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Opinião - Antonio Prata : O ressentimento da torradeira

www1.folha.uol.com.br 2026-04-04 584 words
A "consciência" está na moda. Não quero dizer com isso, infelizmente, que as pessoas estão agindo de forma mais consciente. Pelo contrário. Num mundo liderado por esse Donald ensandecido, não surpreende que grande parte dos oito bilhões de Huguinhos, Zezinhos e Luisinhos estejam tocando o terror sobre seus pares —e ímpares. (Ódio, misoginia, racismo, fascismo, homofobia, bullying, família Bolsonaro, bets, pizza de sushi).

O que está na moda é o estudo da "consciência". Neurologistas, psicólogos, biólogos, físicos, filósofos e gente de outras áreas têm se debruçado sobre a questão: que cazzo é essa espécie de câmera-com-rádio-com-televisão-com-computador-com-emoções-com-sentidos que temos dentro da cabeça, captando a realidade e nos transmitindo 24 horas por dia, sete dias por semana, tanto na vigília quanto no sono, do primeiro ao último minuto das nossas vidas?

O grande jornalista científico Michael Pollan acaba de lançar "A world appears: a journey into consciousness" (algo como "Um mundo surge: uma jornada pela consciência" ). Eu poderia escrever 78 crônicas sobre o livro, mas me concentrarei numa das teorias ali discutidas, a do "pampsiquismo". Os pampsiquistas acreditam que a consciência não é uma propriedade do cérebro, mas de toda a vida —e mais, de toda a matéria. Uma ameba, uma partícula subatômica, um seixo, uma gota de tinta: cada um tem a sua conscienciazinha, amebosa, subatômica, pétrea, cromática. De alguma forma, as coisas "se sabem" coisas.

Numa entrevista ao podcast do Ezra Klein, do New York Times, Pollan contou que Einsten um dia disse que o cientista precisa menos de conhecimento do que de imaginação. Se a fala vale pro cientista, imagina pro cronista? Pois, num arroubo de prepotência, me disponho aqui a contribuir com a evolução da ciência levando o conceito de pampsiquismo para além da vida e da matéria, estendendo a misteriosa dádiva de "ser e saber que é" a todos os objetos. Torradeiras, cabos USB, cortadores de unha e por aí vai.

A torradeira é uma ressentida. As pessoas não regulam direito o tempo e a temperatura e botam a culpa nela quando a torrada sai queimada. Nada a irrita mais do que aquele reco-reco da faca raspando o preto do pão sobre a pia. É como se ouvisse a sentença de um juiz a condená-la injustamente.

Os cabos USB, se pudessem se comunicar com a torradeira, reclamariam de um mau uso semelhante por parte dos humanos. "Custa olhar de que lado tá o plastiquinho e de que lado tá o espaço vazio antes de tentar enfiar no buraco? Por que nos obrigam a meter a cabeça no batente a cada uso?!".

Os cortadores de unha têm uma consciência meio germânica. Monotemáticos. Eficientíssimos em sua única função, confiáveis, duráveis. Por isso mesmo, o meu deve me detestar. Uma vez o usei como tesoura, para cortar a etiqueta de uma cueca. Se por acaso fosse parar na cozinha, receberia a solidariedade de algumas facas: "o Antonio usa a gente direto pra parafusar e desparafusar. Olha a minha ponta arredondada, parece a borda de uma folha de alface!".

Noto que estou sendo profundamente antropocentrista no meu pampsiquismo. Todos os objetos pensando como humanos e preocupados conosco, mas fazer o quê? Se a gente não tem a mais vaga ideia nem de como é ser um cachorro, o que dizer sobre as elucubrações, angústias, manias e ressentimentos de uma torradeira, um cabo, um Trim?

PS: Além do podcast do Ezra Klein, sugiro outro, espetacular: "Everything is alive". São entrevistas cômicas e tocantes com objetos. Um banco de metrô, um dente, uma bexiga, um poste...

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