Do fogão à conquista de outros espaços: a força do coletivo das mulheres da Chapada das Veredas
Por entre as grotas e chapadas do Alto Jequitinhonha, em Minas Gerais, um movimento de união feminina fortalece a comunidade, o sentimento de pertencimento e o resgate de tradições culturais
Por Juliana Simões
O que começou com um lanche compartilhado nos encontros de mulheres no Vale do Jequitinhonha (MG) tornou-se o alicerce de uma mudança estrutural. Desde 2023, moradoras de 11 comunidades rurais passaram a se reunir mensalmente movidas pelo desejo de conquistar autonomia, partilhar saberes e vivências.
Mirante, Ribeirão Veredinha, Ribeirão das Posses, Pindaíba, Boiada I, Boiada II, Gameleira, Monte Alegre, Caquente, Pontezinha, Vendinhas e Macaúbas ficaram mais próximas com encontros femininos que quebraram barreiras e construíram pontes. Maria Aparecida Guimarães, da comunidade quilombola de Macaúbas, no município de Veredinha, participa do grupo de mulheres desde o início das reuniões, que atualmente contam com mais de 90 participantes. "Hoje, chegar no grupo e ver aquele tanto de mulher é uma alegria muito grande", relata.
Anteriormente ao grupo de mulheres, na comunidade do Gentio, também foi criada a Associação de Mulheres Agricultoras do Córrego da Lagoa e Beira do Fanado (ASMAFA). Fundada em 2015 com apenas 12 mulheres, a associação hoje reúne mais de 105 participantes, que se encontram periodicamente para alçar voos ainda mais altos.
Para além das paredes de tijolos, a sede abriga cursos de costura, apicultura, compartilhamento de técnicas de agricultura familiar e tecnologias sociais, como cisternas e barraginhas para mitigar a escassez de água — problema intensificado pelo cultivo de eucalipto que ocupou a região. A criação da associação possibilitou a geração de renda, promoveu encontros que romperam o isolamento rural e fortaleceu a identidade da comunidade.
Outra grande realização foi a certidão de reconhecimento como comunidade quilombola, a primeira do município de Turmalina a conquistar o título. Para Salete Maciel, vice-presidente da ASMAFA, a conclusão da sede própria — onde as decisões são tomadas coletivamente — é a materialização de um sonho. "Nossa finalidade é unir. Aqui todo mundo tem respeito, fala e ouve", afirma.
A inauguração da sede da ASMAFA e a possibilidade dos encontros do grupo de mulheres foram ações de um ciclo de projetos financiados pelo Fundo Ecos do ISPN e executados em parceria com o Centro de Agricultura Alternativa Vicente Nica (CAV).
Esses projetos estão no contexto da Sétima Fase Operacional do Small Grants Programme no Brasil (SGP) e fazem parte da estratégia de Promoção de Paisagens Produtivas Ecossociais do ISPN, apoiada com recursos do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) e implementada em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Por meio desse projeto, 22 iniciativas de conservação do Cerrado foram selecionadas, sendo 10 no Alto Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais.
Ao longo dos últimos 30 anos, o Fundo Ecos executou mais de mil projetos, alcançando a participação de cerca de 77 mil mulheres. "Esse projeto é muito importante para nós, fortaleceu a associação e a comunidade", enfatiza Dona Salete.
Além do cuidado da casa: a ocupação de espaços e o fortalecimento da rede de mulheres
A coordenadora da Escola Família Agrícola Veredinha (EFAV), Neltinha Oliveira, destaca que o maior desafio foi despertar essas mulheres para a ocupação de espaços de decisão. Ela afirma que, por causa da sobrecarga de tarefas e afazeres domésticos, muitas não conseguiam participar de espaços políticos e de formação. Muitas também são mães e incluem seus filhos nas atividades lúdicas dos encontros. Mesmo diante da resistência de alguns maridos, elas não têm deixado de participar.
Para além dos desafios, Neltinha complementa sobre a relevância dos encontros nessa transformação, abrindo portas para a escuta, partilhas e aprendizados. "Ao se engajarem, elas perceberam a importância desse espaço para criar laços e se fortalecer", pontua.
Esse fortalecimento se reflete na saúde mental, no autocuidado e no bem-estar. Tereza Cordeiro dos Santos, da comunidade de Monte Alegre, em Veredinha, relata que os encontros, que também contam com o apoio de psicólogos, tornam "a vida mais leve". O lanche compartilhado não é apenas alimento; é troca de sabores, saberes e realidades, e ressalta como os encontros e as escutas entre as mulheres são relevantes nesse processo de transformação. "O grupo trouxe um desenvolvimento grande para as comunidades. Nos tornamos todas amigas, como se fosse uma família", diz Tereza.
Nessas ocasiões, as mulheres também dialogam sobre seus direitos, formas de resgatar a ancestralidade, valorizar o território, práticas agroecológicas, uso de plantas medicinais, participação em feiras da região, rodas de conversa e oficinas de acesso ao crédito.
Tradição, cultura e identidade vivas
Um dos marcos mais emocionantes do projeto na Chapada das Veredas é o resgate cultural. A Roda da Gamela, uma tradição que estava se perdendo no tempo, voltou a girar. Por meio do grupo, as mulheres resgataram a dança e os cantos passados de geração em geração, envolvendo agora também jovens e crianças.
"O grupo de mulheres nos tirou da beira do fogão, nos levou para outras comunidades e resgatou a Roda da Gamela", conta Maria Aparecida, ao celebrar esse reencontro com as raízes. Ela recorda que dançava na comunidade em que foi criada e explica que, além do canto das músicas, as pessoas vão ao centro da roda, sobem na gamela e recitam versos.
Tereza Silva, da comunidade de Gameleira, em Veredinha, lembra da tradição desde o tempo de seus avós e bisavós. "Agora, as pessoas estão recuperando o que já estava esquecido. A dança da gamela foi uma coisa muito importante que resgatamos", comemora.
A secretária escolar da EFAV, Margarete Alves, reforça que a transmissão dessa herança cultural para os mais jovens garante que a identidade da Chapada das Veredas permaneça viva. "É fundamental transmitir nossa cultura, nossa essência e nossas raízes para nossos jovens, para manter viva nossa história."
O impacto do projeto é visível na criação de redes, no fortalecimento de parcerias e, sobretudo, no brilho nos olhos de cada agricultora familiar e quilombola que se reconhece como parte de algo maior. "A semente já foi plantada e muitos frutos já foram colhidos. Pude perceber a questão da elevação da autoestima das mulheres nesses encontros, do pertencimento e de elas se permitirem ser cuidadas", celebra Margarete.
O isolamento deu lugar à rede; o silêncio deu lugar ao canto da Gamela. "Elas saíram de casa, se conectaram, trocaram experiências, se fortaleceram enquanto grupo e vem fazendo um trabalho maravilhoso na nossa comunidade", conclui.
Neste mês, quando celebramos o Dia Internacional da Mulher, a trajetória das mulheres da Chapada das Veredas reafirma uma verdade fundamental: coletivos femininos organizados são estratégicos para o bem-viver, para a soberania dos territórios e para o fortalecimento comunitário.
Ao transformar a roda em resistência e o encontro em espaço de decisão, elas mostram que desenvolvimento com justiça socioambiental se constrói com protagonismo feminino. Que as histórias delas sirvam de exemplo e inspiração — e que mais comunidades reconheçam e invistam na força coletiva das mulheres como caminho para um futuro mais solidário, sustentável e cheio de raízes vivas.
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""Hoje, chegar no grupo e ver aquele tanto de mulher é uma alegria muito grande", relata."
Direct quote from Maria Aparecida Guimarães, a community participant.
Primary source""Nossa finalidade é unir. Aqui todo mundo tem respeito, fala e ouve", afirma."
Direct quote from Salete Maciel, vice-president of ASMAFA.
Primary source""O grupo trouxe um desenvolvimento grande para as comunidades. Nos tornamos todas amigas, como se fosse uma família", diz Tereza."
Direct quote from Tereza Cordeiro dos Santos, community participant.
Primary source"Para Salete Maciel, vice-presidente da ASMAFA"
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"O impacto do projeto é visível na criação de redes, no fortalecimento de parcerias e, sobretudo, no brilho nos olhos"
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"Desde 2023, moradoras de 11 comunidades rurais passaram a se reunir mensalmente"
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Background"Fundada em 2015 com apenas 12 mulheres, a associação hoje reúne mais de 105 participantes"
Historical development of the association.
Background"Ao longo dos últimos 30 anos, o Fundo Ecos executou mais de mil projetos, alcançando a participação de cerca de 77 mil mulheres."
Statistical data on project scale.
Statistic"problema intensificado pelo cultivo de eucalipto que ocupou a região."
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"moradoras de 11 comunidades rurais passaram a se reunir mensalmente"
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Neutral language"Um dos marcos mais emocionantes do projeto"
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Sensationalist"no brilho nos olhos de cada agricultora familiar"
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"Por Juliana Simões"
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Author attribution"Para Salete Maciel, vice-presidente da ASMAFA"
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Quote attribution"Tereza Cordeiro dos Santos, da comunidade de Monte Alegre, em Ver"
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Quote attributionLogical Coherence
Internal consistency of claims, absence of contradictions and unsupported causation
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No logical inconsistencies detected; narrative flows coherently from problem to solution to outcomes.
Core Claims & Their Sources
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"Women's collectives in Chapada das Veredas have created structural change through monthly meetings since 2023."
Source: Direct quotes from community participants Maria Aparecida Guimarães and Tereza Cordeiro dos Santos Primary
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"The ASMAFA association has grown from 12 to 105+ women since 2015, generating income and breaking rural isolation."
Source: Attributed to Salete Maciel, vice-president of ASMAFA Named secondary
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"The projects are funded by Fundo Ecos/ISPN with GEF/PNUD support, part of a larger conservation strategy."
Source: Background information on funding organizations Named secondary
Logic Model Inspector
ConsistentExtracted Propositions (8)
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P1
"11 rural communities participate in monthly women's meetings"
Factual -
P2
"ASMAFA was founded in 2015 with 12 women and now has 105+ participants"
Factual -
P3
"Fundo Ecos has executed over 1,000 projects reaching 77,000 women over 30 years"
Factual -
P4
"22 Cerrado conservation initiatives were selected, 10 in Alto Vale do Jequitinhonha"
Factual -
P5
"Women's meetings causes reduced isolation and created community networks"
Causal -
P6
"Association creation causes income generation and identity strengthening"
Causal -
P7
"Cultural rescue activities causes preservation of traditions like Roda da Gamela"
Causal -
P8
"Project participation causes improved mental health and self-esteem"
Causal
Claim Relationships Graph
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=== Propositions === P1 [factual]: 11 rural communities participate in monthly women's meetings P2 [factual]: ASMAFA was founded in 2015 with 12 women and now has 105+ participants P3 [factual]: Fundo Ecos has executed over 1,000 projects reaching 77,000 women over 30 years P4 [factual]: 22 Cerrado conservation initiatives were selected, 10 in Alto Vale do Jequitinhonha P5 [causal]: Women's meetings causes reduced isolation and created community networks P6 [causal]: Association creation causes income generation and identity strengthening P7 [causal]: Cultural rescue activities causes preservation of traditions like Roda da Gamela P8 [causal]: Project participation causes improved mental health and self-esteem === Causal Graph === womens meetings -> reduced isolation and created community networks association creation -> income generation and identity strengthening cultural rescue activities -> preservation of traditions like roda da gamela project participation -> improved mental health and selfesteem
All claims are logically consistent. No contradictions, temporal issues, or circular reasoning detected.