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Documentários oportunos, contundentes e relevantes - revista piauí

piaui.uol.com.br By Luigi Mazza; Eduardo Escorel 2026-03-25 1226 words
Militares argentinos numa das imagens exibidas na série Fronteiras da memória Foto: Eduardo Longoni/Divulgação

Documentários oportunos, contundentes e relevantes

Cheiro de Diesel e Fronteiras da Memória

Estreiam em abril um longa-metragem e uma série em três episódios, ambos oportunos. Ser "oportuno" não é pouca coisa em meio à permanente invasão dos cinemas por filmes irrelevantes. Mas, além disso, Cheiro de Diesel, de Natasha Neri e Gizele Martins, e Fronteiras da Memória, de Stela Grisotti, são também contundentes, qualidade adicional que os torna ainda mais merecedores de atenção.

Cheiro de Diesel, que estreia em 2 de abril no Rio de Janeiro e São Paulo (demais praças ainda estão por serem confirmadas), trata de um tema que se mantém atual: as consequências das ocupações de favelas na Zona Norte do Rio pelo Exército, a partir de 2014 até dezembro de 2018. Ordenadas por decretos presidenciais de Garantia da Lei e da Ordem (GLOs), nos governos Dilma e Temer, essas operações tinham o propósito, supostamente, de pacificar a região.

Um dos personagens secundários do documentário é o interventor federal nomeado por Temer, general Braga Netto, que era comandante militar do Leste desde 2016. No governo Bolsonaro, tornou-se vice-presidente da República, foi ministro-chefe da Casa Civil de 2020 a 2021, e ministro da Defesa de 2021 a 2022. Hoje, está preso na 1ª Divisão do Exército, na Vila Militar, no Rio, condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 26 anos de prisão em regime fechado por sua participação na trama golpista para impedir a posse do presidente Lula. Com essa condenação de um oficial de alta patente, o Brasil seguiu, embora com grande atraso e por razão diversa, o bom exemplo da Argentina e do Chile. Os dois países condenaram, respectivamente, em 1985, os líderes da ditadura militar (1976-1983) e, a partir de 1998, os militares envolvidos nos chamados "desaparecimentos forçados" de pessoas – temas tratados, por coincidência, na série Fronteiras da Memória.

A atualidade, relevância e contundência do tema de Cheiro de Diesel é atestável nos jornais. Há alguns dias, a organização Redes da Maré divulgou o boletim Direito à segurança pública na Maré, apontando que, desde 2016, nas "quinze favelas que compõem o Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio" foram realizadas "231 operações policiais, com 160 mortes e 1.538 episódios de violência e violações de direitos dos moradores, incluindo ameaças, tortura e cárcere privado".

Cheiro de Diesel retrata essa situação, no período de 2014 a 2018, de maneira inequívoca. Demonstra não apenas o fracasso da operação, mas também a violência e as arbitrariedades cometidas nas intervenções militares sob responsabilidade do Exército – "assassinatos, chacinas, prisões, invasões das casas, estupros", segundo um depoimento em voz off não identificada, mas que parece ser da jornalista e codiretora Martins. Enquanto isso, outra pessoa relata:

a gente, morador, ser visto como inimigo, era esse o cenário. Eles viam nós, moradores, como inimigos, então eles faziam todo tipo de violação, todo tipo de opressão, todo tipo de abuso […] o interventor, quando a gente vai lá para conversar com ele, ele é a mesma coisa que conversar com um poste, sabe? Ele não dava resposta. Sempre empurrava a gente para falar com terceiros, abaixo dele. Esse outro empurrava para outro, o outro empurrava para outro, acabava que a gente ficava sem resposta.

Martins conduz as entrevistas nas quais se sucedem denúncias de desrespeito aos direitos humanos. Na abertura e encerramento de Cheiro de Diesel, ela está na Avenida Presidente Vargas, no Centro do Rio, diante do Pantheon de Caxias, gravando um desfile militar. No início e no final do documentário, o som dos coturnos pisando no asfalto com força, em cadência ritmada, fica gravado na memória como um sinal opressivo de desesperança. Cheiro de Diesel é, ainda por cima, corajoso – aborda a responsabilidade do Exército de frente, sem meias palavras e disfarces. O título é referência direta ao cheiro do combustível dos tanques e veículos blindados, sentido pelos moradores durante a ocupação militar da favela.

Legendas de encerramento, em seguida ao desfile, informam, primeiro, que as vítimas da violência militar que dão seu testemunho sobre o que sofreram em Cheiro de Diesel "não receberam reparação cível do Estado brasileiro" até o final da produção do documentário; assinalam, em seguida, que foi arquivada a investigação sobre a tortura sofrida por alguns na sala vermelha da Vila Militar.

Em um discurso pouco antes do final do filme, Martins define seu próprio trabalho como sendo "[um jornalismo] que luta, principalmente, pelo direito à vida, um direito ainda a ser conquistado por esses moradores de favelas e de periferia do país".

Exibido no Festival do Rio de 2025 na mostra Première Brasil, Cheiro de Diesel ganhou o Prêmio Especial do Júri e o prêmio de Melhor Documentário pelo Voto Popular.

Fronteiras da Memória, série em três episódios sobre preservação da memória, resistência e busca da verdade na Argentina, no Brasil e no Chile, está disponível no CurtaOn – Clube de Documentários e terá exibições semanais no canal Curta! a partir de 10 de abril.

Mais sofisticada visualmente do que o despojado Cheiro de Diesel, Fronteiras da Memória, dirigida por Grisotti, é focada na criação de Centros ou Espaços de Memória nos três países, abrangendo desde arquivos e museus até monumentos. Trata também da impunidade dos responsáveis por torturas, assassinatos, desaparecimentos, rapto de crianças etc., o que sugere estabelecer um elo interessante com Anistia 79, de Anita Leandro, comentado aqui em 25 de fevereiro.

Da Argentina e do Chile, os documentários nos trazem mensagens que mostram os dois países em um estágio civilizatório mais avançado do que o Brasil, livres da armadilha que herdamos da nossa Lei da Anistia, de 1979, que assegurou a impunidade dos responsáveis por torturas, desaparecimentos e assassinatos, a serviço do Estado – mandantes e agentes –, durante a ditadura militar (1964-1985).

Leonardo Fossati, Coordenador do Espaço para a Memória e Promoção dos Direitos Humanos instalado no antigo Centro Clandestino de Detenção 'Comisaría 5ta' e Subsecretário de Direitos Humanos da cidade de La Plata, na Argentina, nos diz:

Restituir a identidade de uma pessoa é também restituir um pedação da identidade do país inteiro. Porque o roubo de pessoas é um crime de lesa humanidade que não prescreve e que fere a humanidade inteira. Neste caso […] a Argentina ainda continua se recuperando dessa última ditadura cívico-militar.

Victoria Montenegro, deputada de Buenos Aires e presidente da Comissão de Direitos Humanos, completa:

Há sentenças, há provas reais, há condenações. Os genocidas em nosso país morrem condenados. Muitos e muitas estão condenados em prisões comuns por serem responsáveis por crimes contra a humanidade que foram julgados por tribunais ordinários. E continuam sendo julgados até hoje. E continuamos encontrando restos de desaparecidos e continuamos encontrando netos. Então essa memória tem um sentido. O que precisamos fazer é multiplicá-la para que efetivamente seja um anticorpo neste tempo.

Do Chile, por sua vez, nos chega a mensagem da engenheira Ninóska Henriquez Araya, filha da advogada de direitos humanos Monica Araya, gravada no impressionante Museu da Memória e dos Direitos Humanos:

Eu dirijo esta mensagem aos jovens do Brasil. Assim como em vosso país existiram fatos tão dramáticos, aqui no Chile também, nossos países devem estar unidos, levantar essa memória para que construam uma sociedade mais digna, justa, em democracia. Isso é o que todos esperamos.

Só nos resta concordar: isso é o que todos esperamos.

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