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Como o trajeto para a escola faz as crianças descobrirem a cidade - Nexo Jornal

nexojornal.com.br By Laís Barros Martins 2026-04-02 1352 words
Havia um degrau em frente a uma casa. Todos os dias, em vez de seguir pela calçada, eu subia esse degrau de mãos dadas com a minha mãe a caminho da escola. Era um pequeno desvio, mas que dava graça ao roteiro previsível. O olhar da criança tem este poder: reinventar rotas conhecidas e descobrir encanto na rotina.

O caminho até a escola é, muitas vezes, o primeiro território de autonomia das crianças. Fazer esse trajeto a pé todos os dias permite que Maria Flor, de seis anos, viva "muitas aventuras" e experimente a sensação de "ser livre". "É muito bom porque a criança pode explorar", conta.

Para Bem, de cinco anos, percorrer a cidade ampliou o olhar para o que acontece ao redor e fortaleceu sua relação com o lugar onde vive. "Aprendi a andar na escada rolante do metrô, aprendi sobre o museu, aprendi a respeitar o morador de rua, aprendi sobre os grafites. Conheci o pé de caqui, de carambola e de maracujá. Vi que é legal ir ao teatro e a shows de música."

Mas, hoje, quando a segurança pública está entre as principais preocupações dos brasileiros, segundo o levantamento mais recente do Datafolha, como fazer com que percursos corriqueiros — como a ida à escola — continuem sendo vividos como espaços de descoberta, e não de medo?

A cidade se revela no caminhar

Maria Flor e Bem são "exploradores da cidade". A proposta da professora Edna Monteiro, da EMEI Gabriel Prestes, na região central de São Paulo, é não se limitar à sala de aula e proporcionar às crianças "experiências reais e conectadas à vida". Na prática, os estudantes passaram a demonstrar protagonismo ao orientar familiares pela cidade, utilizar transporte público e reconhecer lugares por onde passam.

A mãe de Cristian, por exemplo, contou que foi o próprio filho, então com cinco anos, quem indicou qual ônibus tomar para chegar à Avenida Paulista. Já a mãe de Helena, também de cinco anos, relatou sobre as orientações que recebeu para aguardar o momento certo de desembarcar da escada rolante do metrô. Além disso, segundo Edna, falas espontâneas como "Virando ali na esquina é a casa da minha avó" ou "Meu pai troca o pneu naquela borracharia" revelam o vínculo que começa a se formar com a cidade.

Cidade desigual desde a infância

Mas, para uma parcela significativa da infância brasileira, o acesso à cidade ainda é atravessado por desigualdades profundas. Uma menina vive o espaço urbano de um jeito diferente de um menino; e, quando essa menina é negra e periférica, as camadas de vulnerabilidade e vigilância tendem a se intensificar.

De acordo com a pesquisa "O lugar importa: o ambiente molda as bases do desenvolvimento saudável", da Universidade de Harvard, o lugar onde as crianças crescem influencia o seu desenvolvimento em diversos aspectos — da saúde à qualidade da aprendizagem, com impactos que se estendem à vida adulta, como acesso a oportunidades de trabalho ou maior exposição à violência.

Ao analisar 100 áreas urbanas nos Estados Unidos e estabelecer indicadores de oportunidade infantil, o estudo identificou disparidades marcantes: a pontuação média foi de 73 para crianças brancas, contra 24 para as negras. Nesse contexto, "viver em territórios com acesso limitado a direitos básicos como segurança, mobilidade e espaços de convivência, compromete não apenas o desenvolvimento individual, mas também o exercício da cidadania e o bem-estar coletivo". Diz Ursula Troncoso, urbanista que pesquisa cidades, infâncias, natureza e mobilidade.

Sobreviver à cidade

No Brasil, essas desigualdades também se traduzem em riscos concretos à vida. Uma pesquisa do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) mostra que mais de 15 mil crianças e adolescentes, de zero a 19 anos, morreram de forma violenta entre 2021 e 2023.

"Mãe, eles não viram que eu estava com uniforme da escola?", disse Marcus Vinícius, de 14 anos, após ser baleado durante uma operação policial no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, em 2018.

Os dados e as últimas palavras de Marcus Vinícius evidenciam que, especialmente em territórios periféricos e favelas, a violência pode interromper de forma abrupta até mesmo a ida à escola. Ou seja, para algumas crianças, planejamento urbano pode significar sobrevivência.

Para Júlia Otsuka Yamazoe, advogada que pesquisa o espaço urbano e a infância, promover os direitos das crianças passa, necessariamente, pela valorização da mobilidade ativa — sobretudo nas periferias, onde o deslocamento a pé é predominante.

O bairro antes do mundo

É no cotidiano — na forma como circulam, brincam e ocupam os espaços — que as crianças constroem noções de pertencimento e identidade coletiva. No entanto, a lógica pouco centrada nas pessoas que organiza muitas cidades hoje reforça a segregação e empobrece experiências fundamentais para o desenvolvimento infantil.

"Crianças de até seis anos são absolutamente influenciáveis pelo ambiente que as cerca. Elas dependem da qualidade dos estímulos que recebem e dos vínculos afetivos que constroem", afirma a psicóloga Juliana Prates, do Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI). Por isso, criar condições para que vivenciem a cidade de modo positivo desde cedo está diretamente ligado a uma infância saudável.

Para Ursula Troncoso, o bairro — a primeira medida urbana de uma criança — pode favorecer ou limitar esse processo, a depender do quanto oferece conforto, segurança e apoio à rotina das famílias. "Se as crianças pudessem planejar um bairro, ele seria um bairro de 15 minutos." Diz, em referência a espaços onde serviços essenciais, como escola, saúde, comércio e lazer, estão acessíveis a uma curta distância, como propõe o urbanista francês Carlos Moreno.

Nesse contexto, o Plano Nacional de Cuidados (PNC) reconhece o cuidado como dimensão central da vida. Entre as medidas estão ampliar a oferta de creches, fortalecer a rede de assistência social e garantir condições de trabalho mais justas para profissionais do cuidado. A ausência desses serviços impacta diretamente a qualidade de vida de quem cuida. Em sua maioria, as mulheres e de quem recebe os cuidados, especialmente crianças na primeira infância.

Mas o que torna um lugar amigo das crianças?

De acordo com a urbanista Ursula Troncoso, é fundamental investir em "espaços de proximidade" que atendam a três condições básicas. A primeira são os "percursos prioritários da infância". Isto é, os caminhos devem ser bem cuidados, iluminados, arborizados, com mobiliário adequado, com brincadeiras. A segunda envolve as chamadas "zonas calmas", que são áreas sinalizadas de travessias de pedestre, calçadas mais amplas e baixas velocidades dos automóveis no entorno das escolas, por exemplo. Por fim, são indispensáveis espaços de brincar livre e contato com a natureza próximos às casas e às escolas.

Os "olhos nas ruas"

"Se você precisa atravessar uma praça à noite e essa praça está vazia, talvez você sinta medo. Mas, se essa praça está cheia de gente, principalmente de famílias, crianças brincando, você não terá medo de cruzá-la", exemplifica Ursula Troncoso. Por isso, muitos especialistas defendem que a segurança pública começa com cuidado — serviços próximos, redes comunitárias e vida pública ativa.

Para Alexandre Delijaicov, em entrevista ao Outras Palavras, o planejamento urbano exige uma dimensão poética. "A cidade deve facilitar o encontro, promover a convivência e o estar, transformando o fluxo em percurso", diz. Ele é arquiteto efetivo da Prefeitura de São Paulo e professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP).

Quando essas condições estão presentes desde a infância — como a possibilidade de ir à escola com segurança — os efeitos aparecem no dia a dia. "As crianças passam a compreender melhor a dinâmica do bairro. Apresentam mais atenção ao entorno durante uma caminhada e começam a reconhecer o valor e a diversidade que existem na cidade", afirma Suellen dos Santos, mãe de Bem.

Suely Cardoso Gonçalves, mãe de Maria Flor, também percebe mudanças no olhar da filha. Durante os passeios, diz notar um senso mais apurado de observação e curiosidade. "Cada lugar tem uma história a ser contada. Uma pintura, um fruto, uma placa diferente — tudo vira assunto", conta. "Quanto mais você conhece, percebe e entende, mais você se identifica com aquilo que a cidade te oferece."

Uma cidade que acolha as crianças

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