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Por que o figurino-manifesto de retorno do BTS está dando tanto o que falar?

veja.abril.com.br By Simone Blanes 2026-03-24 701 words
Por que o figurino-manifesto de retorno do BTS está dando tanto o que falar?

Por trás dos looks assinados pela Songzio, há uma Coreia que se afirma ao mundo e sete identidades que finalmente se libertam

Antes do silêncio imposto pelo serviço militar, o BTS já não era apenas uma potência musical, mas também um fenômeno de moda. Sentados na primeira fila, moviam cifras invisíveis; vestidos por gigantes como Dior, Gucci, Calvin Klein e Celine, transformavam cada aparição em capital simbólico. No último ato coletivo, no Grammy de 2022, vestiram Louis Vuitton sob a assinatura de Virgil Abloh. Era o ápice de uma narrativa global.

Por isso, agora, nesse aguardado retorno, o que vestem diz bem mais do que parece. Ao escolher a marca sul-coreana Songzio para o comeback, o grupo fez algo raro na engrenagem do luxo contemporâneo: virou o eixo. Em vez de reforçar a validação europeia, decidiu olhar para dentro. O palco — a histórica Gwanghwamun Square, em Seul — e o álbum, "Arirang", inspirado em uma canção folclórica de mais de um século, já indicavam o tom. Mas foi o figurino que selou a poderosa mensagem.

Ao "The New York Times", o designer Jay Songzio admitiu o peso do convite: disse que, "no mercado internacional de luxo, é difícil para um designer coreano independente", e que ver "ícones coreanos escolherem uma marca coreana para um momento histórico" foi algo "emocionante" — e, acima de tudo, simbólico.

A coleção, batizada de "Armadura Lírica", traduz exatamente esse gesto. Há referências diretas às armaduras da dinastia Joseon, mas sem rigidez: a ideia inicial de estruturas pesadas foi abandonada em favor da fluidez do hanbok, o traje tradicional coreano (lembram da Janja, que vestiu um para ser recepcionada pela primeira-dama do país?). O resultado é uma tensão bonita entre proteção e movimento, passado e futuro. Tecidos naturais, algodão e linho trabalhados na Coreia, ganham textura quase pictórica, como pinceladas sobre papel antigo.

Roupa como linguagem

E talvez o conceito mais poderoso esteja numa palavra: "han". Como explicou Songzio ao jornal americano, trata-se de um sentimento difícil de traduzir — algo entre saudade, dor e resistência, nascido de uma história turbulenta. "Tentamos reimaginar os membros do BTS como figuras heroicas, conduzindo nossa cultura para um futuro mais luminoso", disse.

Cada integrante surge como um personagem próprio: RM, o líder-herói; Jin, o artista; Jimin, o poeta; Suga, o arquiteto; Jungkook, a vanguarda. J-Hope encarna o Sorigun, uma espécie de homem do som que mistura tradição e musicalidade; V, o Doryeong, figura que oscila entre nobreza e sofisticação. É quase mitologia pop costurada em tecido técnico.

E há um detalhe revelador: desta vez, a identidade coletiva dá espaço ao indivíduo. Segundo o estilista, antes do hiato o grupo operava mais como unidade; agora, cada membro carrega uma assinatura própria, construída em reuniões individuais, ajustes minuciosos e idas e vindas criativas.

Na prática, isso aparece em peças mutáveis — e aqui entra o truque de styling que faz o look ganhar vida no palco. Cada figurino foi pensado para se transformar: zíperes ocultos, volumes que se expandem, camadas removíveis. J-Hope veste uma calça cargo de estética militar que se abre em proporções dramáticas; RM tem um casaco que se desdobra em capa. Metamorfose como conceito e, no caso deles, como necessidade já que são horas de performance.

Por que ali o que está em jogo não é apenas estética. É reposicionamento. E o BTS volta não como produto do Ocidente, mas como autor de uma narrativa própria. A moda deixa de ser vitrine e passa a ser discurso. E, nesse retorno, talvez esteja o gesto mais potente do grupo até hoje: mostrar que o futuro global pode, sim, ser escrito a partir de raízes locais — e que estilo, quando bem usado, também é uma forma de soberania cultural.

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