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‘Tinta invisível’: literatura como uma tentativa de conexão - Nexo Jornal

nexojornal.com.br By Javier Peña 2026-04-02 1268 words
Pensei algo parecido na primeira vez que visitei meu pai no hospital. Estava saindo do prédio com minha mulher quando um jovem médico nos ofereceu suas condolências e assim confirmou nossas piores suspeitas: a morte era inevitável, tratava-se apenas de uma questão de tempo. O que podemos responder ao receber condolências por alguém que ainda está vivo? Minha esposa disse ao jovem médico algo como "é a vida". Eu quis acrescentar: mas não concordo. Um escritor se recusa a gostar da vida, um escritor se rebela diante da vida. Acontece também que muitas vezes não protesta em voz alta, mas acaba escrevendo sobre a questão vários anos depois. Eu mesmo fiz isso.

Naquele dia, fiquei sozinho com meu pai pela primeira vez em quatro anos — o tempo que ficamos sem nos falar. Todas as vezes que parei de falar com alguém que amo, acreditava que tinham me dado motivos imperdoáveis para fazer isso. Hoje não consigo me lembrar de nenhum desses motivos; hoje só me lembro das pessoas que partiram da minha vida. Acho que em todos os casos essas razões inevitáveis tinham a ver com o desgaste da relação, com mudanças nos interesses pessoais, com ciúme, com orgulho. Mas com um pai não existe orgulho, com um pai você esconde o orgulho onde for possível. Essa me parece a única razão pela qual os seres humanos mantêm contato com seus pais até o fim.

Pelo menos foi essa a razão pela qual decidi retomar o contato com meu pai quando meus irmãos me contaram que ele sofria de uma doença incurável. Depois de quatro anos, na primeira vez que estivemos sozinhos, o cheiro de desinfetante atravessava nossa alma e disfarçávamos a tristeza com um daqueles sorrisos que, se não tomamos cuidado, de repente viram a careta que precede o pranto. Depois de quatro anos, na primeira vez que fiquei sozinho com meu pai, não queria que ele se fosse sem que nos despedíssemos.

Ele não fez a menor referência ao tempo que tínhamos passado sem nos ver, e aquilo me deixou desconfortável — nunca soube lidar bem com minhas expectativas frustradas. Cheguei preparado para uma conversa transcendente. Tudo bem não colocar o dedo na ferida, mas daí a agir como se nada tivesse acontecido tem uma boa distância. Me senti como no dia em que entrevistei uma tenista pega no exame antidoping por uso de cocaína e ela me disse: "Pergunte o que quiser, menos sobre a cocaína". Ok, pensei, mas eu vim aqui justamente para falar sobre a cocaína… Talvez eu devesse escrever um romance sobre pessoas que têm a vida regida por um problema, mas fingem que esse problema não existe.

O corpo decrépito do meu pai jazia na cama. Ele havia envelhecido tanto naqueles quatro anos que tive a sensação de que minha juventude também havia desaparecido de repente. Quando rompemos, meu pai tinha 72 anos e era um homem saudável; em nosso reencontro ele estava com 76 anos e era um moribundo. É difícil explicar para o cérebro uma transformação dessas. Minha mãe e meus irmãos conseguiam entender aquilo melhor porque tinham vivido todo o processo com ele. Eu só tinha visto meu pai uma vez, pela janela de uma cafeteria, então fiquei surpreso ao notar como ele andava encurvado. A vez seguinte que nos vimos foi quando decidi enterrar o machado de nossa guerra imaginária. O reencontro foi marcado em um restaurante, como em uma negociação de entrega de reféns, e de seu nariz já saíam cânulas conectadas a uma bolsa de oxigênio. Isso aconteceu um ano antes de ele ser internado. Apenas doze meses depois, um jovem médico nos oferecia suas condolências na saída do hospital.

Quando fiquei sozinho com meu pai no quarto, perguntei se ele estava assistindo a alguma coisa na televisão presa à parede, que funcionava com um cartão que era preciso recarregar, como o de transporte público. "Ontem sua mãe ligou um pouco", ele disse, "mas agora não posso, porque…" Então apontou para a cortina. Do outro lado, um homem que havia sido levado para o quarto algumas horas antes descansava. Estava acompanhado pela filha, sentada sob a janela com os joelhos bem juntos e as bochechas vermelhas como se tivesse chorado. A televisão era compartilhada, e meu pai entendia que precisava chegar a um acordo com o colega de quarto sobre o que queriam assistir. Era uma negociação que ele não tinha vontade de iniciar. De qualquer forma, disse ele, a programação é péssima. "Ontem assisti a um trecho de um filme", acrescentou, "mas já tinha visto e, além disso, o cartão acabou e tentei dormir." "Que filme?", perguntei. "'A estrada'. Você já viu?", respondeu.

Assenti. "A estrada", que bela escolha para um moribundo. Mas meu pai era assim, não ia mudar. "A estrada". O livro de Cormac McCarthy é um dos que utilizo em oficinas de escrita criativa; sei de cor alguns trechos. É a história de um pai e um filho em meio a uma situação apocalíptica que nunca sabemos por que ocorreu. "Que apropriado", pensei. Lembrei de frases isoladas, lembrei que o pai nunca diz ao filho que o ama, mas o abraça quando ele está tremendo à noite e conta cada uma de suas respirações.

Estaria mentindo se dissesse que meu pai não me dizia que me amava. Ele dizia com frequência, com uma leveza surpreendente, até demais para o meu gosto. Dizia "eu te amo" como quem diz "me passe o ketchup". Eu tinha a sensação de que ele me pedia o ketchup e nem abria o frasco; apenas o deixava a seu lado na mesa.

O oxigênio conectado a seu nariz permitia que meu pai respirasse com certa fluidez, mas, quando ele falava, acontecia uma coisa que me chamava a atenção: meu pai não conseguia formar frases completas e fazia pausas insólitas. A conversa, assim como nosso relacionamento, tinha hiatos desconfortáveis. Me peguei contando suas pausas como o pai conta as respirações em "A estrada".

Me perguntei se havia relações narrativas entre pessoas reais. Os personagens, digo nas aulas de escrita, funcionam com maior coerência que os seres humanos. O que dizem e fazem tem sempre um motivo. São pequenos e perversos manipuladores. "A estrada" era alguma mensagem oculta do meu pai?

Disse a mim mesmo que ia verificar se "A estrada" tinha passado na noite anterior ou se meu pai estava tentando me dizer algo, mas nunca fiz isso. Comentei a questão com minha esposa no carro, voltando para casa. "Você analisa demais as coisas", ela me disse. "Pare de analisar tudo com uma lupa."

Hoje sei que meu pai não queria me enviar nenhuma mensagem com "A estrada", que não falava comigo em código Morse e que eu não era o frei Guilherme de Baskerville observando na neve as pegadas de um monge morto. Como mencionei, as histórias não eram um código para entender a nossa relação, as histórias eram a relação.

"Códigos? Do que você está falando?", minha esposa disse. "Não seja infantil, pare de analisar as coisas com uma lupa, pare de pensar em tudo o tempo todo."

Claro, pensei, como se fosse fácil. Analisar tudo não é uma escolha consciente, tem a ver com processos cerebrais automáticos que não sou capaz de compreender. Eu diria que foram esses processos involuntários que me levaram a ser escritor. Porque, quando vejo uma formiga andando perdida na cozinha da minha casa, não vejo um inseto, vejo uma história. Por isso decidi começar este livro parando por um momento para falar sobre analisar a realidade com uma lupa.

Tinta invisível

Javier Peña Trad. Marina Waquil Instante 256 páginas

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