B
22/30
Good

Uma história de violência psicológica - revista piauí

piaui.uol.com.br By Danilo Marques 2026-04-02 574 words
Uma história de violência psicológica

Empresário do mercado de luxo é processado por mulher, depois de induzi-la a fazer aborto

Em 23 de fevereiro, o empresário francês Alexandre Allard recorreu à Justiça para impedir a publicação da reportagem A mulher é tão louca, que a piauí publica na edição de abril e é apresentada no texto abaixo. O juiz Carlos Eduardo Gomes dos Santos, da 3ª Vara Cível do Fórum de Pinheiros, em São Paulo, rejeitou o pedido e afirmou em sua decisão: "O pedido se aproxima de uma censura à empresa jornalística, o que não é permitido constitucionalmente."

A violência psicológica cometida contra mulheres ainda é pouco compreendida, inclusive por elas mesmas, dada a histórica preponderância de valores masculinos na sociedade. Em geral, essa violência começa com microagressões, como chamar a mulher de "gorda" e "louca", podendo chegar a casos mais extremos, como lançá-la em estado de depressão e ansiedade, ou forçá-la a fazer aborto. Como ainda é pouco compreendida, a violência psicológica está hoje no mesmo estágio do assédio sexual anos atrás, com as próprias vítimas sendo colocadas sob suspeita. Antes, diante de uma discussão sobre um caso de assédio, era comum se ouvirem perguntas como: a mulher vestia uma roupa provocante? Aceitou pegar a carona? Ingeriu bebida alcoólica? Já se relacionou com o agressor no passado?

De acordo com o Ministério das Mulheres, entre janeiro e julho de 2025, o programa Ligue 180 registrou 594 118 atendimentos e 86 025 denúncias de violência contra mulheres em todo o país, sendo 24 021 de violência de natureza psicológica. É parte da epidemia de violência contra a mulher, que tem tomado uma proporção alarmante. Em 2025, o número de feminicídios chegou ao recorde de 1 470 casos, ou 316% a mais que em 2015, ano em que esse crime foi tipificado. O Conselho Nacional de Justiça calcula que, só no ano passado, a Justiça recebeu mais de 1 milhão de novas denúncias de violência doméstica.

Um dos casos de violência psicológica que estão sendo examinados pela Justiça é o da massoterapeuta Teresa Sampaio, que tramita na 12ª Vara de Família e Sucessões e na 13ª Vara Cível, em São Paulo. Ela foi induzida a fazer um aborto em Paris pelo empresário Alexandre Allard, informa João Batista Jr. em reportagem publicada na edição deste mês da piauí. Allard é o criador do complexo Cidade Matarazzo, um dos principais negócios do setor de hospitalidade de luxo do Brasil.

Teresa, porém, conseguiu evitar o aborto em Paris e retornou ao Brasil para ter o filho. No quarto mês de gestação, entrou com uma ação de "alimentos gravídicos" contra o empresário, para garantir recursos financeiros para cobrir despesas com consultas, exames e o parto. Com o nascimento do bebê, os "alimentos gravídicos" transformaram-se em pensão alimentícia, que a Justiça estipulou em 10 mil reais mensais. Ficou determinado que Allard também deveria depositar um adicional de 20 mil reais para as custas do parto. O valor foi depositado 48 horas antes de a criança vir à luz.

Um mês depois do nascimento da criança, Teresa entrou com uma ação de paternidade. Foram mantidos os mesmos 10 mil reais como pensão alimentícia, a serem pagos enquanto corresse o processo, para o qual ela precisou apresentar provas da relação entre os dois, como fotos e conversas. Foi também marcado um teste de DNA, para o qual Allard não compareceu, dando origem a um litígio que ainda não terminou.

Leia Mais

Tap highlighted text for details

Source Quality
Perspective
Context
Neutrality
Transparency
Logic