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HQ de Briga: o gibi brasileiro que fala a língua dos games | Gibis & Cia

veja.abril.com.br By Alessandro Giannini 2026-03-24 1313 words
HQ de Briga: o gibi brasileiro que fala a língua dos games

O ilustrador e quadrinista Silva João fala sobre seu primeiro grande projeto, que saiu da web para o suporte impresso

Com o recente lançamento de HQ de Briga pela editora JBC, o ilustrador e quadrinista Silva João consolida uma trajetória que começou longe do mundo artístico. Natural de São Paulo e criado em Rio Claro, no interior paulista, João Paulo Silva, seu nome de batismo, se formou em Letras pela USP depois de uma passagem pelas ciências exatas — e foi justamente nessa travessia que descobriu nos quadrinhos o espaço ideal para unir desenho e narrativa.

Sua estreia profissional veio em 2018, com Combo Breaker, ao lado do roteirista Angelo Dias. Um ano depois, a webcomic HQ de Briga viralizou no Twitter e rendeu edições impressas via Catarse, pelo Atelier Compacto. A obra é uma aventura de ação e comédia com pitadas de metalinguagem, em que os próprios personagens enfrentam problemas justamente por estarem dentro de uma história. O reconhecimento chegou em 2020, com o Troféu HQ Mix na categoria Web Tira.

Como surgiu HQ de Briga e em que momento você decidiu levar a obra da internet para uma publicação de fôlego? Começou como uma brincadeira que eu fazia para mim mesmo entre projetos de trabalho, numa época em que atuava como ilustrador e animador. Eu queria contar minhas próprias histórias e percebi que essa era uma que conseguia inventar enquanto desenhava — um processo que funciona muito bem para mim. Por um ano, mantive a HQ restrita a umas vinte pessoas, até que, em 2019, fui para o Twitter, divulguei a obra e alcancei muito mais gente. O pessoal começou a pedir uma versão impressa, então fiz um financiamento pelo Catarse para lançar o volume de forma independente com a minha companheira, que é produtora gráfica. Vendemos em eventos como a CCXP, mas aí veio a pandemia e dei uma esfriada no projeto para liderar trabalhos em um estúdio de animação por quatro anos. Até que o Marcelo Naranjo, da editora JBC, me procurou com a proposta de trazer de volta gibis brasileiros independentes. Eu já queria publicar por uma editora há muito tempo, então aceitei imediatamente.

Já existia uma edição independente — quais foram as principais mudanças para essa nova versão da JBC? Tivemos várias mudanças estruturais. Antes o lettering era feito à mão e não havia revisão; agora contamos com revisão profissional e uma equipe de design dedicada. Eu também refiz todas as aberturas de capítulo deste volume. Na webcomic, costumo convidar amigos para desenharem as capas de cada capítulo, mas para o livro impresso quis algo mais orgânico, para que o leitor sinta que tem nas mãos um livro único — não uma revistinha de banca. Além disso, criei um capítulo extra exclusivo para o final: o protagonista enfrenta um monstro no banheiro de uma rodoviária. A ideia é que todo livro impresso tenha um capítulo que não está na internet. O volume dois já está bem adiantado e a expectativa é lançá-lo ainda este ano pelo selo JBStudios; a intenção é terminar a série em quatro volumes — um box fechadinho onde conto tudo o que quero contar.

Como você definiria HQ de Briga não apenas em seu formato, mas tematicamente? Gosto de definir a obra como uma exploração metalinguística em forma de ação e comédia. Como sou formado em Letras, tenho interesse na história da literatura e em como os temas evoluíram com o tempo: começou com o homem contra a natureza, virou o homem contra Deus, depois o homem contra a sociedade e, por fim, o personagem contra o autor. Achei muito interessante contar uma história em que os personagens enfrentam problemas justamente porque estão dentro de uma ficção. A narrativa serve de palco para uma aventura de porrada enquanto discute temas como força criativa e agência do personagem. Eu pergunto aos personagens o que fariam e os deixo agir — sinto que estou apenas observando, não controlando.

Seus personagens nasceram no meio digital. Como você enxerga a leitura de quadrinhos em telas, já que muitos leitores ainda resistem a esse formato? Acho o digital maravilhoso pela acessibilidade e pela facilidade de difundir histórias. Durante a pandemia, foi excelente poder ler muito sem precisar sair para comprar, e eu mesmo desenvolvi o gosto por telas — cheguei a ler O Senhor dos Anéis no iPad sem nenhum problema. Obviamente, adoro a mídia impressa, o diálogo entre tinta e papel, e tenho o fetiche de pegar no livro. Mas, objetivamente, o digital é uma escolha excelente para quadrinhos porque permite que o autor se autopublique de forma rápida e muito barata. As webcomics ajudaram uma nova geração inteira de artistas a começar, assim como os blogs fizeram dez ou quinze anos atrás. Eu só tenho a agradecer ao formato.

A JBC é uma editora historicamente especializada em mangás. HQ de Briga é, de fato, um mangá — ou essa classificação é acidental? Pessoalmente, não o considero um mangá; prefiro tratá-lo como um gibi brasileiro. Mas entendo perfeitamente por que a JBC o enxerga e categoriza dessa forma. Existe uma grande semelhança de temas com obras como Dragon Ball ou Yu Yu Hakusho: tem o torneio, a luta, o treinamento, os poderes. Quem consome mangá encontra em HQ de Briga um terreno familiar. Comercialmente, faz todo sentido. O desafio, porém, é garantir que quem não lê mangá não fique com receio de se aproximar da obra achando que ela é exclusiva para o público otaku.

Vivemos hoje um boom de quadrinhos no Brasil, com projetos independentes e financiamentos coletivos batendo metas. A que você atribui essa oferta crescente? A barreira de entrada se dissolveu muito. Quase todo desenhista começou criança dividindo a página do caderno em quadrados e desenhando bonecos palito. Hoje, as pessoas perceberam que podem se autopublicar de um jeito viável. O quadrinho também é uma grande ferramenta para treinar narrativa visual e escrita — e, como fazer um filme ou um videogame exige uma equipe enorme, muita gente que quer contar histórias encontra nos quadrinhos o meio ideal. A popularidade do Catarse e a quantidade de campanhas bem-sucedidas ajudaram a mostrar que é possível. Fazer quadrinhos no Brasil se tornou algo factível, e muito legal.

A obra tem muita cara de videogame e uma dinâmica rítmica bastante singular. Existe algum plano de transformar HQ de Briga em jogo ou em série de animação? Sim, projetos existem para os dois. O Desenho de Briga já foi desenvolvido quando eu trabalhava no Combo Studio, mas está na gaveta porque o mercado de animação encolheu e os streamings estão arriscando menos em propriedades intelectuais novas. O projeto de jogo talvez seja mais factível — embora eu ainda esteja na fase de ideias iniciais. Criar um jogo de HQ de Briga é, sem dúvida, um sonho meu.

Para fecharmos: no que mais você está trabalhando atualmente? Falei em videogames porque estou, de fato, desenvolvendo um agora — mas não é do HQ de Briga. Conseguimos financiamento por meio de um edital e estou criando com uma equipe um jogo narrativo de quebra-cabeças. Fora isso, desenho HQ de Briga todos os dias, pretendo retomar a minha loja online e tenho a agenda cheia de feiras de quadrinhos pelo Brasil — como o Circuito Amazônico de Quadrinhos, em Manaus, e o Motim, em Brasília. E, claro, o volume dois deve chegar às prateleiras até o ano que vem.

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