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Pastor deseja “câncer na garganta” a quem “zombou da fé” no Carnaval - Revista Fórum

revistaforum.com.br By Zé Barbosa Junior 2026-02-17 946 words
FÉ DEMAIS NÃO CHEIRA BEM

Pastor deseja "câncer na garganta" a quem "zombou da fé" no Carnaval

Líder da Assembleia de Deus Ministério de Perus, Elias Cardoso tem histórico de alinhamento público ao bolsonarismo e volta ao centro da controvérsia após ataque contra desfile da Acadêmicos de Niterói, que homenageou Lula

Pastor Elias Cardoso desejou "câncer na garganta" a quem "zombou da fé" no Carnaval, referindo-se ao desfile da Acadêmicos de Niterói que homenageou Lula.

A declaração, feita durante um culto, gerou críticas por incitar intolerância e confundir identidade religiosa com preferência partidária.

Elias Cardoso é presidente da Assembleia de Deus Ministério de Perus e já se manifestou contra partidos de esquerda e a favor de Bolsonaro.

Até o momento, não houve manifestação da Assembleia de Deus ou de parlamentares que o homenagearam sobre o ocorrido.

A declaração feita pelo pastor Elias Cardoso durante um culto na segunda-feira (16) provocou forte reação nas redes sociais e entre lideranças religiosas de diferentes vertentes. Referindo-se ao desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, que homenageou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em sua estreia na elite do Carnaval carioca, o líder religioso afirmou que aqueles que "zombaram da fé" poderiam enfrentar "câncer na garganta".

A fala ocorreu um dia após a apresentação da agremiação no Sambódromo do Rio de Janeiro, no domingo (15). Segundo o pastor, a encenação teria "tripudiado" sobre a fé evangélica. Em tom de repreensão espiritual, ele declarou: "A hora que esses homens estiverem com câncer na garganta, ele vai (sic) lembrar com quem ele mexeu".

Apesar de afirmar que não haveria retaliação judicial ou física, Cardoso sustentou que a resposta viria por meio da oração e da justiça divina. "Melhor representação não é no STF, não é na Justiça, não é no Ministério Público Federal, é lá em cima, direto no trono", disse, evocando o que chamou de "Supremo Tribunal Celestial".

A declaração foi amplamente criticada por muitos perfis defensores do estado laico nas redes sociais, inclusive muitos pastores evangélicos, lembrando que o direito à crítica ou à sátira não autoriza a incitação simbólica à punição física ou à desumanização do outro.

Quem é o pastor Elias Cardoso

Elias Cardoso é presidente da Assembleia de Deus Ministério de Perus (AD Perus), denominação com 77 anos de história e forte presença na capital paulista e em outras regiões do país. À frente do ministério há cerca de duas décadas, ele consolidou liderança interna e projeção política.

Em setembro do ano passado, o pastor foi homenageado pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) com o Colar de Honra ao Mérito Legislativo, a mais alta honraria concedida pelo Parlamento paulista. A homenagem foi proposta pelo deputado André Bueno (PL). A honraria evidenciou não apenas sua atuação religiosa, mas também sua interlocução com setores da política conservadora paulista.

Pastor quis proibir crentes de filiarem a partidos de esquerda

O episódio envolvendo o desfile da Acadêmicos de Niterói não é um fato isolado na trajetória pública do pastor. Desde pelo menos as eleições de 2022, Elias Cardoso tem se posicionado de maneira contundente no campo da direita conservadora.

Às vésperas do segundo turno daquele pleito, ele gravou vídeo declarando apoio oficial da AD Perus e da associação nacional ligada ao ministério à reeleição de Jair Bolsonaro. Segundo o pastor, o então presidente representaria melhor a "defesa dos princípios cristãos".

Em outro momento, durante culto, afirmou ser "proibido crente se filiar a partido de esquerda", citando nominalmente PT, PSOL e PCdoB. A declaração viralizou e foi criticada por especialistas em direito constitucional, que lembraram que igrejas não podem constranger fiéis quanto ao exercício de direitos políticos.

Na pandemia, Cardoso também divulgou vídeo afirmando que "a esquerda está endemoniada contra a Igreja", reforçando a narrativa de perseguição religiosa frequentemente mobilizada por lideranças alinhadas ao bolsonarismo.

Religião, política e radicalização do discurso

O ataque verbal à escola de samba ocorre em um contexto mais amplo de tensionamento entre manifestações culturais e setores do evangelicalismo conservador. O Carnaval, historicamente marcado por sátiras e críticas sociais, tem sido alvo recorrente de reprovação moral por parte de líderes religiosos.

No entanto, a retórica utilizada pelo pastor — especialmente ao associar a crítica cultural à possibilidade de uma doença grave — elevou o tom do embate. A homenagem a Lula no desfile foi interpretada por Cardoso como provocação direta à fé evangélica. Entretanto, a reação desproporcional reforça a confusão entre identidade religiosa e preferência partidária. Ao transformar uma apresentação artística em afronta espiritual, o pastor mobiliza sua base em torno de uma narrativa de guerra cultural.

Veja o vídeo:

Repercussão e silêncio institucional

Até o momento, não houve manifestação formal da direção nacional da Assembleia de Deus sobre as declarações. Tampouco parlamentares que participaram da sessão solene em sua homenagem comentaram o episódio.

Enquanto isso, o vídeo com a fala sobre "câncer na garganta" segue circulando nas redes, ampliando a polarização já intensa no ambiente político-religioso brasileiro.

O caso reacende uma questão central: qual o limite entre liberdade de expressão religiosa e discurso que pode estimular intolerância? Ao desejar enfermidade a quem pensa ou se manifesta de forma diferente, o pastor não apenas ultrapassa a linha da divergência teológica, mas contribui para um clima de hostilidade que contrasta com a mensagem de cuidado e compaixão que ele próprio evocou ao receber a maior honraria do Parlamento paulista.

Em meio à disputa simbólica entre altar e avenida, o episódio revela que a relação entre fé e política no Brasil segue marcada por radicalizações que desafiam tanto a convivência democrática quanto o próprio testemunho público das lideranças religiosas.

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