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Marco Faustino foi o ‘detetive digital’ que viu a internet mudar

aosfatos.org 2020-12-23 931 words
Marco André Faustino da Silva, 42 anos, foi um exímio conhecedor do mundo digital e dos desafios que ele impõe. Talvez tenha sido um dos mais longevos e meticulosos investigadores da internet no jornalismo brasileiro, pois conjugava grande curiosidade com discrição quase obsessiva. Quem entende bem como esse ambiente funciona sabe que essas características produzem um bom jornalista – Marco era excelente.

Antes mesmo da checagem de fatos e da investigação de crimes digitais terem ganhado a relevância e a escala de hoje, ele se esmerava em combater boatos na internet. Pouca gente viu o ambiente digital se transformar tão radicalmente, de modo que a perda do Marco, além de ser uma tragédia para amigos e familiares, também é a perda de parte da memória coletiva sobre como passamos a nos comunicar e como fracassamos nesse intento.

"Marco Faustino era aquele jornalista raro de se encontrar hoje em dia, em tempos que valorizam mais a performance do que a substância. Sempre com sorriso no rosto e espírito de equipe, era um apurador incansável, capaz de esmiuçar os meandros de qualquer assunto que lhe fosse pautado. E nunca falhou na missão: trazia, todos os dias, provas que desmantelavam fake news e golpes virtuais mirabolantes. Não é à toa que, na galhofa diária da Redação, o apelido dele era Detetive Faustino.

Sua ausência será sempre muito sentida, mas sua trajetória não terá sido em vão, pois tenho a certeza de que todos vamos honrar seu nome e enaltecer seu legado aqui no Aos Fatos", relata Bernardo Moura, diretor de jornalismo e novas mídias, com quem Marco trabalhou diariamente desde 2021.

Marco sofreu uma tentativa de assalto e foi baleado em São Gonçalo (RJ) na noite d
e 14 de março. Passou duas semanas hospitalizado, mas não resistiu após contrair uma infecção. Morreu na última segunda-feira (30), vítima da falência generalizada do Estado do Rio de Janeiro e da banalidade do mal.

Trajetóri
a

Marco começou no jornalismo de forma voluntária, produzindo conteúdo para canais nas redes sociais. Antes do A
os Fatos, integrou a equipe do E-farsas, tradicional veículo de combate à desinformação fundado há mais de duas décadas, quando algoritmos e inteligência artificial ainda margeavam o campo da ficção científica.

"Aprendi muito com o Marco. No tempo em que tivemos ele no nosso time, aprendemos a ser mais profissionais, mais determinados e mais assertivos. Ele começou como voluntário no E-farsas e logo mostrou que o seu trabalho era indispensável no combate à desinformação online. Perdemos um grande amigo", lamentou Gilmar Lopes, fundador do site.

O trabalh
o de Marco chamou a atenção do Aos Fatos em dezembro de 2020, durante a pandemia, quando o jornalista comprovou ser mentira a denúncia da venda de uma vacina falsa contra a Covid-19 no comércio popular de Madureira, na zona norte do Rio de Janeiro.

O boato havia viralizado nas redes, foi publicado por grandes veículos de imprensa e mobilizou até as autoridades federais. Com um fio no antigo Twitter, Marco comprovou que a foto que estava circulando não tinha sido tirada no subúrbio do Rio, mas em um evento esportivo em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos.

O feito fez Marco receber um convite para integrar a equipe do Aos Fatos, onde publicou seu primeiro texto em janeiro de 2021. Trata-se de uma checagem que, no auge da pandemia de desinformação da Covid-19, desmentiu que vacinas contra o coronavírus poderiam alterar o código genético humano.

Além da pandemia, pelo Aos Fatos, Marco combateu a desinformação nas eleições presidenciais de 2022, durante a escalada para a tentativa de golpe de Estado do 8 de Janeiro de 2023 e no pleito municipal de 2024. No total, Marco produziu e participou de 1.432 publicações – a imensa maioria no formato de checagem de fatos (veja abaixo).

Mas foi na denúncia de golpes e fraudes digitais que o jornalista se destacou. Quem procurasse saber se era verdade a distribuição gratuita de ovos de Páscoa, certamente se informou porque Marco Faustino apurou.

Marco foi parte da infraestrutura cívica que presta serviço aos usuários das plataformas digitais ao tentar fazer deste ambiente um lugar menos perigoso. Em 2022, suas reportagens sobre a venda online de falsos emagrecedores motivaram a abertura de uma investigação sobre o caso.

"Marco era um repórter obsessivo pelos detalhes, como todo bom repórter deve ser. Seja na checagem, seja na investigação, só ficava satisfeito quando reunia evidências robustas para sustentar seu argumento. Foi pioneiro na cobertura de fraudes digitais no Brasil e um dos primeiros a mostrar como o Telegram se tornara um celeiro de crimes no país. Era um colega dedicado, generoso, diligente e, acima de tudo, um cara do bem. Vai fazer muita falta", afirmou Leonardo Cazes, ex-editor executivo e ex-chefe de reportagem do Aos Fatos.

Para além
de suas qualidades como jornalista, Marco será lembrado pela equipe do Aos Fatos como um homem gentil e carinhoso.

"Trabalhar todos os dias com o Marco foi o privilégio de ter a amizade de uma pessoa admirável, além da certeza de liderar um profissional dedicado e minucioso. Um homem apaixonado pela vida e interessado no mundo, que não teve medo de expressar seus sentimentos e de acolher aos outros com compaixão, um sorriso e a escuta atenta. Um amigo com quem tive conversas que vou levar para sempre e de quem não tive a chance de me despedir", lembra o ex-editor executivo do Aos Fatos Alexandre Aragão.

Marco Faustino foi velado na tarde de quarta-feira (1º), no cemitério Parque da Colina, em Niterói (RJ). Deixou esposa, mãe, saudades e muita admiração em quem teve a sorte de se cruzar com ele.

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