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Átomos, estratégia e a soberania brasileira, por Anderson Gomes

jornalggn.com.br By Redação 2026-04-04 912 words
Publicado no site Projeto Brasil em 01/04

Átomos, estratégia e o futuro da soberania brasileira

por Anderson Gomes*

O controle sobre recursos críticos e capacidades tecnológicas redefine o poder global e desafia o Brasil a transformar potencial em estratégia

Em meio a um cenário internacional cada vez mais fragmentado e competitivo, uma transformação silenciosa redefine as bases do poder global. Vivemos uma era em que a geopolítica deixou de ser apenas sobre territórios e passou a ser, fundamentalmente, sobre átomos.

Átomos não como abstração científica, mas como matéria-prima do poder. O hélio (He), invisível e escasso, torna-se essencial na fabricação de semicondutores (AsGa, AsGaIn, etc) – o coração de toda infraestrutura digital contemporânea, insumo para os chips.

O hidrogênio (H), o primeiro elemento da tabela periódica, ressurge como promessa energética na forma do hidrogênio verde. E os minerais críticos, especialmente as terras raras (Nd, Pr, etc) sustentam desde turbinas eólicas até sistemas militares avançados. Mais ainda: quando falamos dos fertilizantes (outra criticidade), falamos de NPK (Nitrogênio, Fósforo e Potássio).

Quem controla esses átomos – sua extração, processamento e aplicação – controla cadeias produtivas inteiras. E quem controla cadeias produtivas controla dependências. E dependência, na geopolítica, é o oposto de soberania.

O caso do hélio é emblemático. Concentrado em poucos países, como o Qatar, ele é um insumo invisível, porém insubstituível, para a indústria de chips. Sem ele, não há litografia de precisão; sem chips, não há economia digital, defesa moderna ou inteligência artificial.

Um único elemento químico, portanto, pode condicionar a autonomia tecnológica de nações inteiras. Isso vale para o hidrogênio. Embora abundante no universo, sua forma utilizável como vetor energético exige tecnologia, infraestrutura e, sobretudo, estratégia. Países que dominarem a produção e logística do hidrogênio verde poderão redefinir fluxos energéticos globais, deslocando centros tradicionais de poder.

Já os minerais críticos revelam outra dimensão: não basta possuir reservas. É preciso dominar refino, cadeia industrial e aplicação tecnológica. A soberania não está no subsolo, mas na capacidade de transformar recurso em valor estratégico.

No caso dos fertilizantes, a dependência de exportações vai além 80% da quantidade de NPK que consome, sendo altamente vulnerável a choques externos. A dependência é crítica no potássio (até 97,8% importado) e nitrogenados. Já existe o Plano Nacional de Fertilizantes – muito bem elaborado – mas que carece de inteligência estratégica para ser mais efetivo.

Dessa forma, a equação contemporânea é clara: átomos são poder potencial; soberania é o resultado desse poder internalizado; e estratégia é o que conecta um ao outro. Sem estratégia, recursos viram dependência. Com estratégia, tornam-se autonomia.

O Brasil, nesse tabuleiro, não é irrelevante – ao contrário. É um dos poucos países que combinam base mineral significativa, capacidade energética renovável e um sistema científico respeitável. Em tese, reúne condições para ser protagonista na geopolítica dos átomos. Na prática, no entanto, ainda opera aquém dessa possibilidade.

Persistimos, em grande medida, como fornecedores de insumos em cadeias globais cujo valor agregado se concentra fora. Exportamos potencial e importamos tecnologia. Participamos da base, mas raramente do topo.

Isso não é resultado inevitável da economia global, mas de escolhas – ou da ausência delas. A questão, portanto, não é diagnóstica. Já sabemos onde estão nossos ativos. A questão é estratégica: o que o Brasil decidiu, ou pretende decidir, fazer com eles?

Responder a isso exige coordenação que vá além de agendas fragmentadas. Exige alinhar política industrial, ciência, tecnologia e inovação, energia e inserção internacional. Exige, sobretudo, instituições capazes de pensar no longo prazo e de sustentar essa visão ao longo do tempo.

Ministérios, agências, bancos públicos, centros de pesquisa e espaços de reflexão estratégica têm, todos, um papel a cumprir. Alguns, inclusive, já acumulam experiência e capacidade para articular essas agendas de forma mais integrada – ainda que, por vezes, subaproveitada.

O ponto central é que, sem uma estratégia explícita e consistente, o país corre o risco de assistir à reorganização do poder global a partir de uma posição periférica – não por falta de recursos, mas por falta de direção. O mundo não será dividido apenas entre países ricos e pobres, mas entre aqueles que sabem o que fazer com seus átomos – e aqueles que não sabem. O Brasil claramente tem os átomos.

E começa, também, a construir caminhos mais estruturados para transformá-los em estratégia. A nova Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (ENCTI) surge como uma oportunidade de organizar essa visão de forma transversal – reconhecendo que ciência, tecnologia e inovação não são setores isolados, mas a base sobre a qual se estruturam energia, indústria, defesa e soberania.

Porque, no fim, os átomos são ciência transformada em capacidade. E é essa capacidade, quando orientada por estratégia, que define o lugar das nações no mundo.

A ENCTI, se efetivamente incorporada como instrumento de coordenação e ação, seguida por um plano concertado nacionalmente, pode ser o passo decisivo nessa direção.

Mas, como toda estratégia, seu valor não estará apenas no que diz – e sim no que mobiliza. Já está no papel, precisa sair do papel.

É aí que, finalmente, átomos deixam de ser apenas matéria. E passam a ser destino.

*Anderson Gomes é Presidente do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), Membro ABC e Professor UFPE

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