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Nipah: médicos espalham falsas prevenções em vídeos nas redes • Lupa

agencialupa.org By Evelyn Fagundes 2026-02-13 2389 words
Vídeos de médicos com até três milhões de visualizações no Facebook espalham recomendações sem comprovação científica para prevenção do vírus Nipah, incluindo o uso de ivermectina, vitaminas e água hidrogenada. A Lupa identificou ao menos quatro perfis que se identificam como profissionais de saúde que compartilham essas recomendações, questionam vacinas e distorcem informações sobre formas de prevenção. Em um dos casos, o médico indica um suplemento comercializado pela própria empresa.

O vírus Nipah, identificado pela primeira vez em 1999 na Malásia, voltou ao noticiário após autoridades de saúde da Índia confirmarem dois casos no estado de Bengala Ocidental. Um terceiro foi registrado, no dia 29 de janeiro, em Bangladesh; a paciente morreu dias depois.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a taxa de letalidade pode chegar a 75% e a transmissão ocorre entre humanos e por meio de animais como morcegos e porcos. Embora os registros recentes estejam restritos ao sul da Ásia e a OMS tenha classificado que o risco da doença para a saúde pública global e baixo, a circulação de conteúdos enganosos sobre o vírus se multiplicaram nas redes brasileiras.

Nenhum caso de Nipah foi registrado no Brasil, conforme comunicado do Ministério da Saúde enviado à Lupa. Ainda assim, parte do conteúdo identificado pela Lupa adota tom sensacionalista e distorce informações sobre prevenção. Nos vídeos analisados, médicos defendem o uso da ivermectina – indicado para o tratamento de parasitoses –, como forma de proteção contra o vírus Nipah. "Funciona que é uma maravilha", afirma o médico conhecido como "Doutor Kefir", ao recomendar o medicamento para "fortalecer o corpo" contra a infecção. O vídeo somava, até 13 de fevereiro, 47 mil visualizações. O profissional, cujo nome é Djalma Nunes Marques e possui registro no Conselho Regional de Medicina de Pernambuco, já desinformou sobre as urnas eletrônicas e foi checado pela Lupa em 2022.

Recomendação semelhante é feita por Davi Rodrigues, registrado no Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal. "Vamos tomar uma dose por mês. Caso pegue algum tipo de gripe, tome outra na hora dos sintomas. Não vai resolver todos os problemas, mas vai ajudar a diminuir a proliferação viral", afirma o médico em publicação nas redes.

No vídeo, que possui mais de 1,2 milhão de visualizações, Rodrigues afirma ainda que "a ivermectina bloqueia certos receptores onde o vírus entra na célula". Questionado pela Lupa sobre a recomendação, ele respondeu, por e-mail, que "não é pro vírus, é pro corpo. Quem nos defende são nossas células!".

Especialistas ouvidos pela Lupa, afirmam que não há evidências de que a ivermectina bloqueie receptores de entrada viral. "Existem estudos in vitro que demonstram que a ivermectina interage com proteínas virais e celulares, mas essas interações não são suficientes para bloquear a entrada dos vírus nas células", explica a médica infectologista Lilian Avilla, da Beneficência Portuguesa de São Paulo, sobre análises feitas fora do organismo de um ser vivo. Segundo ela, as pesquisas disponíveis atualmente avaliaram a atividade da ivermectina contra SARS-Cov-2, dengue e HIV, mas nenhum estudo clínico até o momento demonstrou benefício antiviral em humanos.

O direito de exercer a medicina de Davi Rodrigues foi suspenso pelo CRM-DF entre 13 de janeiro e 11 de fevereiro. Segundo a decisão, a apuração envolve suposta infração às normas que regulam a publicidade médica, com indícios de autopromoção irregular e divulgação de conteúdo sensacionalista. O processo menciona os artigos 102 e 113 do Código de Ética Médica (Resolução CFM nº 2.217/2018). O artigo 102 proíbe a divulgação de informações médicas de forma sensacionalista, promocional ou sem respaldo científico. Já o artigo 113 veda o anúncio de títulos ou especialidades que não possam ser comprovados.

Outro médico, Bruno Landim, registrado no CRM do Rio de Janeiro, diz que não abriria mão da "nossa querida ivermectina" para fortalecer o sistema imunológico e atribui ao fármaco propriedades "virucida, bactericida e fungicida". O post somava mais de 2 mil visualizações.

O Ministério da Saúde informou em nota que não há evidências científicas de que o uso de ivermectina ou de suplementos vitamínicos reduza o risco de infecção pelo vírus Nipah. Também em nota, a OMS e a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) reforçaram que, até o momento, não existem vacinas licenciadas nem medicamentos específicos aprovados para prevenir ou tratar a infecção pelo vírus Nipah.

"A OPAS e a OMS não recomendam uso de ivermectina como prevenção contra o vírus Nipah. A automedicação pode causar eventos adversos e atrasar a busca por avaliação adequada", afirmam as entidades.

A infectologista Raquel Stucchi, diretora da Sociedade Paulista de Infectologia (SPI), por sua vez, também destaca que não há evidências de eficácia da ivermectina contra o vírus e alerta para o risco do uso do medicamento sem acompanhamento médico.

"A ivermectina não tem nenhuma ação contra a Covid nem contra o vírus Nipah e não deve ser utilizada para este fim. Nós sabemos de quadros graves, inclusive de hepatite grave, com indicação de transplante, pelo uso inadvertido da ivermectina".

"A ivermectina não tem nenhuma ação contra a Covid nem contra o vírus Nipah e não deve ser utilizada para este fim. Nós sabemos de quadros graves, inclusive de hepatite grave, com indicação de transplante, pelo uso inadvertido da ivermectina".

— Raquel Stucchi, infectologista e diretora da Sociedade Paulista de Infectologia (SPI)

Vale lembrar que a ivermectina ganhou notoriedade durante a pandemia de Covid-19, quando foi promovida sem evidências científicas. Também já foi indicada, sem comprovação, como suposto tratamento para câncer e dengue.

Suplementos e nutrientes não reduzem risco de infecção por Nipah

Em vídeo com mais de 3,6 milhões de visualizações no Instagram, o médico Juan Lambert (CRM-SP) afirma que, diante da ausência de tratamento específico ou vacina, a prevenção dependeria de "aumentar a imunidade" com sono adequado e suplementação. Na legenda do post, recomenda doses de zinco, magnésio e vitamina D3 e cita a marca de suplementos alimentícios Zelavita. Em seu perfil, Lambert se apresenta como embaixador da empresa, ou seja, um representante nas mídias.

A alegação é enganosa. "Não existe tratamento específico, medicamentos preventivos – seja com ivermectina ou uso de vitaminas para 'melhorar a imunidade' – ou vacina para esse vírus. O tratamento se baseia em cuidados de suporte ao paciente, além da adoção de medidas de isolamento para evitar surtos", afirma a infectologista Cristina Giovannetti Anjos, do Hospital São Marcelino Champagnat, em Curitiba.

A mesma "solução" aparece em conteúdo publicado no perfil do médico Davi Rodrigues, que sugere suplementação variada e o consumo de "água hidrogenada", produto comercializado como antioxidante. Em 2024, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu a venda de alguns desses itens por irregularidades, como o uso de ingredientes não autorizados e publicidade com fins terapêuticos sem comprovação científica.

A infectologista Raquel Stucchi, afirma que o consumo de vitamina C, vitamina D, cúrcuma, própolis, acetilcisteína ou água hidrogenada não têm ação comprovada para combater o vírus nem impedem formas graves da doença". A nutricionista Gabriela Esteves, da Clínica Ginelife, acrescenta que a suplementação deve ser individualizada e precedida de avaliação clínica e exames bioquímicos para verificar doenças pré-existentes e possíveis condições de saúde que interfiram na absorção ou comportamento da substância no corpo. Segundo ela, o consumo indiscriminado pode trazer riscos.

"O excesso da vitamina A, D, E e K, por exemplo, podem gerar problemas de coagulação e prejudicar o nosso fígado. O excesso de vitamina C pode aumentar o risco de pedras nos rins. Então, não é interessante fazer o uso de nenhum suplemento sem acompanhamento nutricional ou médico", alertou Esteves.

O conteúdo publicado pelo Doutor Kefir traz recomendações semelhantes. No vídeo, o médico associa a prevenção a suplementação e indica um complexo vitamínico – chamado "Kfir real" – produzido por uma empresa fundada por ele. Em 2022, a Anvisa proibiu a comercialização de produtos de nome semelhante por descumprimento de regras sobre publicidade de suplementos, após a divulgação de alegações terapêuticas não comprovadas.

Vale ressaltar que a OPAS/OMS informaram em nota que não recomendam o uso de vitaminas como estratégia específica de prevenção contra o Nipah. "Vitaminas são importantes para a saúde quando há deficiência nutricional, mas 'megadoses' podem trazer riscos e não substituem medidas efetivas de prevenção, como reduzir a exposição a potenciais fontes de contaminação e adotar práticas seguras de higiene e de manejo de alimentos", complementam.

O médico também sugere que pessoas vacinadas contra a Covid-19 seriam mais suscetíveis ao Nipah. "Se seu sistema imunológico está debilitado [pela proteína Spike], é claro que você vai ficar muito suscetível [a doenças]", afirma no vídeo. O vírus, porém, não é uma "gripe". Diferentemente da influenza ou do SARS-CoV-2, não apresenta alta transmissibilidade por gotículas e aerossóis. Pode causar infecções respiratórias, mas afeta principalmente o sistema nervoso central, está associado a quadros de encefalite (inflamação no cérebro), com elevada taxa de letalidade.

No vídeo, Doutor Kefir não menciona explicitamente a palavra "vacina". A omissão pode ser uma tática para driblar a detecção automática por sistemas de moderação das plataformas, que são alertadas para redobrar a atenção sobre conteúdos desse tipo e, em casos necessários, adicionar notas informativas sobre a imunização. Ainda assim, o profissional de saúde faz referência indireta ao tema ao mencionar "algo" e exibir uma seringa, em alusão às vacinas.

Médico aponta vacina como risco

"Essa gripe vai pegar muita gente e talvez derrube muita gente", diz o médico Doutor Kefir em vídeo com 47 mil visualizações. Mas atribui o suposto risco não à gravidade do vírus, e sim ao fato de que pessoas teriam sido inoculadas com "algo" que teria reduzido sua imunidade, em referência indireta às vacinas.

"Se você não tomou 'algo', você não se preocupa tanto […] Agora, se você já se injetou, o cuidado tem que ser dobrado. Você precisa, urgentemente, procurar um médico que ajude a limpar essas bichinhas que estão no seu corpo, chamadas proteínas Spike", complementa. Segundo ele, a proteína estaria associada a problemas cardíacos.

>> Confira aqui o que a Lupa já checou sobre a proteina Spike.

Embora não mencione explicitamente qual a vacina estaria em questão, ao citar a "proteína Spike", o médico faz referência à proteína presente na parte externa do Sars-CoV-2. Essa proteína também é utilizada nas vacinas como forma de estimular a resposta imunológica. Trata-se, portanto, de um componente que o organismo pode reconhecer tanto por meio da vacinação quanto por infecção natural.

Também não há evidências de que a proteína Spike — seja produzida após a vacinação ou durante a infecção — provoque agravamento de doenças cardíacas. Em entrevista à Lupa, em 2023, o infectologista Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), afirmou que a quantidade de proteínas que compõem os imunizantes é infinitamente inferior se comparada à do vírus natural. Segundo ele, a proteína em questão não oferece danos ao corpo humano e nem se mantém no organismo por muito tempo.

A OMS declarou que é falsa a alegação de que vacinas contra a Covid-19 aumentariam o risco de infecção pelo Nipah. Reforçaram que as vacinas contra a Covid-19 reduzem significativamente o risco de formas graves, hospitalizações e óbitos, e não aumentam a suscetibilidade a outros vírus, incluindo o Nipah". O Ministério da Saúde também reforçou que não há evidência de que pessoas vacinadas contra a Covid-19 apresentam quadros mais graves da doença.

Para Stucchi, o retorno dessa desinformação não passa de uma estratégia para replicar a sensação de pânico. "Houve tentativas de alguns grupos de inventarem uma doença nova atribuída à vacina contra Covid-19, mas isso não passou de especulação e de uma notícia falsa, sem fundamentação e sem comprovação científica", afirma.

Nipah e as velhas promessas milagrosas

Doenças virais costumam impulsionar a circulação de conteúdos enganosos que prometem prevenções, tratamentos ou curas sem respaldo científico. A ivermectina, por exemplo, tornou-se um dos principais símbolos desse fenômeno desde a pandemia de Covid-19 e segue sendo associada, sem evidências, a diferentes doenças – da dengue e da gripe ao vírus Nipah.

Em outros contextos, a Lupa já identificou e desmentiu narrativas semelhantes. Durante a Covid-19, circularam conteúdos sobre "chás milagrosos" e supostos tratamentos alternativos, além de alegações falsas sobre vacinas. A recorrência desse padrão revela como surtos e doenças de alta repercussão tendem a ser acompanhados por soluções simplificadas e mensagens alarmistas, muitas vezes impulsionadas pelo apelo emocional e pela promessa de controle individual diante de cenários incertos.

Outro lado

Quem fiscaliza o exercício da medicina e zela pelo cumprimento ético da profissão é o Conselho Federal de Medicina (CFM), juntamente com os Conselhos Regionais de Medicina (CRMs), conforme estabelece a Lei nº 3.268/1957.

De acordo com o Código de Ética Médica do CFM, é vedado ao médico o ato de "divulgar informação sobre assunto médico de forma sensacionalista, promocional ou de conteúdo inverídico". Também não é permitida a prescrição "por qualquer meio de comunicação de massa". Caso o CFM ou o CRM entendam que o médico violou algum artigo do Código, podem ser aplicadas penalidades, que vão desde a suspensão temporária do direito de exercer a profissão até a cassação do registro profissional.

A Lupa procurou o Conselho Federal de Medicina (CFM) para obter esclarecimentos sobre possíveis responsabilizações no caso de compartilhamento de conteúdos desinformativos. Até a publicação desta reportagem, porém, não houve resposta.

Também procuramos todos os médicos citados, e apenas Davi Rodrigues se manifestou. A resposta do profissional foi incluída no texto.

A Meta foi contatada para se posicionar sobre os conteúdos desinformativos hospedados nas plataformas do Instagram e Facebook. Em sua política sobre desinformação, a empresa afirma que consulta as principais "organizações de saúde para identificar e remover desinformação que representa risco imediato à saúde pública, incluindo falsas alegações sobre vacinas, imunidade e tratamentos milagrosos prejudiciais". Também destacam que removem conteúdos enganosos durante emergências de saúde pública, quando informações falsas podem aumentar a chance de doenças, ferimentos graves ou recusas a vacinas.

Em nota enviada à Lupa, a big tech afirmou que, com base em suas políticas, não permite a desinformação prejudicial sobre saúde. A empresa explicou ainda que conteúdos potencialmente desinformativos são classificados por verificadores independentes. "Trabalhamos com uma rede global de verificadores de fatos independentes, incluindo parceiros no Brasil, para revisar e classificar informações potencialmente falsas ou enganosas, o que pode incluir desinformação sobre saúde", disse.

"Quando os verificadores de fatos classificam um conteúdo como falso, reduzimos sua distribuição e aplicamos rótulos para informar as pessoas antes de compartilharem", acrescentou a Meta.

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Editado por Luiz Henrique Gomes, Yara Amorim e Evelin Mendes

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