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Catedral de Fortaleza celebra Laudes em manhã de Sábado Santo

opovo.com.br By Mateus Brisa; Mateus-Brisa 2026-04-04 934 words
Catedral de Fortaleza celebra Laudes em manhã de Sábado Santo

O altar da Catedral Metropolitana de Fortaleza amanheceu descoberto neste Sábado Santo, 4: sem toalhas, flores ou velas acesas. O cenário foi adequado para a celebração das Laudes, momento de orações matutinas da Semana Santa, em que a Igreja medita sobre a iminente ressurreição de Jesus.

Mantas roxas cobriam a cruz principal do altar e outros elementos do salão, parte da tradição chamada de "velatio". No Sábado de Aleluia, a igreja fica "despida" de ornamentos porque Cristo está morto e sepultado. A cobertura dos símbolos representa, portanto, que a glória está oculta.

Os adornos serão vistos novamente na Vigília Pascal, ainda nesta noite (veja programação no fim da matéria), quando se celebra a ressurreição. Na ocasião, a retirada das mantas é um sinal visual de que a morte foi superada.

Para o arcebispo de Fortaleza, dom Gregório Paixão, a pausa oferecida pelas Laudes é vital em um mundo "profundamente barulhento", onde as pessoas "nunca têm tempo suficiente para viver com reflexão, para dentro de si".

Segundo ele, o silêncio do momento não é um isolamento, mas uma ferramenta para combater o egoísmo e a polarização. "É exatamente para que a gente seja capaz de olhar o outro e observar a realidade", afirma.

"Quando isso não acontece, nós nos deixamos levar apenas pelas reflexões rasas e isso gera preconceito, exclusão, divisão, polarização, guerra e morte", alerta dom Gregório. "Serve exatamente para podermos fazer diferente".

O líder sublinha que unidade é o que mantém o catolicismo de pé por milhares de anos: "Impérios caíram, guerras foram feitas, tempos passaram. E a igreja permaneceu exatamente por causa dessa unidade".

Símbolo disto é o rito dos Santos Óleos, ungidos na Catedral e distribuídos para as comunidades da Capital na quinta, 2. Segundo ele, "servem para continuar fazendo discípulos de Jesus, porque as pessoas são ungidas no batismo, na crisma, na ordenação... É exatamente isso que garante a igreja".

"Quem não é capaz de mergulhar no oceano de si mesmo não consegue enfrentar as realidades. Ou seja, a primeira coisa que temos que fazer é enfrentar o mundo interno, se a gente deseja enfrentar o mundo externo"

Dom Gregório Paixão, arcebispo de Fortaleza

Refletir sobre si mesmo, ressalta o arcebispo, fornece autoconhecimento — outro conceito ligado à trajetória de Jesus na Semana Santa.

"Em muitos momentos, Jesus saiu para uma grande reflexão. Quando conseguimos fazer uma reflexão, mesmo que a gente saiba que tem que passar por uma situação, somos capazes de enfrentar. Ele enfrentou a cruz porque foi capaz de refletir sobre si e encontrar dentro dele uma força".

Devotos de Maria levam azul à Catedral

Entre os bancos da Catedral, o roxo que cobria as imagens contrastava com o azul das vestes de fiéis como Madalena Maria Martins, de 62 anos. Integrante da comunidade Salve Rainha, ela vê na celebração das Laudes um ponto de destaque na espiritualidade da Semana Santa.

"É como se fosse o coro dos anjos. Traz paz e leveza para o espírito", descreve ela. Ao lado de duas amigas de fé, ela conta participar do momento na Catedral há 10 anos, "mas muitos anos antes, também".

"O sentimento no coração é muito grandioso, de que o Senhor nunca nos abandona. Em todos os momentos da nossa vida, ele está sempre com a gente"

Madalena Maria Martins, de 62 anos

Na visão de Madalena, o evento é "muito rico", porque os Salmos cantados "falam do sepulcro, das portas fechadas que vão se abrir, então é realmente espiritual". Para ela, ocorre uma conclusão do período da Quaresma: "É o ápice de tudo que a gente viveu. No domingo, Jesus ressuscita".

O sentimento de fé também moveu o empresário Luís Forte, 42, que estava com a esposa, os dois filhos e colegas da comunidade Servos da Divina Misericórdia e do Imaculado Coração de Maria. É uma tradição dos integrantes visitar a igreja no Centro de Fortaleza na manhã do Sábado Santo.

"A gente vive como em uma espera, realmente. Vivemos o luto e a dor ali, em comunhão com a dor que Jesus sentiu por nós", diz. Para o fortalezense, o retiro matinal prepara o coração para a "grande Aleluia" da Ressurreição.

Oração contemplativa, mas nunca solitária

Cânticos melancólicos e impactantes compõem a trilha sonora das Laudes. Os instrumentos principais são vocais e de teclas. E a condução melódica fica a cargo de vozes como a do seminarista Wendell Andrade, 29.

Para ele, a importância da celebração reside na certeza da comunhão. "Nós nunca rezamos sozinhos", explica. "Nesse momento de silêncio, a Igreja se une a uma só voz para entoar seus louvores. Isso me deixa na certeza de que faço parte desse corpo e de que não estou sozinho".

Wendell descreve que a música nas Laudes projeta a finalidade de cada salmo, seja ele de louvor, súplica ou contemplação. "A melodia acompanha a intenção. Se o salmista propõe súplica, a melodia leva você a pedir algo".

Todos os anos, é entoado um grupo de canções específicas ao contexto da Semana Santa e do período matutino. Afinal, as Laudes iniciam a Liturgia das Horas, a oração pública, oficial e comunitária da Igreja Católica.

"Podem ser as mesmas [canções] todos os anos, mas os sentidos são atualizados. Talvez o mesmo salmo que rezei no ano passado, neste ano, dentro de mim, o efeito dele é novo. Tem essa atualização", finaliza.

Programação

Sábado Santo, 4 de abril

Solene Vigília Pascal, às 19 horas

Domingo de Páscoa, 5 de abril

Missas às 9 horas, 11 horas e 17 horas

Missa Solene da Ressurreição, presidida pelo arcebispo, às 19 horas

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