Carta aberta a um jovem que teve a redação zerada na Fuvest - revista piauí
Carta aberta a um jovem que teve a redação zerada na Fuvest
Prezado Luis Henrique,
Ainda não nos conhecemos, mas já lemos textos um do outro. Eu li sua redação da Fuvest, que chegou a mim pelas redes sociais com críticas ao seu vocabulário. Você deve ter lido ao menos um trecho do meu artigo Como eu, você e todos nós estamos nos transformando em uma nuvem de dados – e isto não é nada bom, usado na questão 2 da prova de língua portuguesa, no mesmo dia em que você escreveu as linhas que devem ter tirado sua paz nos últimos dias.
"Perpassa em altivez, pela procela, a grandiloquência condoreira, em cuja máxima aforismática revela a tétrica languidez do sofrer recôndito", começa seu texto. Li assim que chegou a mim: como um meme e parte de uma notícia, acompanhado de muitos comentários engraçadinhos feitos a respeito. Eu mesmo, inicialmente, fiz graça. Ao longo do sábado, porém, pensei melhor sobre o assunto. A gente raramente para e pensa quando as coisas chegam como meme, né? Lembrei dos meus 18 anos, no século passado, cometendo textos muito parecidos com aquele seu, com vocabulário semelhante. Já quebrei a cara por isso. Então, resolvi lhe escrever.
Para começar, acho importante separar quem é o Luis Henrique, um jovem que ainda tem muito a viver e a aprender, do que é a redação dele, provavelmente o maior e talvez único fracasso experimentado em sua juventude. Em rede social, eu sei, essa separação de autor e obra não costuma acontecer, mas é absolutamente necessária. O texto é o que está naquela página que foi entregue, e nunca mudará; você está no começo da sua formação. Seria triste se o que fôssemos aos 18 anos fosse tudo o que seremos pelo resto da vida.
Todas as críticas pertinentes ao seu texto já foram feitas por professores entrevistados. A sua redação pouco tratou diretamente do tema proposto e ignorou os textos motivadores – uma bela coleção, com Juliana de Albuquerque, Carla Madeira, Sophia de Mello Breyner Andresen, Arlindo Cruz e Machado de Assis, além de uma foto de Abdel Kareem Hana, da Associated Press (AP), sobre a fila após o cessar-fogo em Gaza. O vocabulário que você empregou ajudou a distrair a atenção dos avaliadores, e os autores que você preferiu citar até poderiam se tornar relevantes ao tema se você deixasse a conexão mais clara. Dá pra dizer que houve fuga do assunto, o que zera uma redação do Enem; na Fuvest, não sei qual é a regra.
Ao reler seu texto, suponho que você tentou demonstrar o que considera ter de melhor, numa linguagem que busca espelhar um estilo comum na profissão que pretende seguir. Você demonstrou ter um vocabulário rico do que Ernest Hemingway chamava de "palavras de dez dólares"; dá pra dizer muito mais gastando menos. Ouça as observações feitas por profissionais a esse seu texto sem levá-las para o lado pessoal. Divorcie-se do que você escreveu: você está em formação, e aquela redação é só um pedaço de papel que você compôs em relativamente pouco tempo e já entregou. Só assim poderá aprender com as observações textuais como as várias feitas por professores. (O que desconhecidos tiverem dito sobre sua personalidade, desconsidere. A vida alheia não pode ser entretenimento.)
Digo isso porque, em escala muito menor, já estive no seu lugar.
Vou te contar uma história que só quem me conhece bem sabe. Antes de ser um jornalista com mais de 25 anos de experiência e um texto usado em questão da Fuvest, eu também já tive 18 anos. Foi no século passado, quando não havia redes sociais para transformar em chacota qualquer momento ruim da vida de alguém. Sou muito grato por ter sido adolescente nos anos 1990, e isso também faz parte.
Olha, Luis: hoje, eu sei que escrevia mal pra dedéu; aos 18 anos, eu julgava concatenar vocábulos com a pena de Hermes, deus grego da oratória e patrono da comunicação, esbanjando os dólares do Hemingway como se estivessem sobrando. Calhei de trombar, no primeiro semestre da faculdade, com um professor que resolveu me humilhar para mostrar à turma como não se devia escrever. As primeiras críticas ácidas vieram em caneta azul. Tentei chamá-lo para um café para pedir conselhos; ele nunca podia. Depois de pedir ajuda, as críticas foram públicas. "Escrever como o Marcelo é patifaria", disse o professor, num dia em que faltei, a uns trinta colegas. Por anos, tive vergonha de falar com aqueles colegas. Recentemente, já aposentado, o professor disse em entrevista que gostava de fustigar algum aluno para sinalizar o mau exemplo. Eu só tinha 18 anos e muito a aprender.
De tanta raiva que tive desse professor, acabei aprendendo a escrever de maneira clara e informal. O último texto que entreguei na disciplina é o primeiro que eu reconheço como tendo a minha voz. Escrevi naquele trabalho um xingamento tão pesado ao professor que ele me reprovou; eu sabia desse risco e avaliei que seria uma forma de me livrar dele. Consegui, mas não recomendo a ninguém que faça o mesmo. Foi um inferno organizar disciplinas nos semestres seguintes, mas a outra professora era razoável e gentil. Hoje, acredito que o professor que xinguei não estava errado no mérito, pois eu escrevia de fato muito mal, mas errou rude na abordagem. Hoje, quando posso orientar algum jovem, gosto de canetear na sua frente, sem colegas em volta, apontando problemas e sugerindo soluções. O importante não é o primeiro texto, é o último.
O que aconteceu com você, porém, foi bem diferente; a avaliação do seu texto pela banca, por tudo o que se sabe, foi técnica e impessoal, por mais que você tenha perdido o vestibular por isso. Aquele texto de fato tem problemas que você pode aprender a resolver. Assim como jogar videogame ou tocar violão, escrever tem técnica, e técnica se aprende.
Triste é ter virado assunto público. O processo movido contra a universidade pôs seu texto na boca de muita gente que não lhe conhece e que, no entanto, expressa opiniões sobre você, suas intenções e seu futuro, porque é disso que vivem as redes sociais. Muito disso é ocioso: quando entrar na faculdade, você terá anos para aprender as melhores técnicas de redação jurídica, se aproveitar bem as aulas e os estágios. O que importa é o que você ainda escreverá. Ser "verde" é o melhor defeito possível: é o único que passa com o tempo.
A contribuição que tenho neste momento é sugerir que releia a questão que utilizou o meu texto na prova de língua portuguesa da Fuvest. Não é nem por ser o texto de um sobrevivente à execração em sala de aula, e sim pelo que quem elaborou a questão viu nele. Eu não fazia ideia de que um dia teria essa honra e fui pego de surpresa. O enunciado pedia que os estudantes discutissem duas estratégias que usei para tornar o texto mais acessível. Na resolução proposta pela Fuvest, eles apontam o uso de analogias, diálogo direto com o leitor, uso de registro de linguagem cotidiana, evitando termos muito especializados, e um título chamativo para chamar a atenção do leitor. Eu nunca tinha pensado exatamente dessa forma, mas de fato os elementos estão lá. Essas ideias são um bom começo para você treinar para sua próxima tentativa. Se você resolveu bem essa questão, pode resolver bem sua próxima redação.
Um truque que sempre funciona é ter em mente quem é o seu leitor. O que determina o sucesso de um texto não é o que a gente escreve, e sim o que o leitor entende; quanto melhor imaginarmos quem vai ler, mais fácil fica achar o tom. Numa redação de vestibular, você será lido por um grupo de professores que precisam ler e avaliar em muito pouco tempo, cada um, centenas de dissertações escritas com pressa e esperança. Quanto menos o autor puder dificultar o trabalho do leitor, mais fácil é o texto ter boa aceitação.
A leitora que eu sempre tenho em mente é minha mãe, que não chegou a completar o ensino médio, mas gostava de estar bem informada. Se ela entendesse, muita gente entenderia. Ela morreu de câncer de mama, há mais de dez anos, e eu fiquei furioso pela falta de informação dela. "As notícias sempre falam que morrem X%, e eu achei que estava nas Y%", ela falou. Por isso, escrevi uma reportagem sobre a doença para o jornal onde eu trabalhava na época. Não tendo podido salvar minha mãe, quis alertar outras mães. Escrevi de maneira que ela fosse fisgada até o final do texto, com a história de uma personagem. No dia seguinte, uma colega contou que, após ler o texto, sua mãe revelou que tinha um nódulo no peito e marcou exames. Era câncer de mama, foi tratado imediatamente e, até onde eu saiba, ela ainda está por aí (pergunto sempre que tenho chance). O abraço que ganhei da colega valeu muito mais do que qualquer prêmio que eu tenha na estante.
Clareza na escrita é uma virtude fundamental. No direito, carreira que você busca, ser entendido sem equívoco faz diferença, por mais que muitos advogados ainda não acreditem nisso. Na medicina, o dr. Drauzio Varella é um dos melhores exemplos de como a clareza pode fazer bem à saúde de um país inteiro. Poucas coisas são mais chatas do que relatórios de gestão municipal; quando Graciliano Ramos foi prefeito de Palmeira dos Índios (AL), porém, ele redigiu relatórios considerados exemplares até hoje por sua simplicidade na escrita. A clareza das linhas começa com a clareza das ideias. Profissionais de todas as áreas se beneficiariam ao serem compreendidos, e isso melhoraria a sociedade para todos.
Luis, eu entendo perfeitamente sua frustração em não passar no vestibular. Por tudo o que se disse sobre você, e eu lamento demais que sua vida tenha virado objeto de escrutínio, você parece ter excelentes chances de ser aprovado numa próxima tentativa. Espero voltar a ouvir falar sobre você no futuro, em muitas situações agradáveis.
Enquanto isso, treine mais escrita. Caso queira tomar um café e me mostrar algo que tenha escrito, estamos na mesma cidade. Estou torcendo por você.
Abraço,
Marcelo Soares
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Source Quality
Source classification (primary/secondary/tertiary), named vs anonymous, expert credentials, variety
Summary
Relies heavily on the author's personal experience and references to other media reports about the student's essay, with no direct primary sourcing from the student or examiners.
Specific Findings from the Article (4)
"professores entrevistados"
Mentions teachers were interviewed about the student's essay, but they are not directly quoted or named.
Named source"que chegou a mim pelas redes sociais"
The author's knowledge of the student's essay comes indirectly via social media.
Tertiary source"Ernest Hemingway"
References a named expert (author) to support a point about vocabulary.
Named source"Vou te contar uma história que só quem me conhece bem sabe."
The author uses his own direct, personal experience as a primary source for his argument.
Primary sourcePerspective Balance
Acknowledgment of multiple viewpoints, counterarguments, and balanced presentation
Summary
Acknowledges the technical validity of the exam grading while empathetically presenting the student's perspective and the public ridicule he faced.
Specific Findings from the Article (3)
"a avaliação do seu texto pela banca, por tudo o que se sabe, foi técnica e impessoal"
Acknowledges the legitimacy of the opposing perspective (the exam board's grading).
Balance indicator"o professor que xinguei não estava errado no mérito, pois eu escrevia de fato muito mal, mas errou rude na abordagem."
Presents a balanced view of a past teacher's actions, separating the validity of the criticism from the method.
Balance indicator"Todas as críticas pertinentes ao seu texto já foram feitas por professores entrevistados."
Acknowledges that substantive criticism of the student's work exists and has been voiced by others.
Balance indicatorContextual Depth
Background information, statistics, comprehensiveness of coverage
Summary
Provides substantial personal and historical context about writing, education, and public scrutiny, supported by specific examples.
Specific Findings from the Article (3)
"Lembrei dos meus 18 anos, no século passado, cometendo textos muito parecidos com aquele seu"
Provides personal historical context to relate to the student's situation.
Background"uma bela coleção, com Juliana de Albuquerque, Carla Madeira, Sophia de Mello Breyner Andresen, Arlindo Cruz e Machado de Assis, além de uma foto de Abdel Kareem Hana, da Associated Press (AP), sobr..."
Provides detailed context about the exam's source materials that the student's essay ignored.
Context indicator"O enunciado pedia que os estudantes discutissem duas estratégias que usei para tornar o texto mais acessível. Na resolução proposta pela Fuvest, eles apontam o uso de analogias, diálogo direto com ..."
Provides specific, explanatory context about the exam question that referenced the author's own work.
Context indicatorLanguage Neutrality
Absence of loaded, sensationalist, or politically biased language
Summary
Language is consistently empathetic, reflective, and advisory, without sensationalist or politically loaded terms.
Specific Findings from the Article (3)
"acho importante separar quem é o Luis Henrique, um jovem que ainda tem mu"
Uses measured, analytical language to make a point.
Neutral language"a avaliação do seu texto pela banca, por tudo o que se sabe, foi técnica e impessoal"
States a factual assessment in neutral terms.
Neutral language"Clareza na escrita é uma virtude fundamental."
Presents an opinion as a clear, unembellished statement.
Neutral languageTransparency
Author attribution, dates, methodology disclosure, quote attribution
Summary
Full author attribution, clear date, and all quotes/anecdotes are explicitly attributed to the author's own experience or clearly referenced sources.
Specific Findings from the Article (2)
""Escrever como o Marcelo é patifaria", disse o professor"
A direct quote is clearly attributed to a specific source (the professor).
Quote attribution"os dias. "Perpassa em altivez, pela procela, a grand"
A quote from the student's essay is clearly introduced and attributed.
Quote attributionLogical Coherence
Internal consistency of claims, absence of contradictions and unsupported causation
Summary
The argument progresses logically from describing the event, to sharing personal analogy, to offering concrete advice, with no detected contradictions or unsupported leaps.
Specific Findings from the Article (1)
"O vocabulário que você empregou ajudou a distrair a atenção dos avaliadores"
This is presented as a plausible explanation, not a definitively proven causal claim, fitting the article's advisory tone.
Unsupported causeCore Claims & Their Sources
-
"A student's zero-scored university entrance exam essay, while technically flawed, should not define him, and he can learn from the experience to become a clearer writer."
Source: The author's direct analysis of the essay and his personal narrative. Primary
-
"Clarity and accessibility in writing are fundamental virtues across professions, benefiting both the writer and society."
Source: The author's argument, supported by his personal experience and referenced examples (e.g., Drauzio Varella, Graciliano Ramos). Primary
Logic Model Inspector
ConsistentExtracted Propositions (6)
-
P1
"A student named Luis Henrique had his Fuvest entrance exam essay scored zero."
Factual -
P2
"The author's own article was used as a reference text in the same exam."
Factual -
P3
"The author was publicly criticized by a professor for his writing at age 18."
Factual -
P4
"Using overly complex vocabulary can distract causes exam graders from the essay's content."
Causal -
P5
"Writing with the reader in mind leads causes to better comprehension and acceptance of the text."
Causal -
P6
"Clear public health writing can lead to causes life-saving actions (e.g., getting a medical check-up)."
Causal
Claim Relationships Graph
View Formal Logic Representation
=== Propositions === P1 [factual]: A student named Luis Henrique had his Fuvest entrance exam essay scored zero. P2 [factual]: The author's own article was used as a reference text in the same exam. P3 [factual]: The author was publicly criticized by a professor for his writing at age 18. P4 [causal]: Using overly complex vocabulary can distract causes exam graders from the essay's content. P5 [causal]: Writing with the reader in mind leads causes to better comprehension and acceptance of the text. P6 [causal]: Clear public health writing can lead to causes life-saving actions (e.g., getting a medical check-up). === Causal Graph === using overly complex vocabulary can distract -> exam graders from the essays content writing with the reader in mind leads -> to better comprehension and acceptance of the text clear public health writing can lead to -> lifesaving actions eg getting a medical checkup
All claims are logically consistent. No contradictions, temporal issues, or circular reasoning detected.