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Opinião - Bianca Santana: Colonialismo no intervalo do Super Bowl

www1.folha.uol.com.br By Bianca Santana 2026-02-15 546 words
Há pouco mais de um ano, ministro a disciplina "Comunicação decolonial: teorias e práticas" em cursos de graduação da Faap. Em geral, estudantes chegam curiosos, mas é ao longo do semestre que o interesse pelos debates sobre dominação e resistência vai sendo construído.

Em 8 de fevereiro, o show de Bad Bunny no Super Bowl foi um importante "turning point", como se diz em inglês. Talvez tenhamos visto uma faísca no despertar de uma geração para a força da cultura na resistência ao colonialismo.

O show no intervalo da decisão da principal liga de futebol americano tem, anualmente, a maior audiência da televisão dos Estados Unidos. Justamente agora, em tempos de perseguição intensa a imigrantes por lá, a apresentação foi quase todo em espanhol, repleto de símbolos latinos.

Também na minha sala de aula, assim como na mesa do jantar com meus três adolescentes, foi um disparador importante.

Na aula seguinte ao show, a segunda do curso, logo depois de eu apresentar a proposta do programa, encontrei duas turmas, manhã e noite, com fome de debate. Explicavam uns aos outros como política, economia e cultura se entrelaçam para hierarquizar pessoas e territórios, como a produção de estereótipos que circulam como entretenimento sustenta a opressão.

Celebravam a coragem de um músico porto-riquenho, quase da idade deles, ao transformar palco em disputa de sentido.

A resistência, tão pouco eficiente aos olhos de jovens que cresceram no neoliberalismo, de repente brilhou como possibilidade de tomada de consciência e organização coletiva. Entenderam o valor da fresta, da fissura.

Muitos desses alunos estudaram em escolas que estimulam a competição e romantizam a meritocracia e a responsabilização individual. Aprenderam também em casa que mobilização coletiva é atraso. Foram incentivados a fazer escolhas que gerem bons currículos ou possibilidades empreendedoras de lucro, não para imaginar soluções coletivas para os problemas do mundo.

Mas quando uma performance pop no coração do Império explicita o colonialismo, em uma linguagem acessível e convidativa, algo acontece.

É preciso lembrar que, ao final do século 19, depois das guerras de independência, o império espanhol mantinha Porto Rico e Cuba como colônias na América Latina. Em 1898, os Estados Unidos venceram a guerra hispano-americana, expulsaram os espanhóis dos últimos territórios que dominavam no continente, e colonizaram, eles mesmos, Porto Rico, Cuba e também as Filipinas. Em 1952, Porto Rico se tornou Estado Livre Associado, com autonomia administrativa interna.

A ONU não considera Porto Rico uma colônia, apesar de seu Comitê Especial sobre Descolonização classificá-lo como um caso de "situação colonial".

Como bem explicou a repórter Manuela Mourão nesta Folha: "Na prática, porém, é um território não incorporado dos EUA. Seus habitantes são cidadãos americanos, mas não podem votar nas eleições presidenciais, não têm representação com direito a voto no Congresso, não têm acesso pleno a benefícios federais e não participam de decisões centrais sobre economia. Porto Rico segue sendo, no século 21, uma colônia sob outro nome."

Ler esta contextualização crítica no jornal e debater o colonial e o decolonial com tanta animação em uma sala de aula predominantemente jovem nutrem minha certeza de que o futuro segue em disputa. Repetimos que "eles venceram, e o sinal está fechado pra nós". Mas, quando jovens vibram com a crítica ao colonialismo, o sinal não parece fechado. Ainda que por frestas.

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