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Como Paul se tornou McCartney

braziljournal.com By Sérgio Martins 2026-04-05 1053 words
Em outubro de 1969, os Beatles estavam à beira da dissolução e Paul McCartney, de acordo com as fake news daqueles tempos, tinha morrido num desastre automobilístico e havia sido substituído por um clone.

"Eu tenho visto meu irmão. A última vez foi no velório dele," ironizou Mike McCartney, irmão do (ainda) Beatle, quando perguntado sobre os boatos de que o cantor, baixista e compositor inglês não estava mais entre os vivos.

McCartney, na verdade, havia se refugiado na fazenda High Park, num local
ermo na Escócia. Ali, ao lado da mulher Linda e das filhas Heather – filha de Linda, que ele adotou – e da recém-nascida Mary, ele reformou o local, então caindo aos pedaços, e o transformou em algo habitável.

A mutação, diga-se, foi além da decoração da casa. Foi naquela região que o cantor ganhou força para enfrentar seus companheiros de banda, o que resultou no pedido de dissolução da sociedade em 10 de abril de 1970.

Ali, Paul também aprimorou as canções da sua estreia como artista solo e engendrou seu primeiro projeto pós-Beatles: o Wings, trio que formou ao lado do guitarrista Denny Laine, de Linda (nos vocais de apoio e teclados tocados com mediocridade exemplar) e diversos bateristas e guitarristas contratados.

O processo de amadurecimento artístico e pessoal de Paul McCartney é o tema de Homem em Fuga, documentário da Amazon Prime.

O ex-Beatle já havia tratado do tema em Wingspan, um especial de 2001 em que contou sua história e a dos Wings numa conversa informal com a filha Mary McCartney.

Mas agora, o cineasta Morgan Neville – que ganhou um Oscar de melhor documentário por 20 Feet From Stardom, uma ótima abordagem sobre o universo dos vocalistas de apoio dos grandes astros do rock, soul e pop – consegue ir além do trivial.

Um dos recursos que o documentarista usou foi o de colher depoimentos de Linda e de diversos integrantes dos Wings, entre eles Denny Laine e os bateristas Denny Seiwell e Joe English, e de coadjuvantes da história, como Sean Lennon e Mick Jagger (autor de um dos comentários mais engraçados da produção: ao ver McCartney consertar o teto da casa de sua propriedade na Escócia, confessa que jamais teria coragem de se aventurar naquilo: "I'm not a roof man").

Um dos pontos centrais de Homem em Fuga (aliás, que péssima ideia traduzir o título Man on the Run, que faz menção a Band on the Run, um dos melhores trabalhos da discografia de Paul) é retratar o processo de desassociação com John Lennon, uma amizade que existia desde que Paul tinha 15 anos e John, 17. O rompimento da amizade – e o consequente fim dos Beatles – se deu por questões econômicas. John queria que o advogado nova-iorquino Allen Klein, um sujeito tão confiável quanto uma ratazana, administrasse os negócios do quarteto. Paul, por sua vez, sugeriu seu sogro, o advogado John Eastman. George Harrison e Ringo Starr ficaram do lado de Lennon, e a decisão fez com que Paul exigisse a dissolução da sociedade.

O imbróglio entre John e Paul rendeu provocações em forma de música. How do You Sleep?, por exemplo, tem o virulento verso "a única coisa que você fez foi Yesterday", uma referência a um dos clássicos do repertório de Paul (no documentário, o baixista acusa Klein de ter sido o mentor deste ataque).

Paul, no entanto, tinha razão. John rompe
u com o advogado em 1973, acusando-o de mau gerenciamento de seus negócios. Sean Lennon, filho de John e Yoko, admite que o pai possuía os discos de Paul na coleção e eles tinham o aspecto de terem sido tocados à exaustão.

Outro personagem importante, claro, é Linda, com quem Paul se casou em 12 de março de 1969. A união durou até 17 de abril de 1998, quando ela sucumbiu a um câncer de mama. A fotógrafa americana foi o porto seguro no qual o ex-Beatle ancorou nos períodos de turbulência (incluindo uma tendência ao alcoolismo) e que ele fez questão de manter na banda.

"Eu estou aqui porque ele me ama," diz ela, ao explicar o porquê de ter sido escalada nos Wings.

O núcleo
dos Wings sempre foi Paul, Linda e o guitarrista e vocalista Denny Laine. O baterista Denny Seiwell e o guitarrista Henry McCullough (que escreveu seu lugar no panteão dos solos por causa da guitarra "chorada" do hit My Love) duraram pouco mais de dois anos; seus lugares foram ocupados por Geoff Britton, Joe English e Steve Holley (bateria) e Jimmy McCulloch e Laurence Juber.

Paul formou os Wings porque sentia falta de "ter uma banda". Ao mesmo tempo, nunca abriu mão da aura de popstar que conquistou na época em que foi um Beatle (ele chegou a se recusar a usar o banheiro de um posto de gasolina porque não gostaria de ser "reconhecido" pelos frequentadores).

O sucesso do grupo fez com que Paul se tornasse o ex-Beatle mais bem-sucedido comercialmente e inclusiv
e motivasse John Lennon a voltar a gravar – ele passou de 1975 a 1980 sem gravar discos.

O documentário é produzido pelo próprio Paul. Um controlador rigoroso de sua própria biografia, ele desvenda um ou outro segredo, mas não a ponto de prejudicá-lo. Paul, por exemplo, pagava tostões aos músicos de apoio. "Eu não controlava a parte financeira. Se fossem também compositores, quem sabe poderiam ganhar mais," despista.

Paul fala dos demônios de McCulloch, que morreu de overdose em 1979, mas evita tecer maiores comentários sobre seu comportamento errático. Ele zombava da pouca habilidade musical de Linda e foi saído de vez depois de destruir os ovos da granja da sra. McCartney.

O Wings parou de bater as asas pouco depois da prisão de Paul McCartney em Tóquio, em janeiro de 1980, por posse de maconha. Em abril do ano seguinte, Denny Laine anunciou sua partida da banda, e Paul não viu motivos para continuar com o grupo.

De volta à carreira solo, lançou Tug of War (1982) e Pipes of Peace, que solidificaram seu talento como o maior compositor pop do século XX – além de, óbvio, McCartney II, de 1980, no qual compôs todas as músicas e tocou todos os instrumentos.

Mas a importância de Homem em Fuga é mostrar o quanto os Wings foram importantes para que Paul McCartney voltasse a se empoderar.

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