda — recentemente reduzida para 14,75% pelo Comitê de Política Monetária (Copom), no menor nível em quase dois anos — o cenário de inadimplência no Brasil segue pressionado e sem sinais de melhora no curto prazo.
Dados do 'Mapa da Inadimplência' da Serasa mostram que o número de devedores bate recordes sucessivos desde 2021 e, ao longo de uma década, saltou 38%, passando de 59 milhões em 2016 para 81,7 milhões em fevereiro de 2026.
O comportamento indica que a relação entre juros e inadimplência existe, mas está longe de ser determinante. Mesmo em períodos de Selic em um dígito, o endividamento continuou avançando. Em 2020, por exemplo, com a taxa em 4,5%, o país já registrava 63,9 milhões de inadimplentes.
"Inadimplência não é exclusivamente sobre o efeito da taxa de juros, mas como está o nível da atividade econômica naquele momento", afirma Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa.
"Inadimplência não é exclusivamente sobre o efeito da taxa de juros, mas como está o nível da atividade econômica naquele momento", afirma Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa.
O único alívio relevante e que acompanhou, de fato, a taxa de juros, ocorreu entre 2020 e 2021, durante a pandemia. Entretanto, ele foi muito mais impulsionado por programas de renegociação de dívidas. Fora isso, a tendência foi de alta contínua.
Para a Serasa, mesmo com o mercado de trabalho aquecido, os juros ainda permanecem em níveis restritivos, o que limita uma reversão do quadro. A instituição, inclusive, mantém uma visão mais cautelosa que a média do mercado e projeta a Selic em torno de 13% ao fim de 2026.
"Vamos navegar num cenário com bastante incerteza por conta do contexto político", afirma Abdelmalack.
"Vamos navegar num cenário com bastante incerteza por conta do contexto político", afirma Abdelmalack.
O reflexo do alto endividamento é o comprometimento da renda. O estudo aponta que o brasileiro tem, em média, 70,5% da sua renda comprometida com contas básicas, como água, luz e telecomunicação, e dívidas a pagar, como fatura de cartão de crédito.
Para quem ganha até um salário mínimo, o comprometimento com contas básicas e dívidas chega a 90%. O restante, de forma subjetiva, deve ser utilizado para alimentação. Nesse sentido, as dívidas inadimplentes ficam para escanteio.
"É preocupante quando olhamos o quanto o custo de vida do brasileiro está pesando no bolso", afirma Aline Vieira, especialista em educação financeira da Serasa, que ainda destaca outro estudo da Serasa.
De acordo com a pesquisa, 70% dos brasileiros percebem aumento no custo de vida nos últimos 12 meses, com destaque para gastos com supermercado (31%), contas recorrentes (23%) e moradia (13%).
Os gastos básicos — como supermercado, água, luz e gás — passaram a pesar mais no orçamento. Contas essenciais, que antes tinham menor relevância, hoje ocupam a segunda posição entre os principais tipos de dívida, com avanço de 7 pontos percentuais. O cartão de crédito também ganhou participação, enquanto dívidas com telefonia perderam espaço, reflexo de iniciativas de renegociação com forte adesão do setor.
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E quem são os que estão mais inadimplentes? Os que ganham menos. A inadimplência se concentra na base: 48% ganham até um salário mínimo, enquanto 30% ganham até dois salários mínimos. Por outro lado, os que recebem mais de 10 salários mínimos respondem por apenas 2% dos indemplentes.
A presença massiva dessa faixa de renda entre os inadimplentes era esperada, visto que cerca de 77% da população brasileira ganha até dois salários mínimos.
O perfil dos inadimplentes também mudou. Se antes os homens predominavam, hoje as mulheres representam mais de 50% desse público.
"Quatro em cada 10 dizem que são responsáveis financeiramente pelas contas do lar, isso acaba explicando esse lugar de maior inadimplência. Sendo que 38% são as únicas responsáveis", destaca Vieira. Em média, cada CPF negativado carrega quatro dívidas.
"Quatro em cada 10 dizem que são responsáveis financeiramente pelas contas do lar, isso acaba explicando esse lugar de maior inadimplência. Sendo que 38% são as únicas responsáveis", destaca Vieira. Em média, cada CPF negativado carrega quatro dívidas.
A faixa etária também se transformou. Agora, há maior participação dos mais velhos: pessoas com mais de 60 anos já representam 19% do total. Isso porque esse grupo está mais inserido no ambiente digital, mas também mais exposto a riscos como fraudes.
Em pesquisas recentes, quatro em cada 10 idosos relataram ter sofrido golpes com prejuízo financeiro, muitas vezes associados ao avanço de tecnologias como inteligência artificial.
O grande vilão de tudo ainda é o sistema financeiro (bancos, cartões e financeiras). A participação do setor financeiro na inadimplência do consumidor subiu de cerca de 38% no pré-pandemia para aproximadamente 45% no período recente.
O resultado é que as instituições estão desacelerando o ritmo de concessão de juros mais baratos. Ou seja, a população está se endividando em dívidas mais caras.
"Não devemos ter tão cedo essa reversão do cenário de inadimplência, por conta dessa concessão do crédito rotativo", destaca Vieira.
"Não devemos ter tão cedo essa reversão do cenário de inadimplência, por conta dessa concessão do crédito rotativo", destaca Vieira.
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Good use of named experts from the primary data source (Serasa), but lacks external or primary sources like consumers or other institutions.
Specific Findings from the Article (3)
""Inadimplência não é exclusivamente sobre o efeito da taxa de juros, mas como está o nível da atividade econômica naquele momento", afirma Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa."
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Named source""É preocupante quando olhamos o quanto o custo de vida do brasileiro está pesando no bolso", afirma Aline Vieira, especialista em educação financeira da Serasa"
Named expert source with title provided.
Named source"Dados do 'Mapa da Inadimplência' da Serasa mostram que o número de devedores bate recordes sucessivos desde 2021"
Relies on a named secondary institutional source (Serasa study).
Secondary sourcePerspective Balance
Acknowledgment of multiple viewpoints, counterarguments, and balanced presentation
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Article presents a single, data-driven perspective from Serasa economists without exploring alternative views from other economists, government, or consumer advocates.
Specific Findings from the Article (2)
"Para a Serasa, mesmo com o mercado de trabalho aquecido, os juros ainda permanecem em níveis restritivos, o que limita uma reversão do quadro."
Presents only Serasa's institutional view without counterpoint.
One sided"O grande vilão de tudo ainda é o sistema financeiro (bancos, cartões e financeiras)."
Makes a definitive, one-sided claim about a 'villain' without presenting the financial system's perspective.
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"saltou 38%, passando de 59 milhões em 2016 para 81,7 milhões em fevereiro de 2026."
Provides specific, decade-spanning statistical context.
Statistic"Mesmo em períodos de Selic em um dígito, o endividamento continuou avançando. Em 2020, por exemplo, com a taxa em 4,5%, o país já registrava 63,9 milhões de inadimplentes."
Provides historical context to challenge a simple interest-rate narrative.
Background"o brasileiro tem, em média, 70,5% da sua renda comprometida"
Provides detailed statistical evidence to support the analysis.
StatisticLanguage Neutrality
Absence of loaded, sensationalist, or politically biased language
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"Dados do 'Mapa da Inadimplência' da Serasa mostram"
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Neutral language"O grande vilão de tudo ainda é o sistema financeiro"
Uses emotionally charged term 'vilão' (villain).
Sensationalist"É preocupante quando olhamos o quanto o custo de vida do brasileiro está pesando no bolso"
Uses subjective, concern-oriented language ('preocupante', 'pesando').
SensationalistTransparency
Author attribution, dates, methodology disclosure, quote attribution
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Full author attribution, clear date/time, and all quotes and data are attributed to their specific sources.
Specific Findings from the Article (3)
"Rebecca Crepaldi Repórter de finanças"
Author name and role clearly stated.
Author attribution"Publicado em 25 de março de 2026 às 05h00."
Precise publication date and time provided.
Date present"afirma Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa."
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Quote attributionLogical Coherence
Internal consistency of claims, absence of contradictions and unsupported causation
Summary
Article presents a logically consistent argument supported by data; no contradictions or unsupported leaps detected.
Logic Issues Detected
-
Contradiction (high)
Conflicting values for 'the': 2021 vs 70.5%
"Heuristic: Values conflict between P1 and P2"
Core Claims & Their Sources
-
"The drop in the Selic (Brazil's benchmark interest rate) is not resolving the high level of consumer debt delinquency."
Source: Supported by data from the Serasa 'Mapa da Inadimplência' study and analysis from Serasa's chief economist, Camila Abdelmalack. Named secondary
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"Delinquency is more closely tied to the level of economic activity and cost of living pressures than solely to interest rates."
Source: Direct quote and analysis from Serasa's chief economist, Camila Abdelmalack. Named secondary
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"The profile of delinquent debtors has changed over the past decade, with greater representation from women, older adults, and low-income earners."
Source: Supported by data and quotes from the Serasa study and specialist Aline Vieira. Named secondary
Logic Model Inspector
Inconsistencies FoundExtracted Propositions (8)
-
P1
"The number of debtors in Brazil hit successive records since 2021, jumping 38% from 59 million in 2016 to 81.7 million in February 2026."
Factual In contradiction -
P2
"The average Brazilian has 70.5% of their income committed to basic bills and debts."
Factual In contradiction -
P3
"48% of delinquent debtors earn up to one minimum wage."
Factual -
P4
"Women now represent over 50% of delinquent debtors."
Factual -
P5
"People over 60 years old represent 19% of delinquent debtors."
Factual -
P6
"High cost of living (basic bills, supermarket) causes High income commitment -> Debts are sidelined and become delinquent."
Causal -
P7
"Increased digital inclusion of older adults + exposure to new technologies like AI causes Greater risk of fraud and financial loss -> Contribution ..."
Causal -
P8
"Financial institutions slowing the pace of cheaper credit concessions causes Population is getting into more expensive debt -> Delays reversal of d..."
Causal
Claim Relationships Graph
Detected Contradictions (1)
View Formal Logic Representation
=== Propositions === P1 [factual]: The number of debtors in Brazil hit successive records since 2021, jumping 38% from 59 million in 2016 to 81.7 million in February 2026. P2 [factual]: The average Brazilian has 70.5% of their income committed to basic bills and debts. P3 [factual]: 48% of delinquent debtors earn up to one minimum wage. P4 [factual]: Women now represent over 50% of delinquent debtors. P5 [factual]: People over 60 years old represent 19% of delinquent debtors. P6 [causal]: High cost of living (basic bills, supermarket) causes High income commitment -> Debts are sidelined and become delinquent. P7 [causal]: Increased digital inclusion of older adults + exposure to new technologies like AI causes Greater risk of fraud and financial loss -> Contribution to delinquency in that age group. P8 [causal]: Financial institutions slowing the pace of cheaper credit concessions causes Population is getting into more expensive debt -> Delays reversal of delinquency scenario. === Constraints === P1 contradicts P2 Note: Conflicting values for 'the': 2021 vs 70.5% === Causal Graph === high cost of living basic bills supermarket -> high income commitment debts are sidelined and become delinquent increased digital inclusion of older adults exposure to new technologies like ai -> greater risk of fraud and financial loss contribution to delinquency in that age group financial institutions slowing the pace of cheaper credit concessions -> population is getting into more expensive debt delays reversal of delinquency scenario === Detected Contradictions === UNSAT: P1 AND P2 Proof: Heuristic: Values conflict between P1 and P2