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Especialistas ouvidos pelo Metrópoles explicam que a resistência à sigla pode ser atribuída a fatores históricos, políticos e sociais
atualizado
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Fundado em 1980, o PT nunca elegeu um governador em São Paulo devido à combinação de fatores históricos, políticos e sociais. A tentativa de entender o fenômeno exige o esforço de um olhar para trás na história.
Entre os pontos que influenciam na resistência do eleitorado à sigla, segundo pesquisadores ouvidos pelo Metrópoles, estão a herança conservadora do estado, marcada pela força de oligarquias, como a cafeeira, financeira e industrial, além do impacto da ditadura militar, que desarticulou a esquerda.
Só em 1980 surgiria o PT. Até lá, as cartas eram dadas pelos herdeiros dessa corrente. A criação do partido chacoalharia esse tabuleiro décadas mais tarde no estado, com sucesso eleitoral na capital. Era a época da redemocratização pós-ditadura [1964-1985], com hegemonia do então PMDB.
Desse fruto, nasceria o PSDB. Tanto o PMDB [hoje MDB] quanto o PSDB vocalizariam por décadas à frente as demandas da corrente conservadora no estado, que hoje estariam representadas pelo partido Republicanos no comando, presidido por um bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus.
Viés liberal
Historicamente, em São Paulo, há uma coexistência entre forças progressistas e conservadoras. Segundo a socióloga Isadora Brizola, especialista em economia, é preciso olhar para o estado como um polo do desenvolvimento industrial brasileiro, especialmente no período em que Getúlio Vargas [1930-1945 e 1951-1954] governou o país no pré-golpe militar.
A burguesia industrial se contrapôs a uma classe trabalhadora muito numerosa, diz. "São Paulo, especificamente, desenvolve a sua perspectiva conservadora por um viés econômico. O viés conservador é baseado na perspectiva liberal para São Paulo. A gente é o forte do mercado privado: as fintechs, os bancos, a indústria, o agro."
Paulo Ramirez, cientista político e sociólogo, inclui no cálculo o efeito retrógrado da escravidão sobre a classe dominante, em contraste com seu pioneirismo econômico.
"Do ponto de vista da manutenção da mão de obra escrava, formou-se uma mentalidade conservadora, retrógrada e, inclusive, menosprezo dos trabalhadores braçais, manuais. E, por outro lado, há um progresso, ao mesmo tempo, do ponto de vista técnico, industrial, do ponto de vista material".
Efeito da ditadura
Com a ditadura, em 1964, a transmissão de tradições da militância de esquerda é interrompida. Isso afetou sobremaneira a organização dos campos políticos. Partidos contrários à repressão perderam seus direitos políticos.
"O que restou de fato foi uma reorganização dos movimentos de esquerda por meio das universidades, sobretudo as universidades públicas e consequentemente começou-se a estabelecer uma resistência estudantil", diz Ramirez.
A construção social de um país que excluiu grande parte da população, especialmente a negra, do processo eleitoral, numa equação de subtração de direito político, também teria culminado na defasagem de senso crítico na classe trabalhadora.
"Até 1985, o voto para pessoas analfabetas era proibido, era proibido no país de analfabetos funcionais que temos até hoje. Então, essa representação política no Brasil foi construída pela elite", reforça Brizola.
Ramirez acrescenta o fato de o período da redemocratização ter coincidido com a fase de abertura econômica ao capital neoliberal, impregnando-se pelo interior do estado.
"A esquerda começou a perder muita força, mesmo porque a redemocratização coincidiu com esse período de abertura econômica em nome do grande capital neoliberal".
A expansão das atividades econômicas colocaria, assim, os donos do capital também em posição de poder político, faturando uma adesão no interior do estado tanto de empregados quanto de patrões.
"Então, São Paulo tem um predomínio nos centros urbanos desses profissionais liberais que ideologicamente se aproximam da visão dos seus opressores, no caso da burguesia que comanda o setor de serviços, assim como também no interior, a população, boa parte dela, acaba aderindo à visão dos latifundiários."
Já quase no fim do regime militar, o PT surge na Grande São Paulo com propostas inéditas, nunca então testadas, destaca a cientista política Daniela Costanzo, pesquisadora plena do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).
"Surge ali com os operários em fábricas, no ABC, uma classe cujos pais não tinham histórico, nem de sindicalismo, militância, de esquerda, nada disso, e o PT cresce justamente por isso, por pegar uma classe inteiramente nova, num lugar propício."
Tucanato e malufismo
Enquanto o PT crescia, a direita também se organizava. "A gente tinha várias eleições com o segundo turno só da direita, PMDB versus Maluf", lembra a cientista política do Cebrap. "Uma parte importante de São Paulo é o berço do malufismo, que é um movimento também muito importante e conservador aqui da capital", diz Costanzo.
O conservador Paulo Maluf foi duas vezes prefeito de São Paulo, sendo uma delas biônico [1969-1971] e outra eleito [1993-1996], e uma governador [1979-1982], também nomeado pelo regime militar.
Em outra raia, o PSDB, nascido da costela peemedebista, se espalhava pelo interior em oposição ao conservadorismo. O longo ciclo tucano à frente do Palácio dos Bandeirantes, de quase três décadas, consolidou uma máquina pública robusta e uma base eleitoral capilarizada pelo estado, influenciado por elites locais e pelo agronegócio, os grandes herdeiros oligárquicos.
"Ao mesmo tempo, o PSDB conseguiu penetrar no eleitorado mais popular que apoiava o PMDB no interior do estado", diz Ramirez.
Enquanto em plano estadual o PT seria mais fraco que o adversário, no federal ele seria maioral a partir de 2002. Daniela Constanzo analisa como a partir de 2006, o PT começa a mudar o eleitorado.
"Antes, a gente tinha um eleitor do PT mais ligado às classes médias, com maior escolaridade. Com o primeiro governo Lula, ele consegue atrair um eleitor mais popular de classes baixas. E também ele afasta a classe média", analisa Costanzo.
Com as vitórias presidenciais em sequência do partido, cresce, por sua vez, o antipetismo em São Paulo, especialmente após o Mensalão [junho de 2005] e a Operação Lava Jato [março de 2014], gerando estragos no desempenho eleitoral do partido.
Capital progressista
Embora o PT nunca tenha eleito um governador no estado de São Paulo, o partido já geriu a cidade de São Paulo em três ocasiões: Luiza Erundina (de 1989 a 1992), a primeira prefeita petista da capital; Marta Suplicy (entre 2001 e 2004), eleita em segundo turno contra Paulo Maluf; e Fernando Haddad (de 2013 a 2016), o último prefeito do partido na capital paulista.
De acordo com os especialistas, a tendência é comum em outros países, inclusive na Europa e nos Estados Unidos. As metrópoles e os centros urbanos costumam ser mais progressistas: abraçam uma maior diversidade de ideias e de posicionamentos políticos. "Isso também muda a correlação de forças entre os progressistas e os conservadores", diz Costanzo.
Eleições 2026
Para as eleições de 2026, os especialistas consideram que a competitividade do PT ainda caminha a passos lentos. "Nas últimas eleições para municípios, o PT perdeu muita prefeitura. E o centrão cresceu muito. Se não tem uma base mais forte, estabelecida no estado, é difícil dele crescer e ficar mais condicionado", avalia Costanzo.
Por outro lado, de acordo com Ramirez, é possível notar algumas mudanças recentes de posturas do PT. Uma delas ocorreu nas eleições de 2024, quando pela primeira vez o partido recuou e não lançou um candidato a prefeito, ao apoiar Guilherme Boulos (PSol).
"Mais especificamente para a eleição deste ano, apesar de se manter Fernando Haddad como candidato, o PT está mais flexível em relação ao apoio à candidatura de políticos que têm uma afeição mais ao centro, que é o caso da própria [Simone] Tebet, que vai ser candidata ao Senado. Ainda se especula sobre Marina Silva ser candidata aqui também no estado de São Paulo".
Ainda hoje, a lógica liberal entre os eleitores tem fragmentado a organização coletiva da esquerda, segundo Isadora Brizola. "O debate estrutural não está acontecendo", reconhece.
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▸ Source Quality 4/5
Source classification (primary/secondary/tertiary), named vs anonymous, expert credentials, variety
Summary
Multiple named expert sources are cited, but all are secondary sources (analysts/scholars) with no primary sources like direct interviews with politicians or officials.
Findings 4
"Segundo a socióloga Isadora Brizola, especialista em economia"
Named expert with stated specialization.
Expert source"Paulo Ramirez, cientista político e sociólogo"
Named expert with stated credentials.
Expert source"destaca a cientista política Daniela Costanzo, pesquisadora plena do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap)."
Named expert with institutional affiliation.
Expert source"Especialistas ouvidos pelo Metrópoles explicam"
General attribution to experts, not primary sources.
Secondary source▸ Perspective Balance 3/5
Acknowledgment of multiple viewpoints, counterarguments, and balanced presentation
Summary
The article explains the PT's lack of success from a historical/sociological perspective but does not actively present counterarguments from PT supporters or other political viewpoints.
Findings 3
"Embora o PT nunca tenha eleito um governador no estado de São Paulo, o partido já geriu a cidade de São Paulo em três ocasiões"
Acknowledges PT's successes in a different arena (city governance).
Balance indicator"Entre os pontos que influenciam na resistência do eleitorado à sigla"
Framing focuses solely on resistance to the PT.
One sided"cresce, por sua vez, o antipetismo em São Paulo"
Presents a negative trend without a balancing pro-PT perspective.
One sided▸ Contextual Depth 5/5
Background information, statistics, comprehensiveness of coverage
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Provides comprehensive historical, political, and social context spanning from the 19th century to present, with specific dates, events, and expert analysis.
Findings 4
"Fundado em 1980, o PT nunca elegeu um governador em São Paulo devido à combinação de fatores históricos, políticos e sociais."
Sets up the core question and scope of analysis.
Background"a herança conservadora do estado, marcada pela força de oligarquias, como a cafeeira, financeira e industrial, além do impacto da ditadura militar"
Provides deep historical background factors.
Background"Só em 1980 surgiria o PT. Até lá, as cartas eram dadas pelos herdeiros dessa corrente."
Provides historical timeline context.
Context indicator"Até 1985, o voto para pessoas analfabetas era proibido"
Provides specific historical data on voting rights.
Statistic▸ Language Neutrality 4/5
Absence of loaded, sensationalist, or politically biased language
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Findings 4
"Especialistas ouvidos pelo Metrópoles explicam"
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Neutral language"De acordo com os especialistas, a tendência é comum em outros países"
Neutral, comparative language.
Neutral language"o efeito retrógrado da escravidão"
"Retrógrado" (retrograde) carries a negative value judgment.
Left loaded"gerando estragos no desempenho eleitoral do partido."
"Estragos" (damage/wreckage) is a strong, dramatic term.
Sensationalist▸ Transparency 5/5
Author attribution, dates, methodology disclosure, quote attribution
Summary
Full author attribution, date stamp, clear quote attribution to named experts, and indication of methodology (experts consulted).
Findings 2
"Especialistas ouvidos pelo Metrópoles explicam"
Indicates the article is based on consulting experts.
Methodology""São Paulo, especificamente, desenvolve a sua perspectiva conservadora por um viés econômico. O vié"
Quote is clearly attributed to a source (Isadora Brizola).
Quote attribution▸ Logical Coherence 5/5
Internal consistency of claims, absence of contradictions and unsupported causation
Summary
No logical contradictions or inconsistencies detected. The argument builds coherently from historical factors to present-day analysis.
Core Claims
"The PT has never won the governorship of São Paulo due to a combination of historical, political, and social factors."
Attributed to experts consulted by Metrópoles, with specific analysis from sociologist Isadora Brizola, political scientist Paulo Ramirez, and political scientist Daniela Costanzo. Named secondary
"Key factors include São Paulo's conservative heritage from oligarchies (coffee, finance, industry), the impact of the military dictatorship, and the state's economic liberalism."
Analysis from experts Isadora Brizola and Paulo Ramirez. Named secondary
"The PT's presidential victories and subsequent scandals (Mensalão, Lava Jato) fueled anti-PT sentiment in São Paulo, harming its electoral performance."
Analysis from expert Daniela Costanzo. Named secondary
Logic Model Inspector
ConsistentExtracted Propositions (8)
-
P1
"The PT was founded in 1980."
Factual -
P2
"The PT has governed the city of São Paulo three times (Erundina, Suplicy, Haddad)."
Factual -
P3
"Until 1985, illiterate people were prohibited from voting in Brazil."
Factual -
P4
"Paulo Maluf was mayor of São Paulo twice and governor once."
Factual -
P5
"The PSDB governed São Paulo for almost three decades."
Factual -
P6
"The military dictatorship (1964) causes interrupted leftist militant traditions and political organization."
Causal -
P7
"Economic liberal bias in São Paulo causes fosters conservative perspective and fragments leftist collective organization."
Causal -
P8
"PT's presidential victories and corruption scandals causes increased anti-PT sentiment in São Paulo."
Causal
Claim Relationships Graph
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=== Propositions === P1 [factual]: The PT was founded in 1980. P2 [factual]: The PT has governed the city of São Paulo three times (Erundina, Suplicy, Haddad). P3 [factual]: Until 1985, illiterate people were prohibited from voting in Brazil. P4 [factual]: Paulo Maluf was mayor of São Paulo twice and governor once. P5 [factual]: The PSDB governed São Paulo for almost three decades. P6 [causal]: The military dictatorship (1964) causes interrupted leftist militant traditions and political organization. P7 [causal]: Economic liberal bias in São Paulo causes fosters conservative perspective and fragments leftist collective organization. P8 [causal]: PT's presidential victories and corruption scandals causes increased anti-PT sentiment in São Paulo. === Causal Graph === the military dictatorship 1964 -> interrupted leftist militant traditions and political organization economic liberal bias in são paulo -> fosters conservative perspective and fragments leftist collective organization pts presidential victories and corruption scandals -> increased antipt sentiment in são paulo
All claims are logically consistent. No contradictions, temporal issues, or circular reasoning detected.
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