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Primeira usina nuclear do Vietnã será construída em parceria com a Rússia

operamundi.uol.com.br By Mauro Ramos 2026-03-24 941 words
Primeira usina nuclear do Vietnã será construída em parceria com a Rússia

Projeto fortalece independência energética do país e pode abrir novas oportunidades de crescimento econômico

A Rússia e o Vietnã assinaram um acordo intergovernamental para a construção da primeira usina nuclear vietnamita, a Usina de Ninh Thuan 1, em cerimônia realizada em Moscou na presença dos primeiros-ministros Mikhail Mishustin e Pham Minh Tinh na segunda-feira (23/03).

Os países acordaram a construção de duas unidades geradoras do modelo russo VVER-1200, com capacidade instalada total de 2.400 MW. Segundo a Embaixada da Rússia no Vietnã, o texto define as condições e as principais diretrizes de cooperação entre as partes na implementação do projeto.

O documento foi assinado pelo diretor-geral da estatal russa de energia atômica Rosatom, Alexey Likhachev, e pelo ministro e chefe do gabinete do governo vietnamita, Tran Van Son, segundo o site do governo russo.

O modelo para a primeira central nuclear vietnamita será o da Usina Nuclear de Leningrado-2, que opera de forma estável com os mesmos reatores de terceira geração, com suas unidades 1 e 2 conectadas à rede em 2018 e 2020, respectivamente.

"Para nós, isto é mais do que um acordo para a construção de dois reatores. Vemos isto como a base para uma parceria industrial de longo prazo, que fortalecerá a independência energética do Vietnã e abrirá novas oportunidades de crescimento econômico", disse Likhachev durante a cerimônia, segundo The Moscow Times.

Uma matriz em transição, mas ainda ancorada no carvão

O Vietnã possui o segundo maior sistema elétrico dos países da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), com 87.600 MW no final de 2025, ficando atrás da Indonésia, apenas.

Em abril do ano passado, o governo vietnamita aprovou a revisão do Plano Nacional de Desenvolvimento Elétrico, fixando novas metas de longo prazo quanto à transição energética. O documento estabelece que as fontes renováveis, excluindo a hidrelétrica, devem alcançar entre 28% e 36% da geração em 2030, com uma projeção de 74% a 75% até 2050. Tanto a usina de Ninh Thuan 1 como a 2 fazem parte desse cálculo. Ambas deverão entrar em operação entre 2030 e 2035, com uma capacidade combinada entre 4.000 e 6.400 MW. A Ninh Thuan 2 vinha sendo negociada com o Japão, mas o acordo foi formalmente encerrado em janeiro de 2026 e o novo parceiro ainda não foi definido.

As usinas termelétricas a carvão ainda ocupam um lugar central na matriz energética vietnamita, com sua capacidade instalada representando 32,1% de toda a produção do país. Em termos de geração real, o carvão representou 54,3% da produção no primeiro semestre de 2025 (último dado disponível).

Já em termos de capacidade instalada, a energia renovável (eólica, solar e biomassa) responde por 27,9% e as hidroelétricas, 28,1%. A porcentagem da geração real das hidrelétricas no primeiro semestre de 2025 foi de 23,4%, e de 13,5% no caso das renováveis.

O Plano Nacional de Desenvolvimento Elétrico do Vietnã revisado projeta uma expansão da demanda entre 10,3% e 12,5% ao ano, para acompanhar as metas econômicas do período 2026-2030. Isso equivale a acrescentar entre 2.200 e 2.500 MW de capacidade anualmente.

Nas últimas décadas, o Vietnã consolidou-se como um dos principais polos manufatureiros da Ásia, absorvendo parte da produção industrial que migrou da China, o que causou um aumento na demanda energética.

A produção nacional de eletricidade comercial passou de aproximadamente 158 bilhões de kWh em 2016 para cerca de 276 bilhões de kWh em 2024, a uma taxa média de crescimento de 7,2% ao ano, segundo dados do Departamento de Economia de Energia do Instituto de Energia, pertencente ao Ministério da Indústria e Comércio vietnamita.

O acordo assinado em Moscou se insere também no marco da Decisão nº 438/QD-TTg, assinada pelo primeiro-ministro Pham Minh Tinh dias antes da viagem à Rússia, que aprova a Estratégia para o Desenvolvimento e Aplicação da Energia Atômica para Fins Pacíficos até 2035, com visão até 2050.

O texto identifica a energia nuclear como setor econômico e técnico fundamental para a segurança energética nacional e a meta zero de emissões líquidas até 2050. Ninh Thuan 1 é o projeto central do roteiro até 2035, com os reatores previstos para entrar em operação entre 2031 e 2035.

Projeto sairá do papel após mais de uma década de espera

O projeto da primeira planta nuclear vietnamita com apoio russo já havia sido realizado, mas ficou estagnado por falta de recursos, principalmente. Em novembro de 2009, a Assembleia Nacional havia aprovado o investimento no Projeto de Energia Nuclear de Ninh Thuan, composto por duas usinas com capacidade total superior a 4.000 MW e custo estimado originalmente em 200 trilhões de dongs vietnamitas (R$ 23,5 bilhões). O plano original previa a Rússia como parceira em Ninh Thuan 1 e o Japão em Ninh Thuan 2, com obras previstas para começar em 2014 e a primeira unidade gerando eletricidade em 2020.

O primeiro acordo foi firmado em novembro de 2010, durante visita do então presidente russo Dmitry Medvedev a Hanói. Na ocasião, o diretor-geral da Rosatom, Sergei Kiriyenko, chegou a projetar a construção de até seis reatores no local. Medvedev afirmou que a usina "permitiria ao Vietnã se desenvolver como país independente, que não apenas produz e refina petróleo, mas utiliza outras fontes de energia".

Desde o início da agressão militar dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, os preços da gasolina e do diesel no Vietnã dispararam 50% e 70%, respectivamente, pressionando a economia do país.

A visita a Moscou também rendeu outros acordos bilaterais: a Zarubezhneft e a PetroVietnam formalizaram parcerias para o desenvolvimento conjunto de campos de petróleo e gás nos dois países, segundo o primeiro-ministro Mikhail Mishustin.

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