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Dias Toffoli usa ginástica retórica para tentar se distanciar de Daniel Vorcaro

terra.com.br By Luiz Vassallo 2026-02-12 1158 words
Dias Toffoli usa ginástica retórica para tentar se distanciar de Daniel Vorcaro

Em um juízo coerente com suas próprias decisões, ministro poderia ser um investigado no inquérito do qual é relator

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli se esquivou de responder a questões relevantes e recorreu a uma ginástica retórica para tentar demonstrar distância do banqueiro Daniel Vorcaro no comunicado em que admitiu publicamente ser o sócio anônimo da empresa Maridt, que teve participação no resort Tayayá Ribeirão Claro, no Paraná.

Toffoli assumiu ser o sócio da empresa acionista do empreendimento após a escalada da pressão para que deixe de ser o relator do inquérito do Master. O movimento mais importante para tirá-lo da investigação partiu da Polícia Federal, que citou ao STF mensagens encontradas no celular de Vorcaro com menções a Toffoli e até mesmo a pagamentos ao ministro relacionados à compra de uma fatia do resort.

A PF não tem atribuição de pedir suspeição de magistrados, mas, ao citar as mensagens e mencionar, em seu ofício, legislação que rege sobre conflitos de interesses para juízes na condução de processos, obrigou a Procuradoria-Geral da República a voltar a se manifestar sobre o assunto - caberá à PGR analisar o documento enviado pelos investigadores ao Supremo Tribunal Federal. O chefe do órgão, Paulo Gonet, já havia negado um pedido de suspeição movido por parlamentares do Congresso. Terá de se debruçar de novo sobre o tema.

O próprio ministro encarou o documento como um pedido de suspeição da PF. Disse que o órgão não tem competência para demandar seu afastamento - o que não foi pedido formalmente pelo órgão - e também não deu todos os esclarecimentos para afastar essa hipótese quando resolveu falar sobre o assunto.

A relação financeira entre Toffoli e Vorcaro passa pelo Tayayá. A Maridt, empresa do ministro, vendeu metade de sua participação societária de R$ 6,6 milhões na incorporadora e na administradora do hotel para o fundo Arleen que, como revelou o Estadão, tinha o cunhado do banqueiro como único sócio.

Esses R$ 3,3 milhões não representam, nem de longe, o tamanho real do negócio. Esse é o dinheiro que o fundo usou para comprar sua parte do controle da empresa junto a outros sócios. Mas o Arleen não comprou só essa participação. Adquiriu também uma parte do empreendimento. E declarou em suas demonstrações financeiras ter investido R$ 20 milhões no Tayayá.

Toffoli se restringiu a dizer que a venda se deu
respeitando "valor de mercado", mas não informou quanto realmente embolsou. Ao Estadão, continua se recusando a responder. Também não revela quanto investiu no resort, o que ensejaria outra questão: é um valor compatível com os rendimentos de um ex-advogado da União que se tornou ministro do Supremo Tribunal Federal? Qual é a origem do dinheiro?

Em sua manifestação distribuída à imprensa nesta quinta-feira, 12, disse que "desconhece o gestor" do fundo e nunca teve amizade com Vorcaro. E emendou: "por fim, o Ministro esclarece que jamais recebeu qualquer valor de Daniel Vorcaro ou de seu cunhado Fabiano Zettel".

O "gestor" do fundo é público e declarado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM). A Reag Investimentos, investigada no caso Master por abrigar ativos suspeitos de Vorcaro, é a gestora. Ao mencionar "gestor", Toffoli apenas cometeu um equívoco comum sobre termos técnicos relacionados a fundos de investimentos. Ele quis dizer, provavelmente, que desconhece o acionista do fundo, que é o dono do dinheiro.

O nome, de fato, é sigiloso por lei. Acontece que, se o ministro diz desconhecer totalmente a origem de dinheiro e quer convencer a PF e a sociedade que negociou com o representante de um fundo que não informou quem era seu investidor, como pode negar categoricamente que não recebeu de Vorcaro e Zettel? Se houve um intermediário que resguardou o investidor, seu nome também não foi revelado pelo ministro.

Em uma transação como aquela feita entre a empresa de Toffoli e os fundos ligados a Zettel, há pouco espaço para as partes não se conhecerem.

De um lado do negócio, está a Maridt S/A, que fica na casa do engenheiro José Eugênio Dias Toffoli, o irmão do ministro. Ali não funciona uma empresa grande, cheia de funcionários. A dona da casa, cunhada do ministro, diz desconhecer a companhia. Não é uma empresa listada na Bolsa de Valores, com centenas de acionistas. É uma companhia familiar, sediada em uma residência de classe média, em Marília, que tem o ministro como sócio e seus irmãos e um sobrinho como únicos dirigentes. O dinheiro dela, ao fim, a Toffoli pertence.

Na outra ponta do negócio, o Arleen é um fundo fechado, não foi oferecido a milhares de investidores por corretoras do mercado financeiro. Em uma situação como essa, é apenas um instrumento de seu sócio, dono do dinheiro. Nessas ocasiões, é comum que seja ele que apareça na hora de fazer negócio. O Arleen tem como único cotista outro fundo fechado, que, por sua vez, teve como investidor de 100% de suas cotas à época do negócio Fabiano Zettel, pastor da igreja Lagoinha e cunhado de Daniel Vorcaro.

Documentos obtidos pelo Estadão mostram que Zettel, na pessoa física, foi quem depositou R$ 20 milhões nos fundos na mesma época em que eles injetaram as mesmas cifras no resort e compraram participação diretamente da Maridt no negócio. Apesar da longa teia entre as pontas, na prática, o que os documentos mostram é que foi Zettel quem pagou milhões a Toffoli.

Há espaço, ainda, para outras interpretações sobre o papel de Zettel, que é visto pela Polícia Federal como um operador financeiro de Vorcaro. Exemplos sobram de como o patrimônio de um é indissociável do outro. Um deles diz respeito à empresa Super Empreendimentos, que teve Zettel como dirigente. A empresa não tem Vorcaro no papel, mas comprou imóveis milionários que, na verdade, são usados pelo banqueiro. É o caso da mansão de R$ 36 milhões que foi palco de festinhas do dono do Master com políticos em Brasília.

A investigação do caso Master só ficou com Toffoli até aqui porque o ministro aceitou um pedido da defesa de Vorcaro. Os advogados aproveitaram que a Polícia Federal apreendeu na casa do banqueiro um documento que registrava a intenção de compra de um imóvel de R$ 250 milhões em Trancoso pelo deputado federal João Carlos Bacelar (PL).

O negócio sequer foi fechado. E a PF não apontou nenhuma suspeita sobre o documento. Mas a mera menção ao contrato foi suficiente para Toffoli atrair para si a competência do caso. O ministro entendeu que havia indícios que poderiam levar à investigação de autoridade com foro perante o STF. Ao contrário de Bacelar, Toffoli fechou, com uso de sua empresa, negócio com fundos ligados a Vorcaro. Em um juízo coerente com suas próprias decisões, o próprio ministro poderia ser um investigado no inquérito do qual é relator. Ele teria condições de se defender, e provar a legalidade das transações, mas jamais de julgar o caso.

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