O sapato do meu tio: uma crônica sobre memórias e poesia do cotidiano | A TARDE
O sapato do meu tio: uma crônica sobre memórias e poesia do cotidiano
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Por Antonia Damásio*
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Em algum momento oportuno, com sorte, o vento sopra no nosso pensamento e exala o cheiro suave da criatividade. Quando encontra terreno suficientemente fértil, pousa, cediça, a semente da arte.
Não é o nascimento de uma veia artística, mas a expectação de algum viés. Seja pela pirambeira da música, ou pela acústica da coxia que, por seu sussurro teatral, enlaça o olhar e a magia acontece. É uma relação com o imaginário salpicada de rococó.
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Só sei que observar o pé de dendê aninhando samambaias e orquídeas, enternece. A relação de camaradagem que aflora no reino vegetal é comovente. Toca-me a ponto de forçar analogias com o nascimento da arte em nós, desatadamente. A construção da nossa estética, no entanto, nem sempre é plenitude simbiótica.
A arte não se limita à vida. Vejo o dendê com os olhos de quem ama sua imponência de palmeira, a alegria que emana da cor do seu fruto, da trabalheira que é a sua extração. Penso em como fui tomada pelo amor ao teatro desde muito cedo. Já fui fantoche na vida.
Fiz muita figuração. Decorei as falas dos protagonistas para salvá-los do que não pode deixar de ser dito. Com esse espírito, entendi que meu lugar era o do aplauso. Lá, na plateia, observo, com gozo, o absurdo, o poético, a calamidade. Cerquei-me de amigos que são atores, diretores, cenógrafos. Não foi sem querer, eles me capturaram.
A semente de fruição é verde, cheira a mato e pede tempo. O desfrute não é para todos. Lembro de um espetáculo, em particular. Minha primeira vivência com o Clown. Recebi de Carla Ribeiro, uma amiga querida, que finalizou a graduação em Direção teatral, o convite para assistir a um espetáculo. Sob a sua auspiciosa indicação, organizei meu roteiro cultural. Nada sabi a sobre a técnica. Enfrentei minha ignorância com boa vontade.
Lembro da plateia se acomodando, da pouca luz, e do meu coração fogosamente circense. Chequei o cenário e me senti acalentada. A produção não era vultosa, mas a beleza se encontrava no detalhe dos cuidados de cada pequeno objeto. Meus olhos descem do palco e cruzam o colo de uma mãe. A criança não deveria ter oito meses. Meu primeiro pensamento foi temperado pela intolerância.
Além daqueles que tossem (que não são poucos) haveria aquele que choraminga ou berra. Sim, sou mãe. Nem por isso deixo de ser impiedosa. Imagino que não teve com quem deixar o rebento. Percebo que a mãe não se senta. Senti o cheiro da sua aflição. Quem sabe ela precisasse daquele momento tanto ou mais que eu.
O espetáculo começou assim. Um palhaço no palco, fatiando e engolindo pedaços de banana. A criança que há em mim pulou da cadeira. A outra, suavemente sorriu. Senti o ritmo da respiração da mãe ficando errático. Entra o segundo palhaço. Longas pernas de pau. Se alguém sabe roubar a cena é aquele que se equilibra em varas de madeira. Toc, toc, toc. Sem pedir licença , o bebê abre a cortina do riso.
Do outro lado da ribalta, ele se esbalda. O palhaço o acompanha. Logo todos os risos dobraram. Se me perguntarem o desenrolar da peça, pouco sei. O palhaço e a criança se envolveram num frenesi de risos. O ator renunciou ao roteiro, privilegiou a interação. A criança gentilmente nos cedeu a honra do riso frouxo, repleto de oxigenação. Clown é a arte do improviso. E, no palco, a generosidade se instalou. Naquela noite meu riso encontrou a infância, a poética e o amor.
— Quer dizer então que você não assistiu à peça? Pergunta-me Carla, valendo-se da tecnologia que promove interações sincrônicas, 20 anos depois da sucessão desse episódio.
— Sequer lembro o nome.
— Tenho certeza de que é O Sapato do meu tio. Está gravado no YouTube. Apenas um ator muito experiente consegue encontrar esse registro do contexto e fazer um pacto sigiloso com ele. O texto vira fundo, a figura estava com a plateia. Agora você terá outra surpresa. Corre lá e assiste!
*Psicanalista
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Source classification (primary/secondary/tertiary), named vs anonymous, expert credentials, variety
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"Carla Ribeiro, uma amiga querida"
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Named source" o Clown. Recebi de Carla Ribeiro, uma amiga q"
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"Senti o cheiro da sua aflição. Quem sabe ela precisasse daquele momento tanto ou mais que eu."
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"o vento sopra no nosso pensamento e exala o cheiro suave da criatividade."
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"Por Antonia Damásio*"
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Author attribution"— Quer dizer então que você não assistiu à peça? Pergunta-me Carla"
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"A semente de fruição é verde, cheira a mato e pede tempo."
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Source: Author's personal reflection and anecdote Unattributed
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"The Clown performance exemplified the art of improvisation and generosity."
Source: Author's memory of the event and dialogue with Carla Ribeiro Named secondary
Logic Model Inspector
ConsistentExtracted Propositions (4)
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P1
"Carla Ribeiro finalized a degree in Theater Direction."
Factual -
P2
"The performance 'O Sapato do meu tio' is recorded on YouTube."
Factual -
P3
"Observing nature (dendê tree) causes evokes thoughts about art birth"
Causal -
P4
"Child's laughter during Clown performance causes led to actor improvising and audience sharing joy"
Causal
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View Formal Logic Representation
=== Propositions === P1 [factual]: Carla Ribeiro finalized a degree in Theater Direction. P2 [factual]: The performance 'O Sapato do meu tio' is recorded on YouTube. P3 [causal]: Observing nature (dendê tree) causes evokes thoughts about art birth P4 [causal]: Child's laughter during Clown performance causes led to actor improvising and audience sharing joy === Causal Graph === observing nature dendê tree -> evokes thoughts about art birth childs laughter during clown performance -> led to actor improvising and audience sharing joy
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