▸ Article
Desde que chegou à comissão especial do Legislativo, em dezembro de 2025, o projeto de lei construído pelo Executivo Municipal foi alvo de críticas por parte dos 12 vereadores da oposição. Durante a votação das emendas, que se iniciou na primeira quinzena de março e se estendeu por pouco mais de um mês, o bloco de esquerda defendeu centenas de mudanças no documento. Poucas delas foram acatadas pelo restante do plenário.
Ao todo, a Casa destacou 367 emendas e nove subemendas para discutir. Até o início da sessão da última quarta-feira (22) eram 44 aprovações para 294 rejeições. A maioria das alterações negadas era de autoria da oposição. Uma das principais vitórias do bloco, entretanto, foi a aprovação da emenda n°64, que reforça a preservação das Zonas Especiais de Interesse Social, as antigas AEIS.
Ao menos 90 rejeições, contudo, não eram de nenhum dos dois blocos, mas do Fórum de Entidades, que mobilizou representantes de movimentos sociais, associações de bairro, coletivos técnicos e sindicatos para representar a sociedade civil nas construção do novo Plano Diretor. Para a base do governo de Sebastião Melo (MDB), as negativas se justificam pelo fato de que a maioria das alterações mexiam em questões estruturais do documento.
Segundo o secretário municipal de Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade de Porto Alegre, Germano Bremm, a revisão do Plano Diretor foi resultado de uma ampla participação pública, com mais de 200 processos, entre audiências e oficinas territoriais e técnicas. "Somos a cidade brasileira com o maior processo participativo da história", afirma.
"Este novo plano faz uma revolução", completa Breem, que afirma que esse é um dos únicos planos diretores do Brasil que, de forma integrada, traz a política climática de resiliência e proteção. "Historicamente, isso é tratado de forma segmentada. Basta consultar todos os planos diretores do Brasil. Em Porto Alegre, em função também dessa unificação da política ambiental com a urbanística, a gente não só integra como traz como objetivo central adaptar a cidade às mudanças climáticas e zerar as emissões de gás de efeito estufa", defende.
Porto Alegre precisa de mais prédios?
"A ideia de que a gente precisa adensar está correta. Mas, para adensar os bairros, você precisa construir mais ou sinalizar que você deveria ocupar aqueles imóveis que estão vazios?", indaga o geógrafo Mário Lahorgue, professor do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que é especialista em Geografia Humana, Urbana e Econômica.
Segundo o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), havia pelo menos 100 mil imóveis vazios na capital gaúcha em 2022. Neste mesmo ano, havia 2 mil pessoas em situação de rua na cidade, conforme dados do Cadastro Único. "A situação atual de Porto Alegre não é uma situação em que você precisa de incentivo para construir mais coisas", afirma o pesquisador.
"A construção civil é obviamente importante para a cidade. Mas ela tem que ser regulada pelo interesse maior, que é organizar uma cidade que seja boa para todos viverem", completa. Para o professor, embora contemple diferentes necessidades da Capital, o novo Plano Diretor retrocede em pontos importantes, especialmente, ao priorizar interesses individuais ao invés da função social da cidade. "Tem algumas mudanças em relação ao plano vigente que foram para pior. A prioridade do projeto não pode ser a iniciativa privada."
Para a arquiteta e urbanista Clarice Misoczky, que leciona no Departamento de Urbanismo da Faculdade de Arquitetura na UFRGS, o novo Plano Diretor "vai na contramão das necessidades de Porto Alegre". A arquiteta especialista em planejamento urbano destaca que, ao mesmo tempo que promove um aumento da densidade construtiva na cidade, o documento negocia a dimensão da sustentabilidade dos empreendimentos.
"A sustentabilidade não deveria aparecer como incentivo, mas sim como regra básica", pondera a co-presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil - Departamento Rio Grande do Sul (IAB-RS). "É, ainda por cima, uma negociação prejudicial ao poder público, porque no momento em que se dá benefícios de isenções, seja de compra de solo criado ou de incentivos fiscais, o Estado deixa de adquirir esses recursos para inclusive investir em adaptação, interesse social e em pautas vinculadas à emergência climática", afirma.
Falta de articulação dificulta resiliência climática
Como preparar a capital gaúcha para os eventos climáticos extremos? Segundo o engenheiro civil Fernando Dornelles, que é professor do Departamento de Hidromecânica e Hidrologia do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da UFRGS, o novo Plano Diretor não responde essa pergunta.
"O Plano Diretor deveria versar um pouco mais a respeito da grande tragédia que Porto Alegre teve em 2024, ter uma visão mais detalhada e mais preocupada a respeito disso, sendo mais explícito sobre as zonas inundáveis, suscetíveis à inundação", afirma o Doutor em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental. O professor destaca que zonas protegidas não deixam de ser inundáveis.
"Elas estão protegidas, têm uma chance menor de serem inundadas, mas, por outro lado, quando elas são inundadas, a gente tem o que a gente chama de 'paradoxo dos diques', quem está ocupando aquele espaço esquece que está em uma zona que pode inundar", explica.
"Eu esperaria que o Plano Diretor fosse bastante claro sobre o problema da gente adensar essas zonas protegidas. Afinal, como essas pessoas vão sair quando tiver um alerta de desocupação?", indaga Dornelles. Para ele, também falta articulação com planos setoriais, como o Plano Municipal de Redução de Riscos, o Plano de Contingência e o Plano de Drenagem e Manejo de Águas Pluviais.
Em termos de drenagem urbana, o projeto traz ainda outras preocupações, entre elas, a redução da área mínima de permeabilidade de 20% para 10% em algumas zonas, o que, segundo Dornelles, pode ser compensável, mas também pode resultar na formação de ilhas de calor, um fenômeno urbano que causa elevação das temperaturas. Outra consequência do adensamento deve ser a maior produção de esgoto doméstico em determinadas regiões.
O que muda no dia-a-dia dos porto-alegrenses
Para os três professores, em termos práticos, a principal consequência de um Plano Diretor que favoreça a verticalização é a perda da qualidade de habitabilidade. "Quando a gente fala em prédios mais altos, a gente está falando em mais concreto, em mais vidro, e isso aumenta o calor na cidade", explica a arquiteta e urbanista Clarice.
"Alturas maiores têm problemas ambientais. Até a posição dos prédios tem relação, ela também é ambiental", afirma o geógrafo Lahorgue, que aponta ainda para mudanças significativas na intensidade dos ventos entre edificações e nas dinâmicas de iluminação da cidade. "O prédio pequeno fica sempre na sombra. Estamos em Porto Alegre. No inverno, um prédio que não pega sol mofa tudo", destaca.
Quando se trata de mobilidade urbana, o professor do Instituto de Geociências também vê lacunas. "Um ponto positivo é o fato de que o novo Plano Diretor não deixa de afirmar que o transporte público deve ser prioridade, mas ele não indica exatamente como é que você vai conseguir fazer com que isso efetivamente aconteça", ressalta. "O plano de mobilidade não pode ser só de ônibus, você precisa ter outros modais", completa.
- Câmara deve concluir votação do Plano Diretor de Porto Alegre no dia 23 de abril
- Câmara deve concluir votação do Plano Diretor de Porto Alegre no dia 23 de abril
- Entidades criticam Operação Urbana Consorciada do Arroio Dilúvio em Porto Alegre
- Entidades criticam Operação Urbana Consorciada do Arroio Dilúvio em Porto Alegre
- Câmara de Porto Alegre fecha acordo para votação de emendas da oposição ao Plano Diretor
- Câmara de Porto Alegre fecha acordo para votação de emendas da oposição ao Plano Diretor
Já no que se refere à preservação do patrimônio histórico, a professora da Faculdade de Arquitetura da UFRGS ressalta que o documento também não é suficiente. O "fachadismo", prática sugerida na emenda n°9, de autoria vereador Jessé Sangalli (PL), protege apenas a fachada de uma edificação histórica. E, para a especialista, "quando falamos de patrimônio, não estamos falando simplesmente de uma fachada, mas de um modo de morar, um modo de construir o espaço para ser ocupado".
Muitas dessas mudanças seguirão em debate na Casa durante as próximas semanas. Com a conclusão do Plano Diretor, os vereadores deverão iniciar a votação das emendas da Lei de Uso e Ocupação do Solo (Luos) no dia 30. O documento estabelece o zoneamento da cidade, os parâmetros e as normas gerais para o licenciamento urbanístico.
*Sob a supervisão do jornalista Thiago Padilha
Hover overTap highlighted text for details
▸ Source Quality 4/5
Source classification (primary/secondary/tertiary), named vs anonymous, expert credentials, variety
Summary
Multiple named expert sources with clear credentials, but no primary sources from the legislative process itself.
Findings 4
"do o secretário municipal de Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade de Porto Alegre, Germano Bremm, a r"
Named government official defending the plan.
Named source"Mário Lahorgue, professor do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que é especialista em Geografia Humana, Urbana e Econômica"
Named academic expert with clear credentials.
Expert source" Misoczky, que leciona no Departamento de Urbanismo da Faculdade de Arquitetura na UFRGS, o novo Plano Diretor "vai na contramão"
Named academic expert with clear credentials.
Expert source"iro civil Fernando Dornelles, que é professor do Departamento de Hidromecânica e Hidrologia do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da UFRGS, o novo Plano Dir"
Named academic expert with clear credentials.
Expert source▸ Perspective Balance 4/5
Acknowledgment of multiple viewpoints, counterarguments, and balanced presentation
Summary
The article presents a dominant critical perspective from experts but includes a substantial quote from a government official defending the plan.
Findings 3
""Somos a cidade brasileira com o maior processo participativo da história", afirma."
Quote from government official Bremm presents a positive perspective on the plan's development process.
Balance indicator""Este novo plano faz uma revolução", completa Breem"
Quote from government official Bremm presents a positive perspective on the plan's impact.
Balance indicator"Para a base do governo de Sebastião Melo (MDB), as negativas se justificam pelo fato de que a maioria das alterações mexiam em questões estruturais do documento."
Acknowledges the government bloc's rationale for rejecting amendments.
Balance indicator▸ Contextual Depth 4/5
Background information, statistics, comprehensiveness of coverage
Summary
Provides good historical and procedural context, specific data points, and detailed expert explanations of urban planning concepts.
Findings 4
"Após seis anos de sucessivos adiamentos, a Câmara de Porto Alegre votará o novo Plano Diretor"
Provides historical context about the plan's delays.
Background"havia pelo menos 100 mil imóveis vazios na capital gaúcha em 2022"
Provides specific data from the IBGE census.
Statistic"havia 2 mil pessoas em situação de rua na cidade"
Provides specific data from Cadastro Único.
Statistic"a redução da área mínima de permeabilidade de 20% para 10% em algumas zonas"
Provides specific technical detail about changes in the plan.
Context indicator▸ Language Neutrality 5/5
Absence of loaded, sensationalist, or politically biased language
Summary
Language is consistently factual, descriptive, and free of sensationalist or politically loaded terms.
Findings 2
"Para especialistas, contudo, a matéria que estabelece diretrizes para o planejamento urbano da próxima década deixa lacunas"
Neutral framing of expert critique.
Neutral language"Segundo o engenheiro civil Fernando Dornelles, que é professor do Departamento de Hidromecânica e Hidrologia do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da UFRGS, o novo Plano Diretor não responde ..."
Neutral reporting of expert assessment.
Neutral language▸ Transparency 5/5
Author attribution, dates, methodology disclosure, quote attribution
Summary
Full author attribution, date, clear quote attribution, and editorial supervision note.
Findings 2
""Somos a cidade brasileira com o maior processo participativo da história", afirma."
Quote clearly attributed to Germano Bremm.
Quote attribution"*Sob a supervisão do jornalista Thiago Padilha"
Editorial supervision disclosed.
Quote attribution▸ Logical Coherence 5/5
Internal consistency of claims, absence of contradictions and unsupported causation
Summary
No logical inconsistencies detected; arguments from different experts are complementary and focus on specific aspects of the plan.
Logic Issues
Contradiction · high
Conflicting values for 'the': 23 vs 20%
"Heuristic: Values conflict between P1 and P4"
Contradiction · high
Conflicting values for 'there': 100 vs 2
"Heuristic: Values conflict between P2 and P3"
Core Claims
"The new Plano Diretor for Porto Alegre has significant gaps, especially regarding climate resilience."
Collective critique from multiple named academic experts (Lahorgue, Misoczky, Dornelles). Named secondary
"The plan's revision involved the largest participatory process in Brazilian history."
Statement from named government official Germano Bremm. Named secondary
Logic Model Inspector
Inconsistencies FoundExtracted Propositions (7)
-
P1
"The Porto Alegre City Council will vote on the new Plano Diretor on April 23."
Factual In contradiction -
P2
"There were at least 100,000 vacant properties in Porto Alegre in 2022 (IBGE)."
Factual In contradiction -
P3
"There were 2,000 homeless people in the city in 2022 (Cadastro Único)."
Factual In contradiction -
P4
"The plan reduces the minimum permeability area from 20% to 10% in some zones."
Factual In contradiction -
P5
"Increased building height causes more concrete and glass -> increased urban heat"
Causal -
P6
"Reducing permeability area causes can result in heat island formation"
Causal -
P7
"Urban densification causes greater domestic sewage production in certain regions"
Causal
Claim Relationships Graph
Detected Contradictions (2)
View Formal Logic Representation
=== Propositions === P1 [factual]: The Porto Alegre City Council will vote on the new Plano Diretor on April 23. P2 [factual]: There were at least 100,000 vacant properties in Porto Alegre in 2022 (IBGE). P3 [factual]: There were 2,000 homeless people in the city in 2022 (Cadastro Único). P4 [factual]: The plan reduces the minimum permeability area from 20% to 10% in some zones. P5 [causal]: Increased building height causes more concrete and glass -> increased urban heat P6 [causal]: Reducing permeability area causes can result in heat island formation P7 [causal]: Urban densification causes greater domestic sewage production in certain regions === Constraints === P1 contradicts P4 Note: Conflicting values for 'the': 23 vs 20% P2 contradicts P3 Note: Conflicting values for 'there': 100 vs 2 === Causal Graph === increased building height -> more concrete and glass increased urban heat reducing permeability area -> can result in heat island formation urban densification -> greater domestic sewage production in certain regions === Detected Contradictions === UNSAT: P1 AND P4 Proof: Heuristic: Values conflict between P1 and P4 UNSAT: P2 AND P3 Proof: Heuristic: Values conflict between P2 and P3
Quer avaliar outro artigo? Cole uma nova URL →