Casais brasileiros cruzam a fronteira para conseguir ter filhos
Proibida comercialmente no país, gestação por substituição movimenta mercado global, mas carece de regulamentação
RESUMO
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GERADO EM: 04/04/2026 - 19:32
Casais brasileiros buscam gestação por substituição no exterior devido a restrições nacionais
Casais brasileiros estão cruzando fronteiras em busca de gestação por substituição devido à proibição comercial no Brasil, onde só a "barriga solidária" é permitida. Com regulamentação inexistente, muitos recorrem a países como EUA, Ucrânia e Geórgia. A falta de regras claras deixa gestantes vulneráveis, transformando um sonho em desafio financeiro e jurídico, destacando desigualdades econômicas no acesso à reprodução assistida.
Camila Pavan tinha 9 anos quando um médico disse que ela estaria numa cadeira de rodas aos 15. Errou no diagnóstico e ela passou mais de uma década tratando uma doença que não tinha. Quando casou, tentou engravidar. Engravidou, ficou quatro meses de repouso, mas perdeu o bebê e sua saúde nunca mais foi a mesma. Entendeu, então, que gestar não seria o caminho. O que veio depois levou anos, dois países, uma pandemia e uma quarentena em um hotel ucraniano, antes de ela poder, finalmente, conhecer Pietra.
A história de Camila não é isolada. No Brasil, a "barriga de aluguel", hoje chamada de gestação por substituição, é restrita à chamada "barriga solidária": permitida apenas para parentes de até quarto grau, sem qualquer compensação financeira, e sujeita à autorização do Conselho Federal de Medicina quando fora desse vínculo. Comercialmente, é proibida. Esse vazio legal empurra casais brasileiros que não se encaixam nas regras para fora do país, onde um mercado global, estruturado e crescente, está pronto para recebê-los.
Os advogados Marcelo e Taíse Rayes chegaram à gestação por substituição depois de quase sete anos de tentativas, caminhos convencionais, científicos, doação de material genético e uma adoção cogitada. Escolheram os Estados Unidos pela língua, pelo fuso e pela estrutura jurídica consolidada. Lá, o processo culminou num contrato de mais de 70 laudas, dois advogados independentes e trâmites entre os estados do Tennessee e da Califórnia.
A escolha da gestante, explicam, não funciona como se imagina: não são os pais que decidem, mas a própria gestante que define o casal. Após entrevistas e períodos de resposta que podem levar semanas, ela decide se "vai com a cara" de quem vai contratar. Os Rayes receberam dois "nãos" antes de encontrar a mulher que gestaria seu filho Lucca.
Proposta ainda em discussão: Novo Código Civil inclui 'barriga solidária' na lei e altera regras para reprodução assistida
Camila foi antes desse ecossistema existir. Em 2012, não havia informação na internet sobre o tema. Pesquisou sozinha, embarcou para os Estados Unidos e voltou sem conseguir: era caro demais, US$ 120 mil na época (hoje cerca de R$ 600 mil). Tentou a Índia, que logo fechou as portas para estrangeiros.
Foi para a Ucrânia, onde o processo custava entre € 39 mil e € 40 mil (R$ 210 mil e R$ 220 mil). Chegou sem referência, nem falar ucraniano. Lá, sem poder escolher a gestante, regra da clínica mais acessível ao seu orçamento, transferiu embriões. Negativo. Tentou de novo. Pietra nasceu em junho de 2020, no meio da pandemia. Camila mobilizou embaixadas, chegou a Kiev no último minuto e ficou dez dias em quarentena num hotel designado pelo governo. Conheceu a filha dois dias depois do parto.
— Ela me esperou.
Regras diferentes
Hoje trabalha como consultora e já ajudou mais de 45 famílias. Mas carrega também o que aprendeu com o que não teve: na clínica que escolheu, não pôde nem fazer uma videochamada com a gestante.
— Vira uma pessoa que vai gestar e depois é descartada. Uma incubadora humana.
É exatamente contra isso que ela diz trabalhar — insistindo em aproximar as partes, humanizar um processo que, segundo ela, tem uma linha muito tênue entre o cuidado e o abuso.
Os planos começam em torno de US$ 59 mil (cerca de R$ 295 mil). Os mais procurados, com garantia de nascimento independentemente do número de tentativas, partem de US$ 65 mil (R$ 325 mil). O perfil dos clientes brasileiros é diverso: casais heterossexuais que esgotaram outras tentativas, casais homoafetivos para quem essa é muitas vezes a única via de ter filhos com vínculo genético, e também pais e mães solo.
Cada destino tem suas próprias regras. A Geórgia atende apenas casais heterossexuais estrangeiros. A Colômbia opera por jurisprudência, sem uma lei específica — o que cria instabilidade jurídica para todas as partes. Os EUA têm a estrutura mais consolidada, mas também os custos mais altos.
Para a socióloga Rosana Machin, da Faculdade de Medicina da USP, o crescimento desse fluxo faz parte de um fenômeno maior: as chamadas cadeias globais de fertilidade — redes transnacionais em que países com legislação permissiva se tornam destinos, gametas circulam entre fronteiras e o acesso à tecnologia reprodutiva depende, sobretudo, de poder econômico.
No Brasil, 95% dos serviços de reprodução assistida estão no setor privado. Machin, que coordena a REDLIBRE, rede latina de investigadores em biotecnologias reprodutivas, mapeou fluxos que vão além do óbvio: mulheres angolanas que vinham a São Paulo fazer reprodução assistida, engravidavam aqui e tinham filhos com dupla cidadania; ou a importação de óvulos da Espanha e da Argentina para suprir escassez no mercado brasileiro.
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O que a pesquisadora questiona de forma mais direta é a camada que costuma ficar invisível: o trabalho das mulheres que gestam. Segundo ela, muitas vêm de países com dificuldades financeiras, e o processo é sistematicamente enquadrado numa perspectiva altruísta — o que, na prática, suprime a dimensão econômica do que fazem.
A comparação que ela traz é reveladora: quando homens doam sêmen para clínicas, o ato é tratado como um trabalho remunerado, sem romantização. Quando mulheres doam óvulos ou gestam para outros, isso é tratado como um presente, uma dádiva.
— Quando ela demonstra mais interesse na compensação financeira do que no ideário de amor, pode ser descartada como candidata — diz.
Poder econômico
Machin também aponta riscos concretos em contextos com menos regulamentação: gestantes que entram no processo endividadas, perdem o bebê no meio da gestação, não recebem nada e ainda perdem o emprego por não poderem trabalhar durante o repouso.
Em países como a Colômbia, observou agências pressionando gestantes a usarem o sistema público de saúde para exames — transferindo custos privados para o Estado. A conclusão de anos de pesquisa, porém, não é pela proibição. O problema não é a prática em si, mas a ausência de regras claras, que deixa as mulheres muito mais vulneráveis ao arbítrio de clínicas e agências.
— Quanto maior a regulação e a proteção aos direitos das mulheres, maior a proteção.
Para ela, a ausência de dados, política pública e debate estruturado no Brasil não é um detalhe: é o problema central.
— A gente tem dificuldades de as mulheres exercerem o direito à interrupção da gestação até nos casos previstos em lei. Dificuldades de acesso à contracepção. E, ao mesmo tempo, cresce um mercado internacional que abre portas para quem tem poder econômico — conclui
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Summary
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Specific Findings from the Article (3)
"Camila Pavan tinha 9 anos quando um médico disse que ela estaria numa cadeira de rodas aos 15."
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Named source"Os advogados Marcelo e Taíse Rayes chegaram à gestação por substituição depois de quase sete anos de tentativas"
Named couple sharing their surrogacy journey.
Named source"Para a socióloga Rosana Machin, da Faculdade de Medicina da USP"
Named academic expert with credentials and institutional affiliation.
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Specific Findings from the Article (2)
"O que a pesquisadora questiona de forma mais direta é a camada que costuma ficar invisível: o trabalho das mulheres que gestam."
Article presents critical perspective on surrogacy practices.
Balance indicator"A conclusão de anos de pesquisa, porém, não é pela proibição. O problema não é a prática em si, mas a ausência de regras claras"
Article presents nuanced position rather than simple advocacy.
Balance indicatorContextual Depth
Background information, statistics, comprehensiveness of coverage
Summary
Comprehensive background on Brazilian laws, international comparisons, economic data, and historical context.
Specific Findings from the Article (3)
"el", hoje chamada de gestação por substituição, é restrita à chamada "barriga solidária": permitida apenas para parentes de até "
Provides legal context for Brazilian surrogacy laws.
Background"Os planos começam em torno de US$ 59 mil (cerca de R$ 295 mil)."
Provides specific cost data for surrogacy services.
Statistic"No Brasil, 95% dos serviços de reprodução assistida estão no setor privado."
Provides broader context about reproductive services in Brazil.
Context indicatorLanguage Neutrality
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Specific Findings from the Article (2)
"Casais brasileiros buscam gestação por substituição no exterior devido a restrições nacionais"
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Neutral language"Cada destino tem suas próprias regras. A Geórgia atende apenas casais heterossexuais estrangeiros."
Neutral description of different countries' regulations.
Neutral languageTransparency
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Article has date and content classification, but lacks author attribution and specific methodology disclosure.
Specific Findings from the Article (2)
"GERADO EM: 04/04/2026 - 19:32"
Date and time stamp provided.
Date present"— Quando ela demonstra mais interesse na compensação financeira do que no ideário de amor, pode ser descartada como candidata — diz."
Quotes are clearly attributed to sources.
Quote attributionLogical Coherence
Internal consistency of claims, absence of contradictions and unsupported causation
Summary
Article presents a logically consistent narrative with clear connections between personal stories, expert analysis, and policy implications.
Core Claims & Their Sources
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"Brazilian couples are crossing borders for surrogacy due to commercial prohibition in Brazil."
Source: Multiple named individuals' experiences and expert analysis Named secondary
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"The lack of clear regulation leaves surrogate mothers vulnerable and creates economic inequalities in access to assisted reproduction."
Source: Expert analysis from sociologist Rosana Machin Named secondary
Logic Model Inspector
ConsistentExtracted Propositions (7)
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P1
"In Brazil, commercial surrogacy is prohibited while altruistic surrogacy is restricted to relatives up to fourth degree"
Factual -
P2
"Surrogacy plans start around US$59,000 (approximately R$295,000)"
Factual -
P3
"95% of assisted reproduction services in Brazil are in the private sector"
Factual -
P4
"Georgia only serves heterosexual foreign couples for surrogacy"
Factual -
P5
"Brazil's legal restrictions on commercial surrogacy causes Brazilian couples seek surrogacy abroad"
Causal -
P6
"Absence of clear regulations causes increased vulnerability of surrogate mothers"
Causal -
P7
"Economic power causes differential access to international surrogacy markets"
Causal
Claim Relationships Graph
View Formal Logic Representation
=== Propositions === P1 [factual]: In Brazil, commercial surrogacy is prohibited while altruistic surrogacy is restricted to relatives up to fourth degree P2 [factual]: Surrogacy plans start around US$59,000 (approximately R$295,000) P3 [factual]: 95% of assisted reproduction services in Brazil are in the private sector P4 [factual]: Georgia only serves heterosexual foreign couples for surrogacy P5 [causal]: Brazil's legal restrictions on commercial surrogacy causes Brazilian couples seek surrogacy abroad P6 [causal]: Absence of clear regulations causes increased vulnerability of surrogate mothers P7 [causal]: Economic power causes differential access to international surrogacy markets === Causal Graph === brazils legal restrictions on commercial surrogacy -> brazilian couples seek surrogacy abroad absence of clear regulations -> increased vulnerability of surrogate mothers economic power -> differential access to international surrogacy markets
All claims are logically consistent. No contradictions, temporal issues, or circular reasoning detected.