B
24/30
Good

Valor da dívida dos brasileiros supera PIB do Uruguai e compraria o Itaú

exame.com By Rebecca Crepaldi 2026-03-25 996 words
Mapa da Inadimplência: estudo mostra que perfil dos inadimplentes mudou em uma década (Getty Images/Reprodução)

Rebecca Crepaldi

Repórter de finanças

Publicado em 25 de março de 2026 às 05h00.

Se a dívida de todos os inadimplentes no Brasil fosse somada, esse número teria chegado a R$ 539 bilhões em fevereiro de 2026, segundo dados do 'Mapa da Inadimplência' do Serasa.

A cifra é maior que o valor de mercado do Itaú (R$ 466,1 bilhões) e maior do que o Produto Interno Bruto (PIB) de países como Costa Rica, Luxemburgo, Croácia, Panamá, Lituânia, Uruguai, Paraguai, Islândia, Líbano, Jamaica e Bahamas.

São 332 milhões de dívidas, um aumento de 43,6% em relação a fevereiro de 2016. Naquela época, o número de dívidas era de 231 milhões, somando um montante de R$ 348 bilhões.

O estudo ainda mostra que o número de devedores bate recordes sucessivos desde 2021
e, ao longo de uma década, saltou 38%, passando de 59 milhões em 2016 para 81,7 milhões em fevereiro de 2026.

O reflexo do alto endividamento é o comprometimento da renda. O estudo aponta que o brasileiro tem, em média, 70,5% da sua renda comprometida com contas básicas, como água, luz e telecomunicação, e dívidas a pagar, como fatura de cartão de crédito.

Para quem ganha até um salário mínimo, o comprometimento com contas básicas e dívidas chega a 90%. O restante, de forma subjetiva, deve ser utilizado para alimentação. Nesse sentido, as dívidas inadimplentes ficam para escanteio.

"É preocupante quando olhamos o quanto o custo de vida do brasileiro está pesando no bolso", afirma Aline Vieira, especialista em educação financeira da Serasa, que ainda destaca outro estudo da Serasa.

De acordo com a pesquisa, 70% dos brasileiros percebem aumento no custo de vida nos últimos 12 meses, com destaque para gastos com supermercado (31%), contas recorrentes (23%) e moradia (13%).

Os gastos básicos — como supermercado, água, luz e gás — passaram a pesar mais no orçamento. Contas essenciais, que antes tinham menor relevância, hoje ocupam a segunda posição entre os principais tipos de dívida, com avanço de 7 pontos percentuais. O cartão de crédito também ganhou participação, enquanto dívidas com telefonia perderam espaço, reflexo de iniciativas de renegociação com forte adesão do setor.

Carro próprio, alugado ou apps de corrida: o que pesa menos no bolso?

Cozinhar em casa ou pedir comida fora: qual escolha pesa mais no bolso?

E quem são os que estão mais inadimplentes? Os que ganham menos. A inadimplência se concentra na base: 48% ganham até um salário mínimo, enquanto 30% ganham até dois salários mínimos. Por outro lado, os que recebem mais de 10 salários mínimos respondem por apenas 2% dos indemplentes.

A presença massiva dessa faixa de renda entre os inadimplentes era esperada, visto que cerca de 77% da população brasileira ganha até dois salários mínimos.

O perfil dos inadimplentes também mudou. Se antes os homens predominavam, hoje as mulheres representam mais de 50% desse público.

"Quatro em cada 10 dizem que são responsáveis financeiramente pelas contas do lar, isso acaba explicando esse lugar de maior inadimplência. Sendo que 38% são as únicas responsáveis", destaca Vieira. Em média, cada CPF negativado carrega quatro dívidas.

"Quatro em cada 10 dizem que são responsáveis financeiramente pelas contas do lar, isso acaba explicando esse lugar de maior inadimplência. Sendo que 38% são as únicas responsáveis", destaca Vieira. Em média, cada CPF negativado carrega quatro dívidas.

A faixa etária também se transformou. Agora, há maior participação dos mais velhos: pessoas com mais de 60 anos já representam 19% do total. Isso porque esse grupo está mais inserido no ambiente digital, mas também mais exposto a riscos como fraudes.

Em pesquisas recentes, quatro em cada 10 idosos relataram ter sofrido golpes com prejuízo financeiro, muitas vezes associados ao avanço de tecnologias como inteligência artificial.

O grande vilão de tudo ainda é o sistema financeiro (bancos, cartões e financeiras). A particip
ação do setor financeiro na inadimplência do consumidor subiu de cerca de 38% no pré-pandemia para aproximadamente 45% no período recente.

O resultado é que as instituições estão desacelerando o ritmo de concessão de juros mais baratos. Ou seja, a população está se endividando em dívidas mais caras.

"Não devemos ter tão cedo essa reversão do cenário de inadimplência, por conta dessa concessão do crédito rotativo", destaca Vieira.

"Não devemos ter tão cedo essa reversão do cenário de inadimplência, por conta dessa concessão do crédito rotativo", destaca Vieira.

Mesmo com a Selic em trajetória de queda — recentemente reduzida para 14,75% pelo Comitê de Política Monetária (Copom), no menor nível em quase dois anos — o cenário de inadimplência no Brasil segue pressionado e sem sinais de melhora no curto prazo.

O comportamento indica que a relação entre juros e inadimplência existe, mas está longe de ser determinante. Mesmo em p
eríodos de Selic em um dígito, o endividamento continuou avançando. Em 2020, por exemplo, com a taxa em 4,5%, o país já registrava 63,9 milhões de inadimplentes.

"Inadimplência não é exclusivamente sobre o efeito da taxa de juros, mas como está o nível da atividade econômica naquele momento", afirma Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa.

"Inadimpl
ência não é exclusivamente sobre o efeito da taxa de juros, mas como está o nível da atividade econômica naquele momento", afirma Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa.

O único alívio relevante e que acompanhou, de fato, a taxa de juros, ocorreu entre 2020 e 2021, durante a pandemia. Entretanto, ele foi muito mais impulsionado por programas de renegociação de dívidas. Fora isso, a tendência foi de alta contínua.

Para a Serasa, mesmo com o mercado de trabalho aquecido, os juros ainda permanecem em níveis restritivos, o que limita uma reversão do quadro. A instituição, inclusive, mantém uma visão mais cautelosa que a média do mercado e projeta a Selic em torno de 13% ao fim de 2026.

"Vamos navegar num cenário com bastante incerteza por conta do contexto político", afirma Abdelmalack.

"Vamos navegar num cenário com bastante incerteza por conta do contexto político", afirma Abdelmalack.

Tap highlighted text for details

Source Quality
Perspective
Context
Neutrality
Transparency
Logic