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Uma incógnita em meio ao caso Master

revistaoeste.com By Cristyan Costa 2026-02-08 711 words
No avanço das investigações sobre o escândalo do Master, a defesa do banqueiro Daniel Vorcaro solicitou ao ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), o envio do processo à Corte. O argumento: entre os envolvidos, havia uma pessoa com foro privilegiado. Poucos dias depois, soube-se que se tratava do deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA).

Até o momento, não há provas da participação direta dele no esquema de fraudes financeiras, que levou à liquidação extrajudicial do Master pelo Banco Central (BC). Ainda assim, a referência ao seu nome em documentos apreendidos pela Polícia Federal (PF) trouxe à tona um personagem que age como um camaleão na política, com relacionamentos em todas as esferas do poder.

Trajetória política de João Carlos Bacelar

Empossado em 2007, Bacelar já está no quinto mandato consecutivo, depois de ter abandonado a advocacia. Aos 53 anos, sua carreira se define menos pelo protagonismo em votações e mais pela articulação silenciosa nos bastidores do Congresso Nacional. Colegas garantem que ele evita dar entrevistas e até aparecer em público. Prefere viver nas sombras. Não à toa, faz parte do chamado "baixo clero", grupo formado por parlamentares sem muita expressão, mas decisivos em desempates de placares apertados e para ajudar na criação de comissões parlamentares de inquérito.

Filiado ao PL, pertence à "ala tradicional" e mais ligada a Valdemar da Costa Neto, tanto que está na legenda desde quando se chamava Partido da República. Apesar de pertencer a uma sigla de centro-direita, o deputado manteve relações estáveis com diferentes grupos políticos ao longo dos anos, ajustando seus posicionamentos conforme as mudanças do cenário nacional.

Citado em escândalos

A trajetória de Bacelar no Parlamento passou por episódios centrais da política nacional. Em 2016, durante o processo de impeachment da então presidente Dilma Rousseff (PT), o nome dele constou em denúncias que o associaram a uma espécie de "lobby pró-Dilma". À época, delatores entregaram esquemas de pagamento a parlamentares em troca de votos a favor do governo federal, do qual ele supostamente faria parte.

Quando Dilma caiu, no entanto, Bacelar aliou-se ao então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, justamente o responsável por pautar o afastamento da petista. No Conselho de Ética, ele chegou a apresentar voto no qual defendeu punição branda a Cunha, limitando-se à suspensão temporária do mandato, quando já havia maioria pela cassação do presidente.

O nome de Bacelar voltaria aos jornais ao aparecer em investigações nos anos seguintes. Em delações da Lava Jato, executivos da Odebrecht e do grupo J&F, dos irmãos Batista, mencionaram o deputado em depoimentos.

Em delações da operação, por exemplo, o nome de Bacelar surgiu como sendo o de um parlamentar que recebia propina em troca de favorecimento da empreiteira. Com o enfraquecimento e, posteriormente, o desmonte completo da Lava Jato, os inquéritos terminaram arquivados.

Em 2020, contudo, o STF recebeu outra acusação contra Bacelar, desta vez em um processo relacionado a peculato, tornando-o réu. A ação tratava de suposto uso indevido de recursos públicos vinculados à atividade parlamentar. O caso passou a tramitar na Corte, mas não resultou em afastamento do deputado, que seguiu exercendo normalmente o mandato. O Supremo também engavetou o procedimento.

Caso Master

Nesse contexto, os documentos apreendidos pela Polícia Federal jogaram os holofotes, novamente, em cima de Bacelar. Conforme a PF, uma empresa associada ao deputado manifestou interesse em adquirir um imóvel ligado ao Master, em Trancoso, em seu Estado de origem. A negociação, porém, não avançou. Mesmo assim, Toffoli usou esse caso para atender a um pedido da defesa de Vorcaro.

O episódio sintetiza a lógica que atravessa a trajetória de Bacelar: a presença indireta em apurações de grande repercussão, sem protagonismo penal definido, mas com impacto institucional concreto. Ao longo de cinco mandatos, o deputado raramente ocupa o centro das acusações e, ao mesmo tempo, permanece suficientemente próximo dos episódios para que sua atuação nunca seja completamente esclarecida.

Entre a ausência de provas e a recorrência de seu nome, Bacelar construiu uma carreira marcada pela capacidade de atravessar crises sem deixar rastros nítidos — um personagem que se adapta aos ambientes mais adversos da política brasileira e cuja permanência parece depender menos de acusações comprovadas e mais de uma capacidade constante de atravessar crises sem ter seu papel claramente definido.

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