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Bad Bunny: resistência latina na disputa do soft power americano - Jornal GGN

jornalggn.com.br By Icaro Brum 2026-02-07 935 words
No domingo, 8 de fevereiro de 2026, Bad Bunny comandará o show do intervalo do Super Bowl, na Califórnia, diante de mais de 100 milhões de espectadores. Será a primeira vez que um artista latino se apresenta sozinho no intervalo do maior evento televisivo dos Estados Unidos, um palco que, historicamente, consagra artistas e projeta imagens do país para o mundo todo.

Bad Bunny hoje ocupa alguns dos palcos mais relevantes da cultura pop nos Estados Unidos e usa esses espaços para confrontar a perseguição a imigrantes, especialmente latinos. Ao vencer o Grammy em 2026, ele transformou o discurso em protesto direto contra a política migratória do governo Donald Trump, atacando o aparato de deportações do ICE e denunciando a criminalização de imigrantes.

Não foi um gesto isolado: é a continuidade de uma trajetória marcada por músicas e pronunciamentos críticos, em que um artista nascido em Porto Rico fala abertamente sobre violência, colonialismo e direitos de quem cruza fronteiras. Esse protagonismo ganha peso quando se lembra que Bad Bunny é um latino se projetando num país que vem endurecendo a perseguição a imigrantes, muitos deles latinos, enquanto consolida um aparato cultural capaz de moldar imaginários no mundo todo.

SNL, comédia e fábrica de celebridades

Bad Bunny já foi convidado não só a cantar, mas a comandar um dos principais programas de humor da TV americana, o Saturday Night Live, em episódio em que foi ao mesmo tempo anfitrião e atração musical, cercado de participações de estrelas como Mick Jagger e Lady Gaga. O SNL é, há décadas, uma fábrica de carreiras: boa parte dos grandes nomes da comédia de cinema e TV nos Estados Unidos ganhou projeção ali ou orbitando o programa, que hoje funciona como vitrine central de tendências políticas, humorísticas e de celebridades. Em um cenário de disputa ideológica intensa, estar no SNL significa entrar no centro da conversa pública americana e falar diretamente com milhões de espectadores.

WWE, arenas lotadas e soft power

Há, porém, um palco ocupado por Bad Bunny que passa quase despercebido no Brasil: a WWE. A empresa de luta livre de entretenimento, em que os combates são roteirizados, com personagens fixos e histórias contínuas, leva semanalmente dezenas de milhares de pessoas a arenas de futebol americano e ginásios, além de manter uma base enorme de fãs na TV, no streaming e no YouTube. Em termos de presença cultural, a WWE está entre os produtos de entretenimento mais vistos do país, abaixo do futebol americano da NFL, mas à frente de muitos outros esportes em engajamento e alcance digital. Foi ali que começaram trajetórias de nomes como Dwayne "The Rock" Johnson, Dave Bautista e John Cena, que saíram do ringue para o centro da indústria cinematográfica de Hollywood.

Vince McMahon e o manual dos estereótipos

O peso político desse universo fica ainda mais claro no documentário da Netflix sobre Vince McMahon, fundador e cérebro da WWE. Ao reconstruir a história da empresa, o filme mostra como, ao longo de décadas, personagens "estrangeiros" foram criados como caricaturas de países vistos como inimigos ou rivais dos Estados Unidos, em sintonia com o clima político de cada momento. Iranianos, russos, árabes e outros "vilões" eram colocados em confronto direto com heróis patrióticos apresentados como a encarnação do americano ideal, branco, forte e quase super‑herói, caso de Hulk Hogan em seu auge.

O próprio Vince admite que, quando os Estados Unidos entravam em guerra ou em conflito com um determinado país, a WWE respondia com um personagem caricato, construído para ser odiado e derrotado diante de um público educado a aplaudir a vitória do "nosso lado". Essa lógica conecta a WWE a um repertório mais amplo do soft power norte‑americano, no qual filmes, séries, shows de humor e megaeventos esportivos reforçam o "sonho americano", a ideia de liberdade e a superioridade moral dos Estados Unidos sobre seus adversários.

Bad Bunny dentro da máquina da WWE

É dentro desse sistema que Bad Bunny aparece. Na WWE, ele não entra em cena como caricatura latina subalterna, mas como celebridade global da música urbana, incorporando um estilo de rapper "bad boy", controverso, que chega com uma base de fãs própria e é apresentado como atração de destaque em shows como a WrestleMania 37, o maior evento da empresa.

Mesmo sem conquistar cinturões principais, foi colocado em lutas e segmentos de alto perfil, com tempo de tela que poucos artistas convidados recebem, um contraste forte com a trajetória histórica de lutadores latinos que em geral precisaram enfrentar estereótipos para ocupar o topo do card.

Nessa história, Rey Mysterio e Eddie Guerrero se tornaram exceções que abriram caminho: dois lutadores que, apesar da visão de que luchadores não eram "vendáveis" no mercado norte‑americano, provaram que personagens latinos podiam liderar histórias e falar diretamente para um público que se via pouco representado.

Resistência latina no coração de Hollywood

Hoje, o fato de um porto‑riquenho como Bad Bunny atravessar esses circuitos, do Grammy ao SNL, passando pela WWE, festivais, cinema e grandes campanhas publicitárias, indica uma brecha na Hollywood ainda fechada, mas obrigada a abrir espaço para artistas internacionais com discurso crítico.

Na lógica do soft power, isso é uma tensão interessante: a mesma máquina cultural que vende a narrativa do "sonho americano" recebe, aplaude e lucra com um artista que sobe ao palco para denunciar deportações, questionar fronteiras e afirmar a humanidade de imigrantes latinos. Para uma comunidade latina acostumada a ser tratada como ameaça ou figurante, Bad Bunny funciona como um agente interno de resistência, ocupando palcos cada vez maiores e disputando, por dentro, o sentido das imagens que os Estados Unidos exportam para o mundo.

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