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Henrique Morrone: O Chef Brasileiro e o Rito da Rigidez Técnica

jornalggn.com.br By Henrique Morrone 2026-02-15 390 words
O Chef Brasileiro e o Rito da Rigidez Técnica

por Henrique Morrone

O autêntico chef brasileiro possui um conhecimento econômico que escapa aos manuais ortodoxos: ele compreende a complementaridade produtiva. Sabe, por experiência de bancada, que os ingredientes devem ser combinados em proporções fixas para garantir a plenitude do sabor e a consistência da receita. É a primazia das relações técnicas sobre a abstração matemática.

Infelizmente, essa sabedoria artesanal é ignorada pelos economistas neoclássicos. Eles insistem na fantasia de uma isoquanta bem-comportada, onde existiria uma infinidade de combinações entre farinha e ovos para produzir o mesmo bolo. Para o teórico de gabinete, se o preço dos ovos sobe, basta substituí-los por mais farinha até que o bolo se torne um deserto de pó — ou uma impossibilidade física. É a ingenuidade em estado puro, travestida de elegância geométrica, que ignora a função de produção de proporções fixas de Leontief.

Ademais, o chef entende a sinergia. O sabor final da receita é qualitativamente maior do que a simples soma aritmética dos ingredientes. Trata-se de um sistema complexo, onde o todo emerge das interações, e não apenas da agregação. Apenas os devotos mais fervorosos dos modelos DSGE (Dynamic Stochastic General Equilibrium) acreditam que o comportamento da economia pode ser reduzido à soma das partes, como se a dinâmica de uma nação fosse o resultado de um "indivíduo representativo" cozinhando sozinho em uma cozinha em vácuo.

Por fim, o chef sabe que gostos e preferências não caem do céu: são moldados pela cultura, pela técnica e pelo tempo. Enquanto o nosso arquétipo neoclássico se apega ao dogma das preferências dadas e imutáveis — o único parâmetro intransmutável que garante a consistência do seu castelo de cartas — a realidade mostra que o mercado é um processo de transformação contínua de desejos e padrões de consumo.

Em suma, o economista neoclássico, isolado em sua torre de equações, revela-se incapaz de assar um bolo — quiçá de compreender a complexidade de uma economia real em movimento.

Henrique Morrone é economista e professor associado da UFRGS.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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