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Uma das protagonistas de Crianças no Fogo, de Evgeny Afineevsky Crédito: Divulgação
Outros destaques do 31º É Tudo Verdade
Crianças no Fogo, Meu Pai e Gaddafi e Desfecho
Além dos filmes do 31º Festival É Tudo Verdade comentados na coluna de 8 de abril (Fordlândia Panacea, Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas e Sem título # 11: Um Analecto à Mula), tive oportunidade de assistir a outros três: Crianças no Fogo, de Evgeny Afineevsky, Meu Pai e Gaddafi, de Jihan (Jihan Kikhia) e Desfecho, de Michał Marczak. Amostra pequena, sem dúvida, mas suficiente para atestar a excelência da seleção de 75 documentários de 25 países exibida no festival e dar uma ideia da importância do evento.
Crianças no Fogo, incluído na mostra O Estado das coisas, demonstra de forma cabal que nem sempre o documentário é um réquiem, como se costuma dizer – ou seja, uma celebração póstuma. Os oito jovens protagonistas do filme, traumatizados e mutilados, estão entre os milhares de mortos e feridos na guerra iniciada com a invasão russa da Ucrânia, em 2022. A atualidade do tema e o tratamento documental se sobrepõem, no caso, a considerações de ordem formal, como, em especial, a tentativa precária de ilustrar a narrativa como se fosse um diário e as simplórias ilustrações animadas das encenações.
Em uma declaração à televisão, incluída em Crianças no Fogo, o presidente russo, Vladimir Putin, diz que "guerras não são ganhas por generais, mas por professores e padres", afirmação que está na origem da decisão de deportar e "reeducar" crianças ucranianas para que se tornem pró-Rússia. As legendas de encerramento do filme informam que, de fevereiro de 2022 a outubro de 2024, "19.546 crianças foram deportadas ou deslocadas à força e milhares de crianças continuam desaparecidas, foram feridas ou mortas. Os números não oficiais são muito mais altos e continuam a crescer enquanto a guerra na Ucrânia prossegue."
O que Crianças no Fogo ressalta sobretudo é um senso de dever genuíno: "Eu vejo a minha missão. Um dia, minha voz será ouvida e as pessoas saberão o que crianças como eu passaram", diz uma das personagens ao encerrar o prólogo. O impacto dos fatos relatados é tamanho que confesso ter sentido dificuldade de assistir ao filme até o fim.
Meu Pai e Gaddafi, por sua vez, foi exibido fora de competição no Festival de Veneza, em 2025, e participou da mostra internacional competitiva do É Tudo Verdade. A diretora, Jihan, filha de Mansur Rashid Kikhia, tinha 6 anos em 1993, quando seu pai, na época embaixador da Líbia junto às Nações Unidas, desapareceu no Cairo.
O filme recorre a um vasto acervo de registros familiares em vídeo e reportagens para televisão, além de gravações de entrevistas e narração feitas pela própria Jihan, com o objetivo de contar o período da história da Líbia em que seu pai viveu e descobrir o que aconteceu com ele, propósito iniciado antes por sua mãe, Baha Al Omary. Foi preciso esperar dezenove anos, até a queda do regime liderado pelo coronel Muammar el-Gaddafi, para o corpo do pai de Jihan ser encontrado em um freezer perto do palácio do ditador líbio.
Em declaração publicada no site do filme, Jihan diz que, para ela, o documentário é "uma das maneiras pelas quais espera manter viva a memória do pai antes que ele desapareça completamente da sua memória e até mesmo, potencialmente, da memória da Líbia". Diz ainda não querer que seu pai "desapareça uma segunda vez. Sinto uma urgência em superar meu vazio em meio ao caos e à instabilidade implacáveis da Líbia, que temo que acabem por enterrar minha identidade líbia […] No meu documentário, Meu Pai e Gaddafi, vasculho as memórias de outras pessoas tentando criar uma imagem mais nítida do meu pai, de quem não me lembro."
Meu Pai e Gaddafi realça o mérito de documentários narrados na primeira pessoa por serem filmes únicos que ninguém, a não ser quem os dirige, é capaz de fazer, enquanto a maioria do que se produz poderia ser feita por inúmeros diretores.
A busca por um filho adolescente, desaparecido em 2023, aproxima Desfecho, também participante da mostra internacional competitiva do É Tudo Verdade, de Meu Pai e Gaddafi, embora as circunstâncias dos dois sumiços sejam bem diferentes. No documentário de Marczak, que além de dirigido é escrito e fotografado por ele, a causa do desaparecimento de Krzysztof é sugerida, mas fica no ar. Pode ter sido suicídio ou, quem sabe, um acidente, enquanto no caso de Jihan foi comprovado ter havido um sequestro e assassinato com motivação política. No final de Desfecho, uma legenda diz que "só na Europa e nos Estados Unidos, mais de meio milhão de jovens são dados como desaparecidos a cada ano. O suicídio é uma das principais causas de morte entre jovens em todo o mundo."
A beleza marcante da fotografia e a precisão dos enquadramentos, além do uso de drone, conferem a Desfecho a aparência de um filme encenado. Criam certa incongruência entre o requinte visual e a angústia contida de Daniel Dymiński na busca incansável pelo corpo de seu filho na água e nas margens do Vistula, rio definido por Marczak, em entrevista ao site IndieWire, como "o antagonista do filme". Causa estranheza, além disso, em se tratando de um documentário, os personagens ignorarem estarem diante da câmera e não a encararem, mesmo em situações em que Daniel está sozinho, lado a lado com Marczak em um pequeno barco – atitude predominante ao longo do filme, com apenas uma exceção, salvo engano, perto do final. Pelo mesmo motivo, resulta desconcertante os personagens dizerem em voz alta o que estão pensando.
Não foi à toa que na estreia de Desfecho no Festival de Sundance, em janeiro deste ano, ao responder a uma pergunta da plateia, Marczak foi levado a esclarecer que "nenhuma das sequências foi encenada". Na saída da sessão, segundo a reportagem da IndieWire, uma espectadora comentou: "Graças a Deus ele disse alguma coisa, eu teria jurado que aquela abertura era o começo de um filme de ficção."
A ressalva a se fazer é que a barreira da língua, para quem não entende polonês, talvez seja, ao menos em parte, responsável pela estranheza e o desconcerto. Mas vale lembrar que, segundo a mesma reportagem do IndieWire, "Marczak gosta de citar seu herói cinemático e também polonês, o falecido Krzysztof Kieślowski: 'Filmes de ficção devem parecer documentários, e documentários devem parecer filmes de ficção'."
Marczak diz ainda, na entrevista, que "afinal de contas, [Desfecho] é um documentário. Quero que seja o mais cinematográfico possível, mas também há certas coisas no documentário que eu adoro e que não existem na ficção. Acho lindo poder utilizar todas as ferramentas que o cinema tem a oferecer, tanto a ficção quanto o documentário."
*
Eu havia terminado de escrever esta coluna quando a premiação do Festival É Tudo Verdade foi divulgada. Entre os filmes comentados aqui, na coluna passada e nesta, Meu Pai e Gaddafi, de Jihan, recebeu menção honrosa.
Os dois prêmios de Melhor Filme do É Tudo Verdade foram atribuídos a Um Filme de Medo, de Sergio Oksman, na Competição Internacional de Longas ou Médias-Metragens, e Sagrado, de Alice Riff, na Competição Brasileira de Longas ou Médias-Metragens. Ainda não pude assistí-los.
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Outros destaques do 31º É Tudo Verdade
Crianças no Fogo, Meu Pai e Gaddafi e Desfecho
Além dos filmes do 31º Festival É Tudo Verdade comentados na coluna de 8 de abril (Fordlândia Panacea, Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas e Sem título # 11: Um Analecto à Mula), tive oportunidade de assistir a outros três: Crianças no Fogo, de Evgeny Afineevsky, Meu Pai e Gaddafi, de Jihan (Jihan Kikhia) e Desfecho, de Michał Marczak. Amostra pequena, sem dúvida, mas suficiente para atestar a excelência da seleção de 75 documentários de 25 países exibida no festival e dar uma ideia da importância do evento.
Crianças no Fogo, incluído na mostra O Estado das coisas, demonstra de forma cabal que nem sempre o documentário é um réquiem, como se costuma dizer – ou seja, uma celebração póstuma. Os oito jovens protagonistas do filme, traumatizados e mutilados, estão entre os milhares de mortos e feridos na guerra iniciada com a invasão russa da Ucrânia, em 2022. A atualidade do tema e o tratamento documental se sobrepõem, no caso, a considerações de ordem formal, como, em especial, a tentativa precária de ilustrar a narrativa como se fosse um diário e as simplórias ilustrações animadas das encenações.
Em uma declaração à televisão, incluída em Crianças no Fogo, o presidente russo, Vladimir Putin, diz que "guerras não são ganhas por generais, mas por professores e padres", afirmação que está na origem da decisão de deportar e "reeducar" crianças ucranianas para que se tornem pró-Rússia. As legendas de encerramento do filme informam que, de fevereiro de 2022 a outubro de 2024, "19.546 crianças foram deportadas ou deslocadas à força e milhares de crianças continuam desaparecidas, foram feridas ou mortas. Os números não oficiais são muito mais altos e continuam a crescer enquanto a guerra na Ucrânia prossegue."
O que Crianças no Fogo ressalta sobretudo é um senso de dever genuíno: "Eu vejo a minha missão. Um dia, minha voz será ouvida e as pessoas saberão o que crianças como eu passaram", diz uma das personagens ao encerrar o prólogo. O impacto dos fatos relatados é tamanho que confesso ter sentido dificuldade de assistir ao filme até o fim.
Meu Pai e Gaddafi, por sua vez, foi exibido fora de competição no Festival de Veneza, em 2025, e participou da mostra internacional competitiva do É Tudo Verdade. A diretora, Jihan, filha de Mansur Rashid Kikhia, tinha 6 anos em 1993, quando seu pai, na época embaixador da Líbia junto às Nações Unidas, desapareceu no Cairo.
O filme recorre a um vasto acervo de registros familiares em vídeo e reportagens para televisão, além de gravações de entrevistas e narração feitas pela própria Jihan, com o objetivo de contar o período da história da Líbia em que seu pai viveu e descobrir o que aconteceu com ele, propósito iniciado antes por sua mãe, Baha Al Omary. Foi preciso esperar dezenove anos, até a queda do regime liderado pelo coronel Muammar el-Gaddafi, para o corpo do pai de Jihan ser encontrado em um freezer perto do palácio do ditador líbio.
Em declaração publicada no site do filme, Jihan diz que, para ela, o documentário é "uma das maneiras pelas quais espera manter viva a memória do pai antes que ele desapareça completamente da sua memória e até mesmo, potencialmente, da memória da Líbia". Diz ainda não querer que seu pai "desapareça uma segunda vez. Sinto uma urgência em superar meu vazio em meio ao caos e à instabilidade implacáveis da Líbia, que temo que acabem por enterrar minha identidade líbia […] No meu documentário, Meu Pai e Gaddafi, vasculho as memórias de outras pessoas tentando criar uma imagem mais nítida do meu pai, de quem não me lembro."
Meu Pai e Gaddafi realça o mérito de documentários narrados na primeira pessoa por serem filmes únicos que ninguém, a não ser quem os dirige, é capaz de fazer, enquanto a maioria do que se produz poderia ser feita por inúmeros diretores.
A busca por um filho adolescente, desaparecido em 2023, aproxima Desfecho, também participante da mostra internacional competitiva do É Tudo Verdade, de Meu Pai e Gaddafi, embora as circunstâncias dos dois sumiços sejam bem diferentes. No documentário de Marczak, que além de dirigido é escrito e fotografado por ele, a causa do desaparecimento de Krzysztof é sugerida, mas fica no ar. Pode ter sido suicídio ou, quem sabe, um acidente, enquanto no caso de Jihan foi comprovado ter havido um sequestro e assassinato com motivação política. No final de Desfecho, uma legenda diz que "só na Europa e nos Estados Unidos, mais de meio milhão de jovens são dados como desaparecidos a cada ano. O suicídio é uma das principais causas de morte entre jovens em todo o mundo."
A beleza marcante da fotografia e a precisão dos enquadramentos, além do uso de drone, conferem a Desfecho a aparência de um filme encenado. Criam certa incongruência entre o requinte visual e a angústia contida de Daniel Dymiński na busca incansável pelo corpo de seu filho na água e nas margens do Vistula, rio definido por Marczak, em entrevista ao site IndieWire, como "o antagonista do filme". Causa estranheza, além disso, em se tratando de um documentário, os personagens ignorarem estarem diante da câmera e não a encararem, mesmo em situações em que Daniel está sozinho, lado a lado com Marczak em um pequeno barco – atitude predominante ao longo do filme, com apenas uma exceção, salvo engano, perto do final. Pelo mesmo motivo, resulta desconcertante os personagens dizerem em voz alta o que estão pensando.
Não foi à toa que na estreia de Desfecho no Festival de Sundance, em janeiro deste ano, ao responder a uma pergunta da plateia, Marczak foi levado a esclarecer que "nenhuma das sequências foi encenada". Na saída da sessão, segundo a reportagem da IndieWire, uma espectadora comentou: "Graças a Deus ele disse alguma coisa, eu teria jurado que aquela abertura era o começo de um filme de ficção."
A ressalva a se fazer é que a barreira da língua, para quem não entende polonês, talvez seja, ao menos em parte, responsável pela estranheza e o desconcerto. Mas vale lembrar que, segundo a mesma reportagem do IndieWire, "Marczak gosta de citar seu herói cinemático e também polonês, o falecido Krzysztof Kieślowski: 'Filmes de ficção devem parecer documentários, e documentários devem parecer filmes de ficção'."
Marczak diz ainda, na entrevista, que "afinal de contas, [Desfecho] é um documentário. Quero que seja o mais cinematográfico possível, mas também há certas coisas no documentário que eu adoro e que não existem na ficção. Acho lindo poder utilizar todas as ferramentas que o cinema tem a oferecer, tanto a ficção quanto o documentário."
*
Eu havia terminado de escrever esta coluna quando a premiação do Festival É Tudo Verdade foi divulgada. Entre os filmes comentados aqui, na coluna passada e nesta, Meu Pai e Gaddafi, de Jihan, recebeu menção honrosa.
Os dois prêmios de Melhor Filme do É Tudo Verdade foram atribuídos a Um Filme de Medo, de Sergio Oksman, na Competição Internacional de Longas ou Médias-Metragens, e Sagrado, de Alice Riff, na Competição Brasileira de Longas ou Médias-Metragens. Ainda não pude assistí-los.
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▸ Source Quality 3/5
3/5
Score
Source classification (primary/secondary/tertiary), named vs anonymous, expert credentials, variety
Summary
LLM analysis unavailable
▸ Perspective Balance 3/5
3/5
Score
Acknowledgment of multiple viewpoints, counterarguments, and balanced presentation
Summary
LLM analysis unavailable
▸ Contextual Depth 3/5
3/5
Score
Background information, statistics, comprehensiveness of coverage
Summary
LLM analysis unavailable
▸ Language Neutrality 3/5
3/5
Score
Absence of loaded, sensationalist, or politically biased language
Summary
LLM analysis unavailable
▸ Transparency 3/5
3/5
Score
Author attribution, dates, methodology disclosure, quote attribution
Summary
LLM analysis unavailable
▸ Logical Coherence 3/5
3/5
Score
Internal consistency of claims, absence of contradictions and unsupported causation
Summary
LLM analysis unavailable
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