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Um retrato de cabeça para baixo

revistaoeste.com By Eugênio Esber 2026-02-06 2212 words
A uma semana do carnaval, o brasileiro certamente está lembrado de uma alegoria que fez o mundo rir do Brasil. Foi em 2024. Oito meses depois de tomar posse na presidência do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Marcio Pochmann lançou um mapa em que o Brasil aparecia no centro do mundo. Orgulhoso da peça, prontamente integrada ao Atlas Geográfico Escolar, Pochmann justificou o delírio de projetar o Brasil no lugar da Europa e da América do Norte como reflexo do "reposicionamento" do Brasil no mapa-múndi, a expressão de nossa importância em uma era de emergência do "Sul Global".

As piadas e memes não o detiveram. As piruetas cartográficas prosseguiram em 2025 com a divulgação, nas redes sociais de Pochmann, de um mapa-múndi invertido em que o Sul ficava no alto, o Norte aparecia embaixo e o Brasil resplandecia ao centro, como se fosse o umbigo do planeta, distinção devida ao fato de que seria o país-sede da COP30, a conferência de clima da ONU, de patético desfecho, aliás.

No final do ano, interessado em destacar Belém, a cidade da COP30, Pochmann cometeu outro mapa invertido, para desgosto de cartógrafos e técnicos do IBGE, preocupados com a reputação do instituto no cenário estatístico internacional. Impassível diante das críticas ao que se poderia chamar de um "samba do economista doido", Pochmann sustentou que colocar Belém e o Brasil no centro do mapa-múndi "é também um ato propositivo de descolonização cognitiva". E bola para frente.

Não se sabe onde tudo isso vai dar, mas os sinais preocupam. É sob a condução de Marcio Pochmann que o IBGE está prestes a anunciar uma de suas revisões do ano-base do PIB brasileiro. A cada período de dez anos, a fotografia econômica do Brasil é atualizada para refletir os pesos dos diferentes setores sobre o Produto Interno Bruto (PIB), um indicador-chave adotado globalmente para medir o tamanho e o dinamismo de uma economia, com base na avaliação de tudo o que se produz em bens e serviços.

Até aqui, o setor de Contas Nacionais do IBGE, responsável pelo cálculo do PIB, trabalhou com o retrato do Brasil de 2010, mas está por divulgar os achados de sua revisão estatística orientada pelo ano-base de 2021. Nada de novo sob o sol, se estivéssemos em condições normais de temperatura e pressão. Mas o tédio não tem vez na gestão de Pochmann, cujo currículo inclui uma estrepitosa passagem pela presidência do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) nos governos Lula e Dilma e duas malogradas tentativas de se eleger prefeito de Campinas. Em agosto de 2023, estava alojado na presidência do Instituto Lula quando foi chamado a ajudar o governo recém-iniciado. Missão: assumir o comando do grande laboratório de estatísticas do Brasil.

É este IBGE impregnado do tal intuito de "descolonização cognitiva" que acaba de sofrer mais um engasgo de credibilidade. Servidora de carreira há mais de 20 anos e uma respeitada porta-voz da instituição, por traduzir a jornalistas os meandros técnicos da apuração do PIB, a economista Rebeca Palis (PUC-RJ) foi desligada, em 19 de janeiro, do posto de coordenadora de Contas Nacionais do IBGE. Não houve satisfações ao público e particularmente ao ambiente econômico sobre o porquê do afastamento da especialista — ainda mais em um momento sensível, quando as novas bases de mensuração do PIB estão para sair do forno.

Registre-se que Rebeca trazia consigo a experiência de ter feito parte da última revisão de ano-base do PIB, realizada em 2010, e a vivência de coordenar o setor desde 2015, portanto sob diferentes presidentes da República. A saída de alguém com este estofo não é um fato banal, como pareceu ser pela nota em que o IBGE secamente agradeceu a Rebeca pelos 11 anos de serviços prestados na coordenação da área e, noblesse oblige, desejou boa sorte.

Três gerentes que atuavam sob a liderança de Rebeca entregaram seus cargos. O sindicato dos servidores, Assibge-SN, considerou a troca de coordenação uma medida retaliatória, o que remete a um episódio de um ano atrás. Em 20 de janeiro de 2025, Rebeca subscreveu uma carta aberta de funcionários do IBGE contra a gestão de Pochmann. Com mais de 130 assinaturas, muitas delas de servidores com função de coordenação ou gerência, o documento se solidarizava com diretores que haviam pedido demissão e acusava o presidente de "posturas autoritárias" e "desrespeito ao corpo técnico". O alvo da rebelião era, principalmente, a tentativa de Pochmann de criar a Fundação IBGE+, um braço de pesquisa do instituto que seria bancado por patrocínios privados.

Cientes do viés político e personalista por trás da medida de Pochmann, que pretextava tirar o IBGE de sua crônica penúria financeira, os funcionários e o sindicato reivindicaram o imediato recuo na decisão de criar o que chamaram de "IBGE Paralelo" e o início de discussões sérias com o corpo técnico para avaliar "alternativas viáveis que não comprometam a autonomia técnica e a credibilidade do Instituto".

Todos sabiam, muito bem, o brejo em que estavam se metendo — não só pela ideia em si, mas pelo modo sigiloso com que o presidente conduziu a elaboração dos estatutos da Fundação IBGE+ e os registrou em cartório. Não parecia algo muito crível, partindo de um acadêmico que saltou para a gestão pública, mergulhou na política partidária, embrenhou-se na luta eleitoral e, por fim, retornou ao governo sob a capa de um presidente de órgão técnico que, um belo dia, decide sair a catar dinheiro privado para produzir informação estatística e geocientífica sem segundas intenções. O enredo do samba não convenceu. E Pochmann, aparentemente, engavetou seu IBGE privado. Mas não desligou o rolo compressor.

Além de substituir Rebeca Palis, o IBGE expurgou em janeiro a gerente Ana Raquel Gomes da Silva, que chefiava a Gerência de Sistematização de Conteúdos Informacionais. O passo em falso de Ana Raquel foi ter se insurgido contra a politização do anuário "Brasil em Números 2024", lançado no início de 2025. Ela e muitos não entendiam a inclusão de um prefácio de autolouvação assinado pela governadora de Pernambuco, Raquel Lyra, com elogios, claro, à atual direção do IBGE. A querela foi parar na mesa de Pochmann, que repeliu o argumento de que a prosa política desvirtuava um anuário que deve ser regido pelos princípios da impessoalidade e da neutralidade técnica. Mandou publicar do jeito que estava. E, agora, a conta chegou para Ana Raquel.

Estatística é leitura que dá sono em muitos brasileiros, mas é essencial para tomadores de decisão, e isso diz respeito não apenas a grandes empresas ou investidores. O inquilino e o proprietário de um imóvel de aluguel dependem do índice de inflação que rege os reajustes previstos no contrato, assim como os assalariados que vão ao supermercado e precisam confiar na medição que o IBGE faz da variação dos preços. A defesa de uma gestão técnica do instituto é fundamental para que o retrato estatístico do país não apareça de cabeça para baixo, como os mapas criativos de Marcio Pochmann. E há temas que precisam ser enfrentados.

A grande ênfase que o governo brasileiro e a imprensa colocam sobre a declinante taxa de desemprego, para gerar abordagens ufanistas, é um exemplo de como o uso de estatísticas pode encobrir, em vez de revelar, a realidade do país. Em janeiro, o índice oficial de desemprego martelado pelas manchetes dos jornais foi de apenas 5,1%, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), realizada pelo IBGE no último trimestre de 2025. No entanto, o número não considera a legião de brasileiros que já nem procura emprego. São os desalentados, categoria que está inflada — em proporção que o Brasil ainda não consegue medir claramente — pelo recebimento de recursos do Bolsa Família e de outros programas sociais.

Em 2025, um estudo do economista Daniel Duque, do Instituto Brasileiro de Economia (FGV IBRE), chamou a atenção para este fenômeno. Duque se debruçou sobre o efeito do Bolsa Família sobre o mercado de trabalho depois que o valor médio passou a ser de R$ 670, em 2023. E concluiu que o medo de perder o benefício ainda trava boa parte dos brasileiros. A cada duas famílias que recebem o benefício, constatou, uma deixa o mercado de trabalho — o que, evidentemente, não significa que o remédio seja acabar com o programa. Mas dá uma ideia do desafio monumental que o IBGE, com uma gestão séria e dotação orçamentária à altura, tem pela frente, se quiser ajudar o país a calibrar melhor sua política de renda mínima, de modo a não perenizar a miséria.

Pode-se alegar que os "desalentados" também são excluídos da estatística de desemprego mundo afora, por orientação da OIT — Organização Internacional do Trabalho. Mas com 49 milhões de pessoas penduradas no Bolsa Família, o Brasil precisa olhar para si e não para realidades como as dos Estados Unidos ou da Europa, a pretexto de manter "comparabilidade" das estatísticas.

Farão bem os novos governos se fortalecerem o IBGE com recursos para mais e melhores pesquisas, e enquanto este dia não chega, convém ao Brasil virar o foco não para uma emagrecida taxa de desemprego de 5,1%, que oculta o tamanho do problema, e sim para outro número que é calculado pelo IBGE — a taxa de subutilização da força de trabalho, que já alcança assustadores 13,9%.

Mas nada disso será possível com a sujeição do IBGE a um "ideólogo", como o ex-presidente do Instituto, Edmar Bacha, definiu Pochmann ao jornal O Estado de S. Paulo, em 2023. "Tem uma visão totalmente ideológica da economia. E não terá problema de colocar o IBGE a serviço dessa ideologia, como fez no IPEA."

Em março, quando for divulgada a nova revisão do PIB, com lastro no ano-base de 2021, o Brasil saberá o resultado do embate que ora é travado entre o corpo técnico e o corpo político do IBGE.

*Com reportagem de Rachel Díaz

"Pochmann já está afetando a credibilidade do IBGE", afirma Clician Oliveira, que integra o Conselho Político do Assibge

Em entrevista a Oeste, Clician Oliveira, que integra o Conselho Político do Sindicato Nacional dos Trabalhadores do IBGE (Assibge), negou que existam demandas para a manipulação de dados, descrevendo que tal prática seria difícil de ser realizada operacionalmente, e ressaltou que as estatísticas refletem a realidade. No entanto, confirmou as perseguições e o clima de frustração entre os servidores do IBGE na gestão de Pochmann.

Segundo Clician, há ao menos oito processos de assédio em andamento contra um diretor próximo a Pochmann. Para os servidores, a transferência de equipes do prédio da Avenida Chile para o Jardim Botânico, ambos no Rio de Janeiro, também foi uma forma de retaliação ao corpo técnico que se posicionou contra a criação da Fundação IBGE+.

"Além disso, diretores indicados pelo próprio Pochmann deixaram seus cargos", relatou Clician. "Não apenas por discordarem do mérito dos projetos, mas pela forma como esses projetos vêm sendo conduzidos."

Sobre as exonerações, Clician relata que alguns desligamentos foram anunciados na intranet do IBGE sem que houvesse a publicação correspondente no boletim interno do órgão. Segundo ela, tampouco foram apresentadas justificativas formais. Apesar do desgaste e do constrangimento gerados, a dirigente afirma que, diante do cenário atual da gestão, já não é possível afirmar se as medidas têm como objetivo prejudicar servidores. "Depois do susto, muitos sentiram até um alívio", disse.

Indagada sobre o sentimento dos servidores em relação à gestão de Marcio Pochmann, Clician afirma que o clima é de "desgaste absoluto". Ela classifica a administração como inábil, apontando o descumprimento de políticas internas, a ausência de diálogo com os servidores nos processos decisórios e o não cumprimento de obrigações básicas, como a atualização do plano diretor. Para a executiva nacional da Assibge, o problema ultrapassa o âmbito operacional: a crise de credibilidade enfrentada pelo IBGE é atribuída diretamente à condução de Pochmann.

"Ele já está afetando a credibilidade", relatou. "Porque, em entrevistas concedidas à mídia alternativa, Pochmann desqualifica de maneira sistemática o corpo técnico do IBGE e o histórico recente da instituição. Ele tenta vender a imagem de um IBGE do século 21, supostamente atrasado tecnologicamente, e ignora grandes avanços realizados pelos servidores […]. Entendemos que, se hoje existe questionamento sobre a possibilidade de manipulação do PIB, isso ocorre porque a própria gestão criou esse ambiente. E sabe que está criando esse ambiente."

Também há a adoção de formatos classificados como inovadores, mas que não deixam claro o limite entre a divulgação de informação oficial e posicionamentos políticos. Um dos exemplos citados é a apresentação do volume Brasil em Números acompanhada de considerações de autoridade política sobre metas de governo, algo que, na avaliação dos técnicos, foge do papel de um instituto oficial de estatística na divulgação de seus dados.

Clician afirma que gestões anteriores do IBGE, como as dos governos de Dilma Rousseff e Jair Bolsonaro, também enfrentaram embates, mas não no mesmo volume registrado durante a gestão de Pochmann.

Embora as crises atuais possam ter menor potencial conflitivo quando analisadas isoladamente, elas se sucedem com frequência elevada. Para Clician, é essa repetição que amplia o impacto institucional. A exoneração da coordenadora de Contas Nacionais, por exemplo, ganhou repercussão não apenas pela sensibilidade dos dados produzidos — que podem gerar especulação financeira em caso de vazamento —, mas por ocorrer em meio a uma sequência de exonerações.

Leia também "Bem que Raquel Dodge avisou"

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