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Fatos e mitos sobre os bombardeios de Dresden

operamundi.uol.com.br By Estevam Silva 2026-02-13 1300 words
Fatos e mitos sobre os bombardeios de Dresden

Em 1945, ataque conduzido pelos EUA e Reino Unido destruiu metade de todas as edificações da cidade alemã

Há 81 anos, em 13 de fevereiro de 1945, forças britânicas e norte-americanas iniciavam uma violenta campanha de bombardeios contra a cidade de Dresden, a capital da Saxônia, na Alemanha nazista.

A ofensiva se estendeu por três dias. Quase 4.000 toneladas de bombas foram jogadas sobre a cidade, criando uma tempestade de fogo que devastou 39 quilômetros quadrados de sua área central. Estima-se que até 25.000 pessoas morreram durante o ataque.

O bombardeio suscitou muitas críticas aos Aliados, por ter sido direcionado contra alvos civis. Nas últimas décadas, setores de extrema-direita e grupos neonazistas têm promovido o revisionismo histórico sobre os bombardeios, inflando o número de mortes e sustentando uma narrativa que tenta equiparar as ações dos aliados às atrocidades cometidas pelo regime nazista.

O bombardeio

Após impor a maior derrota sofrida pela Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial, praticamente aniquilando o Grupo de Exércitos Centro da Wehrmacht, a União Soviética deu início à Ofensiva de Vistula-Oder — operação militar que libertou a Polônia e capturou parte do território alemão, permitindo ao Exército Vermelho combater as tropas de Adolf Hitler dentro das fronteiras do próprio Reich.

Embora estivesse enfraquecida, a Alemanha ainda estava longe de ser derrotada. Tropas britânicas e norte-americanas ainda não tinham conseguido avançar em território alemão. A Luftwaffe (Força Aérea alemã) conservava sua capacidade de efetuar ataques aéreos devastadores. Os mísseis V2 e os aviões de caça continuavam sendo fabricados. As forças alemãs chegaram até mesmo a abrir um buraco nas linhas aliadas durante a Batalha das Ardenas.

Visando enfraquecer a capacidade de resistência e de produção de materiais bélicos do Terceiro Reich, os aliados concordaram com a realização de uma campanha de bombardeios aéreos contra os principais centros militares e industriais do país. O principal alvo foi a cidade de Dresden, capital do estado da Saxônia.

A operação foi conduzida por Estados Unidos e Reino Unido, mas os oficiais soviéticos foram informados previamente. Entre os dias 13 e 15 de fevereiro, as forças aliadas mobilizaram 520 aeronaves e despejaram 3.900 toneladas de bombas e dispositivos incendiários sobre Dresden.

Os bombardeios destruíram aproximadamente metade de todas as edificações da cidade. O inverno seco da Saxônia e a estrutura de madeira das edificações facilitaram a proliferação dos incêndios, que consumiram mais de 39 quilômetros quadrados da área central de Dresden.

A reação nazista

A devastação causada pelos bombardeios e incêndios foi explorada ao máximo pelos ideólogos do Terceiro Reich, visando estabelecer o argumento da "equivalência da brutalidade" entre o Eixo e os Aliados.

Um dia após o término da campanha, o ministro da propaganda nazista, Joseph Goebbels, emitiu um comunicado à imprensa onde dizia que nada justificava o ataque. Dresden, segundo ele, seria uma cidade histórica, um centro cultural desprovido de indústria bélica, alvos militares ou importância estratégica. Goebbels afirmou que os bombardeios foram um genocídio, um "esforço premeditado de extermínio do povo alemão".

Autoridades do regime nazista também se referiam ao ataque como um "ato de vingança" e um "crime de guerra" perpetrado contra a população civil. Passados alguns dias dos bombardeios, Goebbels divulgou um documento onde afirmava que a campanha havia resultado na morte de 200 mil pessoas. A maioria, segundo Goebbels, eram refugiados que buscavam fugir das tropas da União Soviética.

A propaganda de Goebbels perdurou após o fim da guerra. Nas últimas décadas, grupos neonazistas e agremiações de extrema-direita recuperaram integralmente a propaganda de guerra dos ideólogos alemães, dando início a um movimento revisionista em torno de Dresden.

Todos os anos, neonazistas alemães tentam realizar passeatas no aniversário dos bombardeios, carregando faixas sobre o "genocídio de Dresden" — e todos os anos são confrontados por grupos antifascistas.

O revisionismo histórico tenta estabelecer uma falsa paridade entre as ações da Alemanha nazista e as potências aliadas, colocando-as como equivalentes a partir de premissas falsas, com o objetivo de atenuar o estigma negativo do nazismo.

Não raramente, o discurso revisionista é amparado no apelo ao argumento da "história escrita pelos vencedores" e no discurso de extremistas de direita como o historiador David Irving, um dos mais conhecidos negacionistas do Holocausto.

Contestando os mitos

A maior parte desses argumentos elencados pelos revisionistas não resiste à análise objetiva dos fatos. Não é verdade, por exemplo, que Dresden "não tinha importância estratégica ou militar". Em janeiro de 1945, Dresden era a sede da principal guarnição militar de apoio aos esforços alemães na Frente Oriental.

Além de sediar um dos maiores arsenais de munições do país e uma base com 20 mil soldados da Wehrmacht, a cidade possuía agrupamentos com recrutas da Volkssturm, da Juventude Hitlerista e da Waffen-SS.

Diante do avanço dos soldados soviéticos, Dresden foi transformada em uma fortaleza militar, comandada por Heinz Guderian. A cidade abrigou o principal foco de combate às tropas do Exército Vermelho lideradas pelo marechal Ivan Konev.

Dresden era também um dos principais entroncamentos ferroviários da Alemanha nazista, tendo imensa importância logística para a coordenação do transporte de tropas e de equipamentos bélicos.

Diariamente, circulavam pelos pátios de triagem da cidade dezenas de composições ferroviárias de tropas militares. Boa parte do material bélico utilizado pela Wehrmacht na Frente Oriental passava pelo entroncamento de Dresden. Em função disso, o general soviético Alexei Antonov já havia sugerido o bombardeamento do entroncamento ferroviário de Dresden durante a Conferência de Yalta.

Dresden também era um dos mais importantes centros industriais da Alemanha nazista, concentrando centenas de fábricas voltadas à fabricação de materiais bélicos em tempo integral — incluindo torpedos e mísseis. Entre as fábricas mais famosas da cidade estava a Zeiss, então dedicada a produzir aparelhos de mira, bombas e fuzis.

Até mesmo oficinas de arte no centro da cidade estavam participando do esforço de guerra, produzindo peças para os mísseis V-1. Aproximadamente 50 mil moradores de Dresden estavam diretamente empregados na indústria bélica.

O número de mortes causadas pelos bombardeios foi objeto de controvérsias que perduraram por décadas. Em 2004, a prefeitura de Dresden montou uma comissão de historiadores para avaliar a questão. A comissão pesquisou documentos, relatos e evidências historiográficas ao longo de cinco anos e publicou um relatório de quase 100 páginas em novembro de 2009.

O relatório conclui que "o número de pessoas mortas pelos bombardeios de Dresden, conduzidos entre 13 e 15 de fevereiro de 1945, não ultrapassou a cifra de 25.000 indivíduos". Sobre as alegações de Irving e Goebbels de que centenas de milhares de pessoas teriam morrido nos ataques, a comissão afirmou que a simples análise da emissão de certidão de óbitos desmente tais cifras, que seriam "impossíveis considerando o contexto histórico".

A afirmação de Goebbels de que a maioria das vítimas dos bombardeios eram refugiados fugindo do avanço do Exército Vermelho é igualmente falsa, uma vez que refugiados não obtiveram autorização para permanecer na região de Dresden durante o conflito.

Dresden não foi a única cidade alemã bombardeada pelos aliados ocidentais. Colônia, Hamburgo, Berlim e várias outras cidades foram submetidas a violentas campanhas de bombardeio que resultaram em dezenas de milhares de mortes.

A estratégia de bombardeio contra alvos civis para espalhar o terror, destruir a moral do inimigo e minar o estado psicológico das massas constitui crime de guerra. O debate, entretanto, não pode ser travado a partir do discurso revisionista da extrema-direita, que busca atenuar os horrores do regime nazista por meio da manipulação de narrativas.

No caso de Dresden, as evidências históricas desmentem muitos dos falsos paralelismos. E se há argumentos sólidos para classificar a campanha contra a cidade como crime de guerra, também é prudente lembrar de uma famosa impressão registrada por um sobrevivente de um gueto de Theresienstadt ao testemunhar os ataques: "Choramos de alegria quando vimos o céu vermelho. Dresden está queimando e os aliados estão próximos".

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