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Silvia Vasconcelos: Há dois mil anos

jc.uol.com.br By JC 2026-03-29 631 words
Silvia Vasconcelos: Há dois mil anos

Temos o avanço da tecnologia, os discursos são mais sofisticados, mas o sofrimento humano persiste, atravessa
gerações utilizando novas roupagens

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Há dois mil anos, no Sermão da Montanha, Jesus proclamou: - "Bem-av
enturados os aflitos, porque serão consolados." (Mateus 5). Desde lá, essa sentença promissora ecoa na consciência da humanidade como um convite e um espelho, por um lado consolador, por outro, revelador de uma verdade desconcertante – continuamos aflitos e sobrecarregados.

Nossas dores mudaram; o palco hoje é outro, algo diferente da antiga Galileia. Os cenários não são os mesmos. Temos hoje o avanço da tecnologia, os discursos são mais sofisticados, mas o sofrimento humano persiste, atravessa gerações utilizando novas roupagens e preso a antigas raízes. A aflição não é apenas circunstancial, parece despontar de um território mais profundo da alma.

Na Doutrina Espírita, as aflições humanas constituem abordagem que rompe com a ideia tradicional de castigo divino. Em O Evang
elho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec nos apresenta uma leitura esclarecedora acerca da origem dos sofrimentos. A problemática das aflições exibe causas que podem ser classificadas em duas ordens: aquelas decorrentes da vida presente e as que provêm de existências anteriores. No primeiro caso, estão relacionadas às escolhas, aos excessos, às imprudências, às posturas adotadas no cotidiano. No segundo, vinculam-se à Lei de Causa e Efeito, como mecanismo de justiça e estratégia de aprendizado espiritual. A verdade é uma só e o Codificador já nos alerta: "O homem é, assim, quase sempre o artífice de sua própria infelicidade." (KARDEC, cap. V, item 4)

Esse olhar desloca o sofrimento do campo da punição para o da responsabilidade, e nos faz compreender que são consequência natural das ações equivocadas, que se convertem em instrumento de educação da alma.

Em sua obra Plenitude, Joanna de Ângelis amplia essa compreensão, trazendo-nos uma leitura de caráter psicológico, enfatizando a dimensão subjetiva da experiência do sofrimento. Para a autora, a dor está profundamente relacionada à forma como a percebemos, interpretamos e elaboramos interiormente. Nessa perspectiva, pensamentos recorrentes, padrões emocionais disfuncionais e posturas internas de resistência - culpa ou negação - intensificam e perpetuam o sofrimento. As aflições não decorrem unicamente do que acontece ao homem, mas também da forma como ele se posiciona diante da vida.

A autora não nega a dor, mas a ressignifica como possibilidade de autoconhecimento e transfor
mação interior. Nossas aflições não são castigos. Nascem do orgulho ferido, do egoísmo, da dificuldade de amar, da resistência em perdoar e, sobretudo, do distanciamento de nós mesmos.

A psicologia profunda, nos indica que o ser humano moderno, embora cercado de estímulos e possiblidades, frequentemente vive alienado de si, desconect
ado de sua essência. A angústia emerge como um sinal, um chamado à integração, à escuta, e nos convida à ressignificação, como também a uma mudança de postura.

O ensinamento do Cristo nos parece tão atual, pois não promete ausência da dor, mas o consolo. Um consolo que brota da mudança de olhar, da ampliação da consciência, da coragem de nos responsabilizarmos pela própria jornada.

"Quando olho para mim, não me percebo." nesse verso memorável, Fernando Pessoa, traduz o estranhamento de quem vive distante de si mesmo. Sentimos em muitas circunstâncias, estrangeiros em nossa própria existência, desconhecendo nossas motivações mais íntimas, repetindo padrões que nos ferem, buscando fora o que só pode ser encontrado dentro de nós mesmos.

Então, só nos resta o silêncio. Ou a música! Como na obra de Bach, em "Jesus, Alegria dos homens", que nos apresenta uma melodia que parece atravessar o sofrimento humano, sem negá-lo, mas elevando-o e conduzindo-nos ao grande encontro de nossas vidas. Este, talvez, seja o convite - transformar aflição em caminho! Silvia Vasconcelos – Psicóloga Clínica, com abordagem junguiana. Palestrante espírita e voluntária da Fraternidade Espírita Peixotinho

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