C
21/30
Fair

‘Ocidente perdeu completamente sua alma, mas os iranianos estão buscando a deles’, diz ex-oficial de inteligência britânico

brasildefato.com.br By https://www.facebook.com/brasildefato 2026-04-04 2398 words
Na terceira parte da entrevista exclusiva ao Brasil de Fato, Alastair Crooke – ex-agente do MI6 e ex-conselheiro da UE para a Ásia Ocidentel, além de fundador e diretor do Conflicts Forum, baseado em Beirute – faz reflexões sobre o caráter da revolução islâmica – e da história do xiismo.

Ele reafirma a sua crítica radical ao "niilismo pós moderno" do Ocidente, exemplificada na síntese que Crooke ouviu, quando esteve a primeira vez no Irã, de um clérigo que hoje é aiatolá e que lhe disse: "o problema que eles têm com o Ocidente não é a ideologia, é a maneira de pensar deles. E a maneira de pensar deles é tão prejudicial para o mundo como um todo".

Leia a primeira e a segunda parte da entrevista:

Apesar da premissa de crítica profunda ao Ocidente, explica Crooke, muitos quadros da revolução islâmica foram incentivados a se apropriar dos cânones do pensamento moderno ocidental, bem como de sua autocrítica de base marxista, como a Escola de Frankfurt, por exemplo. Ao mesmo tempo, possuem uma sólida formação nos clássicos da filosofia islâmica e xiita. "Era algo em que o Imã Khomeini insistia, que é preciso estudar a filosofia ocidental em conjunto com a filosofia islâmica", ressalta.Na entrevista, o ex-oficial de inteligência também demonstra preocupação com o possível uso de armas nucleares pelo regime sionista de Israel como último recurso. "Precisamos entender Israel não através do racionalismo secular. É preciso entendê-lo de uma maneira escatológica", alerta.

Para ele, um cenário de "guerra total", com graves consequências regionais, e até globais, seria algo desejado por algumas lideranças de Tel Aviv, bem como dos EUA, pois estão "chamando a guerra no Irã de 'guerra santa'".

Crooke, porém, vê no conflito uma possibilidade de "destruição criativa", da qual um novo mundo poderia surgir. "Acho que o Irã desencadeou isso, porque provavelmente entraremos em uma crise econômica em uma escala para a qual o Ocidente não está preparado. Mas isso faz parte da catarse."Leia a última parte da entrevista de Alastair Crooke ao Brasil de Fato:

Brasil de Fato: Líderes iranianos contemporâneos, como Ali Larijani – que era um especialista em [Immanuel] Kant [filósofo alemão do século XVIII] – e o ministro das Relações Exteriores Abbas Araghchi – que fez doutorado com um renomado orientador marxista, David McLellan –, possuem um nível de profundidade intelectual raramente encontrado no Ocidente atualmente. Você acredita que esse domínio da filosofia ocidental confere ao Irã uma espécie de vantagem cognitiva, com o que os alemães chamariam de uma Weltanschauung [visão de mundo] mais ampla, que lhes permitiu desconstruir as narrativas liberais de Washington, utilizando as mesmas ferramentas lógicas do próprio Ocidente?

Alastair Crooke: Sim, acredito. E, a propósito, você mencionou Ali Larijani e sua especialidade, sua expertise em Kant, o filósofo ocidental. No entanto, ele também era especialista em Suhrawardi [filósofo persa (1154–1191), fundador da Filosofia da Iluminação, pilar fundamental da filosofia islâmica e xiita, que busca um equilíbrio entre a lógica racionalista e a intuição mística]. Portanto, é preciso compreender o equilíbrio que se estabelece. E ele pode discutir longamente as complexidades sobre as quais Suhrawardi escrevia antes de seu martírio, creio que em 1190 [Suhrawardi foi executado em Aleppo por suas ideias consideradas heréticas na época]. Isso é um dos componentes do Irfan [conhecimento gnóstico ou místico, que busca a compreensão das "camadas da consciência" e do mundo espiritual]. Não há uma palavra exata para descrevê-lo, mas é também uma espécie de sufismo xiita. É afastar-se do mundo racional e material para compreender que existem diferentes camadas de consciência.

Suhrawardi falava, creio eu, da décima camada da consciência, e de como você a escreve. Isso não é exclusivamente iraniano, porque essa era a religião antiga. Também está presente no Egito, no pensamento dos textos herméticos – ou pelo menos parcialmente referidos – nos textos que foram descobertos no final dos anos 1400, pelo governante de Florença [Cosimo de Medici] e traduzidos por Marcilio Ficino. Portanto, isso era algo em que o Imã Khomeini insistia, que é preciso estudar a filosofia ocidental em conjunto com a filosofia islâmica. E, claro, isso proporciona uma visão do pensamento ocidental.

Lembro-me de quando fiz minhas primeiras viagens ao Irã, fui a Qom e conversei com um homem, acho que ele agora é um aiatolá. Mas ele me disse que o problema que eles têm com o Ocidente não é a ideologia, é a maneira de pensar deles. E a maneira de pensar deles é tão prejudicial para o mundo como um todo. E ele explicou isso com bastante detalhe. E, muito claramente, em nossas interações, isso teve um grande efeito sobre mim; acho fascinante essa descrição do problema.

Esse diálogo é descrito no início do seu livro Resistência: a essência da Revolução Islâmica, certo?

Sim, havia uma referência a essa discussão na introdução. Então, como o Ocidente sai do seu niilismo pós-moderno? Ou o mundo sai da sua maneira excessiva, racionalista, materialista e hedonista de ser? Bem, quando você vai ao Irã, esse é o elemento e sempre foi. Mas isso também se expressa na capacidade de sair dessa forma de pensar, de uma consciência niilista muito negativa, para alcançar níveis diferentes e mais elevados de compreensão, compatíveis com o seu nível de consciência. Como chegar lá? É obviamente algo que leva tempo e aprendizado para atingir esse nível.

Esse também era um conceito antigo, e é por isso que o Irã também tem essa ligação especial com o mundo pré-socrático que existia antes, e que foi apagado pelas obras de Aristóteles e Platão. E assim surgem coisas curiosas, como o fato de que uma das grandes influências sobre o Imã Khomeini entre pessoas como o Mullah Sadr, Ibn Sina e Ibn Arami, foi Plotino, um pensador não-islâmico. Plotino sempre recorria a formas anteriores de pensamento e reflexão.

Acho que o Irã realmente tem as ferramentas e está pensando na próxima etapa. Eles sabem que precisam encontrar uma maneira de trazer a revolução para esta era da tecnologia, dos TikToks e tudo mais. Como trazê-la e reinventá-la para os dias de hoje e para os jovens de hoje? E quando eu estava em Teerã, foi muito interessante. Perguntei a alguns dos meus interlocutores: como vocês tornam aplicáveis as ideias de justiça da revolução iraniana? Como vocês as trazem para os dias de hoje? E eles disseram: "bem, temos planos a respeito disso. Estamos pensando nisso". Então acho que é o começo de algo que está mudando. Tratava-se de como introduzir um novo pensamento em um sistema que perdeu sua vitalidade. O sistema ocidental perdeu completamente, não sei a palavra certa, mas perdeu sua "ânima". Mas os iranianos estão buscando, e, até certo ponto, a mesma coisa está acontecendo na Rússia.

E também na China, eu diria. Morei cinco anos e meio na China antes de me mudar para Moscou. E após quase cinco décadas de reforma e abertura, e uma profunda conexão com o Ocidente, os chineses estão fazendo uma autocrítica de sua ocidentalização, resgatando suas profundas raízes culturais, falando de "Estado-civilização", e a juventude curte usar roupas de mil, dois mil anos atrás, ao mesmo tempo em que o Partido liderado por Xi Jinping reafirma o marxismo como seu guia teórico. Enquanto na Rússia, vemos uma autocrítica de sua ocidentalização pós-fim da URSS, o resgate de seus chamados "valores tradicionais" e uma tentativa de síntese entre seu legado histórico imperial de mais de mil anos com os acertos da economia planificada soviética. De modo que os três pilares do atual front anti-imperialista – o "pesadelo de Brzezinsky" – parecem estar em processos similares: crítica (e autocrítica) à ocidentalização do mundo e resgate de suas tradições milenares, em busca de uma nova síntese.

Fiquei fascinado porque também estamos falando da influência do taoísmo. Quando estive na Rússia da última vez, fui a uma feira de cinema. Havia várias produtoras chinesas presentes, apresentando seus filmes sobre temas religiosos, dos quais nem todos eram sobre o confucionismo, mas sim sobre o taoísmo. E, de alguma forma, os iranianos pareciam sentir que o taoísmo tinha alguma contribuição.

Não quero exagerar, nem todo mundo está lendo esses clássicos. Na Rússia, um amigo nosso está trabalhando em como tornar o budismo parte do ser russo. Não para suprimi-lo e forçá-lo a se tornar uma espécie de "russicismo" artificial, mas para permitir que ele revigore a ideia do que é ser russo. E achei isso muito interessante. É um ótimo projeto.

Então, essas coisas estão acontecendo. Não as vemos, porque não são visíveis através das plataformas normais, mas estão acontecendo. Eu estou muito confiante. Sempre disse que o que estamos passando agora é um processo de catarse. Temos que ver o tipo de destruição criativa do mundo niilista e pós-moderno de Ayn Rand [escritora e filósofa de origem russa, naturalizada estadunidense, cuja obra exerce uma influência profunda no pensamento conservador e libertário ocidental] e suas ideias de que a maior qualidade do ser humano é o egoísmo. E, para fazer isso, é preciso haver a capacidade de subir um degrau na escala da consciência. Como fazer isso com as pessoas como um todo é uma questão realmente difícil.

Então, você me fez a pergunta mais difícil. Porque, claro, o Imã conseguiu isso falando sobre [a Batalha de] Karbala [em 680, no atual Iraque, evento fundante da subjetividade xiita, na qual o Imã Hussein – neto do profeta Maomé – é martirizado em um contexto de disputa pela sucessão do profeta] e o Mahdi [no xiismo, é o "Imã Oculto" que retornará para estabelecer a justiça final na Terra], e ele conseguiu elevar a consciência. Ele insistiu para que as pessoas tivessem uma mente ativa. E isso certamente não é o caso no Ocidente. Foi por isso que ele insistiu na filosofia ocidental e, pelo menos, em seguir juntos, o que você não teria no Ocidente.

Então, acho que algo vai surgir disso. E acho que é necessário porque, como digo, estamos passando por uma catarse. Temos que passar por uma destruição criativa antes de podermos avançar para um caminho criativo e positivo. Vai ser doloroso. Acho que o Irã desencadeou isso, porque provavelmente entraremos em uma crise econômica em uma escala para a qual o Ocidente não está preparado. Mas isso faz parte da catarse, acredito. E não conseguimos ver quais são os brotos verdes, mas eles certamente estão presentes em algum lugar. E é melhor que não os vejamos, porque, se fossem visíveis, alguém viria e os pisaria assim que aparecessem. Nessa fase, é preciso esperar até que estejam fortes o suficiente.

Seria o início de uma nova era?

Sim, estamos em uma nova era. É um ano muito perigoso. E tudo pode dar muito errado.

Quero dizer, Israel está jogando um jogo de nervos com as instalações nucleares. E quem sabe, se perderem feio essa guerra, o que farão? Porque toda a narrativa israelense mudou para: "não vamos conseguir uma mudança de regime". Dei uma entrevista na sexta-feira e disse que os israelenses estão dizendo aos estadunidenses: "olhem, os Estados Unidos têm que assumir a liderança e controlar os estreitos. E se vocês não fizerem isso, não teremos outra opção a não ser usar armas nucleares". Essa é, creio eu, a mensagem que eles estão enviando aos Estados Unidos, indiretamente por meio desses ataques.

Bushehr, por exemplo, que é uma usina [nuclear] compartilhada com os russos. Os russos já retiraram todo o seu pessoal, creio eu, exceto um punhado deles [para manter a usina funcionando]. Este é um projeto conjunto com a Rússia sob supervisão total da Aiea [Agência Internacional de Energia Atômica]. A única razão pela qual a Aiea tem permissão para entrar no Irã é porque os russos querem, para seus próprios fins. Na Rússia, eles querem que Bushehr seja monitorada pela Aiea. Mas a Aiea não era bem-vinda no Irã no passado. Mas Bushehr é uma usina totalmente em conformidade, compartilhada com a Rússia. E houve dois ataques: um quase ataque e outro muito perigoso. Isso é assustador.

Você está dizendo que os israelenses estão agora falando em usar armas nucleares, e os EUA quase atingiram uma usina nuclear cheia de russos. Essas pessoas não estão brincando com fogo e arriscando abrir uma espécie de Caixa de Pandora – uma guerra nuclear – para toda a humanidade?

Precisamos entender Israel não através do racionalismo secular. É preciso entendê-lo de uma maneira escatológica. Não adianta dizer: "não faz sentido o que Itamar Ben-Gvir diz [Ministro da Segurança Nacional de Israel, um político de extrema direita, notório por suas posições profundamente racistas e antipalestinas], não é do interesse deles ter uma guerra". A gente tem de entender que, se pensarmos nisso através da teologia talmúdica e também voltar ainda mais atrás, ao componente messiânico da fé judaica, então você entende que eles querem o Armagedom [uma guerra de grandes proporções que aceleraria o "fim dos tempos", o retorno do Messias e o domínio de Israel sobre o mundo] como parte do plano.

Também há um elemento escatológico nos Estados Unidos. Estamos vendo isso muito claramente. Os Estados Unidos estão chamando a guerra no Irã de "guerra santa". Isso veio dos evangélicos. E isso é extraído da compreensão do componente messiânico das religiões. E o componente messiânico é tão poderoso.

Finalmente, você poderia falar brevemente sobre a sua trajetória diplomático-política, e sua importante atuação na Ásia Ocidental?

Eu era membro do serviço diplomático e fui destacado para a União Europeia a serviço do Alto Representante Solana. Coordenei cinco tentativas de cessar-fogo (todas fracassaram) entre as forças da Resistência Islâmica (Hamas e Jihad Islâmica), o Tanzim da Fatah e Israel – incluindo o cerco à Igreja da Natividade em Belém.

Também estive envolvido em incentivar o Hamas a participar das eleições, das quais eles acabaram vencendo, em 2006. Depois, fui destacado para o governo americano para participar da comissão de apuração de fatos do senador [George] Mitchell devido ao segundo cessar-fogo.

Comecei na Irlanda do Norte e, depois, no Afeganistão, fui responsável pelas conexões com a liderança dos Mujahideen em nome dos EUA e do Reino Unido, pois os estadunidenses não deveriam, na verdade, se reunir com eles. E o Conflicst Forum foi criado em 2004. É uma organização sem fins lucrativos, focada na Ásia Ocidental. Essencialmente, ela fornece canais cruciais de comunicação e permite ouvir e tentar ajudar as pessoas a entender o que realmente estava sendo dito e o que isso poderia significar.

Tap highlighted text for details

Source Quality
Perspective
Context
Neutrality
Transparency
Logic