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O Carnaval venceu o medo — por Alexandre Santini - Revista Fórum

revistaforum.com.br By Alexandre Santini 2026-02-17 825 words
OPINIÃO

O Carnaval venceu o medopor Alexandre Santini

Acadêmicos de Niterói levou arte para a Avenida, e foi a beleza de uma história, conhecida pelo povo e bem contada pelo enredo, que empolgou e levantou a Marquês de Sapucaí

Acadêmicos de Niterói homenageou Lula com o enredo "Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil" no desfile do Grupo Especial na Sapucaí.

O desfile da Acadêmicos de Niterói foi ovacionado pelo público, incluindo arquibancadas, camarotes e a "geral", com um samba-enredo considerado empolgante.

A apresentação da escola, apesar de polêmicas e tentativas de judicialização, é vista como um evento político e cultural disruptivo, desafiando narrativas pré-estabelecidas.

O insuspeito Elio Gaspari lançou um desafio em nota de sua coluna publicada neste domingo : "Hoje à noite a arquibancada da Sapucaí mostrará se foi uma boa ideia homenagear Lula no desfile da Acadêmicos de Niterói".

Os testemunhos dos que atravessaram a avenida e o que se viu e ouviu da reação do público na primeira noite das Escolas de Samba do grupo especial não deixa dúvidas: a apresentação da agremiação de Niterói foi consagrada pela Marquês de Sapucaí. O enredo "Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil" foi ovacionado pelas arquibancadas, mas também pelos camarotes, frisas e – muito especialmente- pelo povo da "geral", a turma que não tem como pagar ingresso, e se ajeita como pode na Avenida Presidente Vargas para assistir a passagem das Escolas da concentração para o setor 1, onde inicia-se propriamente o desfile.

O samba enredo da Niterói é empolgante e seu refrão gruda igual chiclete. Se por um lado é óbvio que não há unanimidade no Brasil, em um contexto de intensa polarização política e ideológica na sociedade brasileira, por outro lado nunca é demais lembrar que o Carnaval das Escolas de Samba é, antes de tudo, uma experiência estética, onde os sentidos são estimulados pela beleza, pelo prazer da fruição e pela vibração coletiva que se aproxima mais do mais do que é a catarsis definida por Aristóteles em sua "Arte Poética" do que, por exemplo, manifestações teatrais que acontecem segundo a forma dramática e a arquitetura cênica convencional de palco italiano.

A Acadêmicos de Niterói levou arte para a Avenida, e foi a beleza da arte e de uma história, conhecida pelo povo e bem contada pelo enredo, que empolgou e levantou a Marquês de Sapucaí.

Isto posto, o Carnaval sempre foi e sempre será político. A crítica, o deboche e a irreverência características da linguagem carnavalesca convivem harmonicamente na história das Escolas de Samba com os chamados "enredos de exaltação". Zumbi dos Palmares, Tiradentes, Teresa de Benguela, Pixinguinha, Getúlio, JK, Chico Recarey, Silvio Santos, Chico Buarque, Maria Bethânia com e sem os Doces Bárbaros, são apenas uma pequena amostra da diversidade de personagens históricos, políticos e culturais que foram exaltados e homenageados por Escolas de Samba.

Alguns destes enredos entraram para a história do Carnaval, e isso acontece quando a força do personagem no imaginário coletivo se combina com a boa capacidade de contar essa história, embalada por um bom samba. A julgar por estes aspectos a Acadêmicos de Niterói, em sua primeira incursão no grupo especial, estreou com um samba-enredo e fez um desfile que entrará para a história e será lembrado por muitos anos.

As polêmicas que cercaram a realização do desfile, incluindo tentativas de judicialização, bem como as dificuldades de setores da midia em narrar e "enquadrar" a apresentação da Escola, demonstram a força do espetáculo carnavalesco e o seu caráter disruptivo e libertário. Uma perda de controle milimetricamente estruturada e cronometrada, que segue desafiando os padrões vigentes e as narrativas pré-estabelecidas.

Nem sempre o resultado final da apuração dos desfiles das Escolas de Samba reflete o sentimento da Avenida. Mas a Acadêmicos de Niterói fez um desfile tecnicamente preciso e correto, dentro dos quesitos que são julgados e avaliados pelos jurados. Há no entanto uma regra, não escrita, mas muito praticada no carnaval do Grupo Especial: "quem sobe, desce".

Esperamos que as polêmicas políticas, escaramuças judiciais, e a notável dificuldade da grande imprensa em narrar o desfile da azul e branco de Niterói, não interfiram na avaliação da Escola, que merece um julgamento técnico, justo e transparente. A consagração, essa já chegou, quando a Acadêmicos de Niterói passou na Avenida com mais um samba popular.

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum

* Alexandre Santini é Presidente da Fundação Casa de Rui Barbosa (MinC). Gestor e produtor cultural, escritor, mestre em Cultura e Territorialidades pela UFF e doutorando em História, Política e Bens Culturais pelo CPDOC/FGV. Foi Secretário das Culturas de Niterói, Diretor de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura e Diretor do Teatro Popular Oscar Niemeyer. É autor do livro Cultura Viva Comunitária: Políticas Culturais no Brasil e na América Latina.

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