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por Paulo Kliass
Uma das principais causas das dificuldades enfrentadas pelo governo Lula para reduzir seus índices de desaprovação reside no elevado índice de endividamento das famílias e pelos também altos indicadores de inadimplência. De acordo com a pesquisa mais recente organizada pela Confederação Nacional do Comércio (PEIC/CNC), em março de 2026 havia 80,4% das famílias com dívidas, ao passo que 29,6% delas estavam com o endividamento em atraso.
O quadro destas variáveis demonstra de forma evidente o próprio estado das desigualdades sociais e econômicas de nosso País. O percentual de famílias endividadas aumenta à medida em que se reduz o nível de renda dos grupos familiares. Assim por exemplo, o percentual para famílias de rendimentos entre 0 e 3 salários-mínimos (sm) mensais atinge 83%, ao passo que para aqueles grupos familiares com renda mensal superior a 10 sm o percentual cai para 70%.
Endividamento, inadimplência e condições de pagamento
Fonte: CNC/PEIC
Quando a variável questionada é o nível de inadimplência, a diferença fica ainda maior. Para as famílias de 0 a 3 sm, o índice de atraso no pagamento das dívidas é 38%, ao passo que se vê reduzido para 15% no caso do segmento de renda mais alta. Para a pergunta relativa à impossibilidade de honrar as dívidas, o grupo da base da pirâmide aponta para 18% do total de famílias, ao passo que os grupos de mais de 10 sm registram apenas 4,5%.
Endividamento e inadimplência: níveis recordes.
Esta realidade promove um comprometimento significativo da renda dos indivíduos e das famílias com o cumprimento de obrigações de natureza financeira. Assim, percebe-se uma redução do impacto de anúncios promovidos pelo governo, a exemplo do crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) ou da redução dos índices de desemprego. O fato concreto é que, apesar de tais indicadores macroeconômicos, na realidade de seu cotidiano, as pessoas não sentem plenamente os efeitos de tais avanços. Os elevados níveis de endividamento, combinados com a existência de taxas de juros estratosféricas, dificultam a conversão de tais melhorias nos indicadores gerais em sensações mais positivas no bem-estar e na qualidade de vida dos indivíduos.
O governo parece ter se dado conta desse fenômeno, ainda que de forma bastante tardia. Com as pesquisas de opinião e as sondagens eleitorais apontando para o crescimento das dificuldades para Lula em outubro próximo, algumas propostas começam a ser ventiladas e anunciadas. A mais recente diz respeito a uma fala do novo Ministro da Fazenda, Dario Durigan. Em meio a uma entrevista recheada de pérolas neoliberais e de compromisso explícito com políticas do austericídio, o ex dirigente da bigtech Meta no Brasil, ventilou a hipótese de o governo liberar o uso de recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para o cumprimento das obrigações em atraso.
FGTS não se destina a isso.
Ora, trata-se de uma medida bastante inadequada para os fins a que se propõe. O FGTS é um fundo constituído por recursos dos próprios trabalhadores e tem por objetivo o atendimento de necessidades outras, de médio e de longo prazo. A sua criação, logo depois do golpe militar de 1964, veio na tentativa de promover a compensação da eliminação da estabilidade no emprego – uma importante conquista dos trabalhadores existente até então. Assim, a ideia era que os recursos pudessem a ser acessíveis aos assalariados nos momentos em que fossem demitidos de seus empregos. A Caixa Econômica Federal (CEF) é a instituição financeira responsável pela gestão dos recursos do fundo. De acordo com as definições legais, percebe-se que:
(…) "Missão do FGTS: Constituir e preservar a reserva financeira do trabalhador e fomentar investimentos nas áreas de habitação, saneamento e infraestrutura para a melhoria da qualidade de vida da população brasileira." (…) [GN]
Além desta incongruência de natureza essencial, outro aspecto a ser levantado refere-se ao fato de que a eventual liberação de recursos do FGTS atenderia às necessidades apenas de uma parcela bastante reduzida das famílias endividadas. Afinal, só têm direto ao fundo os trabalhadores assalariados com carteira assinada e com contrato empregatício sob as regras da CLT. Isto significa que estão fora desse universo os servidores públicos (municipais, estaduais e federais), os informais e precários, os microempresários, os aposentados e pensionistas de toda ordem e os desempregados. Ainda que os levantamentos disponíveis não ofereçam informações sobre a percentagem de assalariados no total de endividados e inadimplentes, com certeza eles não devem ser a parcela majoritária.
Na verdade, o governo deveria adotar para esse universo de famílias de baixa renda procedimento similar ao que faz todos os anos com os devedores da União. Trata-se dos conhecidos programas de refinanciamento das dívidas tributárias do grande capital, ainda que também sejam contempladas as médias e as pequenas empresas. São os REFIS lançados pela Receita Federal do Brasil (RFB) e pela Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional. (PGFN). Estes programas terminam por estimular a sonegação e a evasão fiscais por parte das grandes empresas, uma vez que se tornaram rotinas anuais que beneficiam especialmente aquelas que não cumprem com suas obrigações tributárias de forma legal e correta.
REFIS para grande capital. E para os mais pobres?
Os programas preveem cancelamento das multas por atraso no pagamento e uma redução significativa até mesmo nos valores do principal das obrigações dos grandes devedores. Além disso, após o cálculo do valor devido, os órgãos do governo federal oferecem parcelamento em até 15 anos (180 mensalidades) sem juros. Assim, são montantes bilionários que deixam de ser arrecadados anualmente pelo Tesouro Nacional em benefício dos maus pagadores. Ora, se a intenção é promover algum grau de isonomia junto aos diferentes setores da sociedade, seria de se esperar que um governo dirigido pelo Partido dos Trabalhadores oferecesse programas de políticas públicas dirigidos aos grupos mais vulneráveis incluindo benefícios semelhantes àqueles concedidos ao grande capital.
Por outro lado, é importante alertar para mudanças mais recentes verificadas nos próprios processos de endividamento das famílias. Além do impacto provocado por obrigações como contas de água, luz e telefone, outras como carnês de financiamento de consumo de bens e boletos diversos junto ao sistema financeiro, passaram a ganhar relevo nas estruturas das despesas mensais de indivíduos e famílias os valores gastos em apostas esportivas (as chamadas "bets"). Alguns estudos chegam a afirmar que esse grupo assume a condição de maior responsável pelos índices de endividamento e inadimplência. Ao não estabelecer limites e mecanismos de regulamentação efetiva sobre esse novo setor da economia, o governo deixa de contar com outro importante instrumento para reduzir os fatores que mais contribuem para o endividamento.
Finalmente, é fundamental que a política monetária sofra uma expressiva mudança de rota, por meio da redução da taxa referencial de juros. Além da redução da SELIC seria necessário também que o Ministério da Fazenda orientasse os bancos estatais sob sua jurisdição a reduzirem os "spreads" praticados nas operações de crédito junto a empresa e indivíduos. Não faz sentido que Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Banco do Nordeste e Banco da Amazônia pautem seu comportamento no segmento bancário mimetizando a estratégia do oligopólio da banca privada.
Faltam pouco mais de 6 meses para as eleições. É fundamental que Lula oriente sua equipe para a adoção de medidas concretas e urgentes para reduzir sua desaprovação nas pesquisas de opinião. E isso passa por anunciar propostas concretas para amenizar o impacto do endividamento e da inadimplência no cotidiano das famílias. Não basta apenas ajudar o grande capital. É fundamental que o governo coloque recursos à disposição de amplos setores da base da nossa pirâmide da desigualdade para esse fim.
Paulo Kliass é doutor em economia e membro da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental do governo federal.
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▸ Source Quality 3/5
Source classification (primary/secondary/tertiary), named vs anonymous, expert credentials, variety
Summary
Relies on one named data source (CNC/PEIC) and the author's expertise, but lacks direct primary sources like interviews.
Findings 3
"De acordo com a pesquisa mais recente organizada pela Confederação Nacional do Comércio (PEIC/CNC)"
Cites a specific, named institutional data source.
Named source"Paulo Kliass é doutor em economia e membro da carreira de Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental do governo federal."
Author is identified as an economics doctorate and government policy expert.
Expert source"Alguns estudos chegam a afirmar que esse grupo assume a condição de maior responsável"
Vaguely references unnamed 'studies'.
Tertiary source▸ Perspective Balance 2/5
Acknowledgment of multiple viewpoints, counterarguments, and balanced presentation
Summary
Primarily presents a single, critical perspective on government policy, with minimal substantive engagement with opposing views.
Findings 2
"Em meio a uma entrevista recheada de pérolas neoliberais e de compromisso explícito com políticas do austericídio"
Uses highly pejorative language to dismiss the Finance Minister's position without fair representation.
One sided"Não basta apenas ajudar o grande capital."
Presents a binary, critical framing of government action without exploring counter-arguments for existing policies.
One sided▸ Contextual Depth 4/5
Background information, statistics, comprehensiveness of coverage
Summary
Provides substantial statistical data, historical background on the FGTS, and detailed policy context.
Findings 3
"80,4% das famílias com dívidas, ao passo que 29,6% delas estavam com o endividamento em atraso."
Provides specific, recent data points on debt and delinquency.
Statistic"A sua criação, logo depois do golpe militar de 1964, veio na tentativa de promover a compensação da eliminação da estabilidade no emprego"
Provides historical context for the creation of the FGTS.
Background"Os programas preveem cancelamento das multas por atraso no pagamento e uma redução significativa até mesmo nos valores do principal das obrigações dos grandes devedores. Além disso, após o cálculo ..."
Explains the specific terms of existing REFIS programs for corporate debt.
Context indicator▸ Language Neutrality 2/5
Absence of loaded, sensationalist, or politically biased language
Summary
Contains multiple instances of politically loaded and sensationalist language criticizing government policies and figures.
Findings 4
"recheada de pérolas neoliberais e de compromisso explícito com políticas do austericídio"
Uses ideologically charged terms ('neoliberal', 'austericide') to disparage.
Left loaded"taxas de juros estratosféricas"
Uses dramatic, non-technical language ('stratospheric') to describe interest rates.
Sensationalist"am especialmente aquelas que não cumprem com suas obrigações tributárias de forma legal e correta. REFIS para grande "
Makes a moral judgment ('not legal and correct') about corporate behavior.
Left loaded"o oligopólio da banca privada."
Uses a charged term ('oligopoly') for the private banking sector.
Sensationalist▸ Transparency 4/5
Author attribution, dates, methodology disclosure, quote attribution
Summary
Clear author attribution, date, and quote attribution for the FGTS mission statement. Lacks methodology for some claims.
Findings 2
"por Paulo Kliass"
Author is clearly named at the beginning.
Author attribution" (…) "Missão do FGTS: Constituir e preservar a reserva financeira do trabalhador e fomentar investimento"
Quotes an official source (FGTS mission) with an attribution marker ([GN]).
Quote attribution▸ Logical Coherence 4/5
Internal consistency of claims, absence of contradictions and unsupported causation
Summary
Arguments are logically structured but contain one minor unsupported causal claim.
Findings 2
"Alguns estudos chegam a afirmar que esse grupo assume a condição de maior responsável pelos índices de endividamento e inadimplência."
Makes a strong causal claim ('biggest responsible') about sports betting based on vague 'some studies' without citation.
Unsupported cause" Alguns estudos chegam a afirmar que esse grupo assume a condição de maior responsável pelos índices de endivi"
Claims sports betting is the biggest driver of household debt based on unspecified studies.
Logic unsupported causeLogic Issues
Unsupported cause · medium
Claims sports betting is the biggest driver of household debt based on unspecified studies.
"'Alguns estudos chegam a afirmar que esse grupo assume a condição de maior responsável pelos índices de endividamento e inadimplência.'"
Core Claims
"High household debt and delinquency are a primary cause of President Lula's low approval ratings."
Data from CNC/PEIC survey on family debt, interpreted by the author. Named secondary
"The government's proposed use of FGTS funds to pay overdue debts is inadequate and misaligned with the fund's purpose."
Author's analysis based on historical context of FGTS and its legally defined mission. Named secondary
"The government should offer debt relief programs for low-income families similar to the REFIS programs offered to large corporate debtors."
Author's policy recommendation, based on described features of existing REFIS programs. Unattributed
Logic Model Inspector
ConsistentExtracted Propositions (5)
-
P1
"In March 2026, 80.4% of Brazilian families had debts and 29.6% were delinquent."
Factual -
P2
"The FGTS was created after the 1964 military coup to compensate for the elimination of job stability."
Factual -
P3
"REFIS programs for corporate debt allow for fine cancellation, principal reduction, and interest-free installment plans up to 15 years."
Factual -
P4
"High debt levels combined with high interest rates prevent people from feeling the benefits of macroeconomic improvements causes reduced government..."
Causal -
P5
"Annual REFIS programs for large companies causes encourage tax evasion and avoidance."
Causal
Claim Relationships Graph
View Formal Logic Representation
=== Propositions === P1 [factual]: In March 2026, 80.4% of Brazilian families had debts and 29.6% were delinquent. P2 [factual]: The FGTS was created after the 1964 military coup to compensate for the elimination of job stability. P3 [factual]: REFIS programs for corporate debt allow for fine cancellation, principal reduction, and interest-free installment plans up to 15 years. P4 [causal]: High debt levels combined with high interest rates prevent people from feeling the benefits of macroeconomic improvements causes reduced government approval. P5 [causal]: Annual REFIS programs for large companies causes encourage tax evasion and avoidance. === Causal Graph === high debt levels combined with high interest rates prevent people from feeling the benefits of macroeconomic improvements -> reduced government approval annual refis programs for large companies -> encourage tax evasion and avoidance
All claims are logically consistent. No contradictions, temporal issues, or circular reasoning detected.
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