Cão Orelha: porque violência contra animais cresce em grupos online de adolescentes
Essa foi uma das cenas chocantes que as pesquisadoras independentes Tatiana Azevedo e Letícia Oliveira tiveram acesso enquanto monitoravam grupos extremistas no Discord entre 2023 e 2024. "São coisas que eu nunca vou esquecer, mudaram a minha vida", afirma Azevedo.
Elas publicaram ano passado um relatório sobre situações brutais que ocorrem nos grupos da rede social, chamados de panelas. Crianças e adolescentes estão entre os principais envolvidos em crimes que também incluem incentivo à automutilação, suicídio e estupros virtuais coletivos (em que as vítimas são forçadas a praticar atos sexuais ou se exporem na rede social).
Os atos são chamados de "lulz", termo usado para designar uma "brincadeira" ou desafio que muitas vezes envolve violência. "Começa com pequenas transgressões, como pichar ou escrever no próprio corpo o nome do grupo, e muitas vezes descamba para atos extremos. Eles fazem isso para ganhar status e serem aceitos", diz Azevedo.
Agressões contra animais são comuns porque eles oferecem pouca ou nenhuma resistência. Muitas vezes os autores cobram um valor (como uma assinatura) das pessoas que queiram assistir ao espetáculo macabro.
O caso de Orelha, cachorro comunitário que foi espancado em um bairro nobre de Florianópolis (Santa Catarina) e teve que passar por eutanásia no início de janeiro devido à gravidade dos ferimentos, reacendeu o debate sobre o risco de jovens serem expostos a ideias extremistas em ambientes virtuais sem moderação.
Nesta terça-feira (3 de janeiro), a Polícia Civil de Santa Catarina concluiu as investigações sobre a morte de Orelha e pediu a internação de um adolescente que teria sido o autor das agressões. Além disso, quatro adolescentes foram apontados como autores de uma tentativa de afogamento de outro cão comunitário do mesmo local, chamado Caramelo.
Por que isso importa?
Grandes redes sociais têm permitido que grupos troquem mensagens violentas e conteúdo extremista com pouca ou nenhuma moderação.
Crianças e adolescentes estão entre os públicos mais vulneráveis para esse tipo de conteúdo.
Os nomes e idades dos adolescentes não foram revelados em atenção ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que prevê sigilo total em casos envolvendo menores de 18 anos. Dois pais e um tio dos jovens também foram indiciados por tentar coagir um vigilante que teria testemunhado o crime.
Até o momento, não há indícios de que os adolescentes faziam parte de grupos extremistas online. Porém, especialistas apontam que situações como as de Orelha e Caramelo são sintomáticas de um processo de radicalização.
"O zoosadismo é um grande indicador de radicalização e um passo grande para a mobilização à violência. A gente tem visto a violência como uma moeda social. Quanto mais sádico e perverso, maior estatuto interno dentro da minha rede, da minha panela, eu tenho", disse o procurador Fábio Costa Pereira, que integra o Projeto Sinais, de prevenção a violência extrema praticada por jovens e adolescentes, nas redes sociais do Ministério Público do Rio Grande do Sul.
Para o procurador, as famílias precisam ter cuidado com a maneira que os jovens usam a internet. "Esses adolescentes têm acesso ilimitado a telas porque as famílias permitem", ele continua. "Muitas das nossas crianças e adolescentes passaram a viver no mundo digital sem a percepção das consequências catastróficas que elas têm no mundo real."
Animais e meninas são as principais vítimas de grupos violentos nas redes
Um dos indícios de que os jovens são os mais afetados é que episódios violentos monitorados pelas pesquisadoras no Discord aumentaram durante a pandemia e, depois, em períodos de férias escolares. "São momentos em que os adolescentes ficam em casa e podem usar a internet livremente. Por isso o ECA Digital (medidas que visam proteger menores de 16 anos nas redes sociais, que começam a valer em março) é tão importante", afirma Oliveira.
Segundo as autoras, as maiores vítimas de violência nos grupos são meninas e animais. "As vítimas são predominantemente do gênero feminino. Animais como gatos, cachorros, pássaros, sapos e outros animais de pequeno porte são frequentemente violentados em sessões de tortura animal. Os agressores são, majoritariamente, do sexo masculino", diz um trecho do relatório.
Entre os episódios narrados no relatório, está o de um adolescente de 17 anos do Rio Grande do Sul que furtou, torturou e matou um cachorro e transmitiu ao vivo pelo Discord. Outro de Goiás fez uma live enquanto maltratava e enforcava um cão.
Azevedo ainda conta ter presenciado o momento em que uma menina foi obrigada pelos outros participantes a praticar atos de zoofilia com um cachorro. Ela explica que líderes dos grupos, principalmente meninos, coagem meninas a fazerem o que eles querem ameaçando expor vídeos íntimos ou as expondo aos pais. "Elas vão ficar traumatizadas para o resto da vida", acredita.
Quem maltrata animais pode agredir pessoas
No ano passado, o Brasil teve 13 denúncias de maus-tratos a animais por dia – quase 5 mil no total. Houve um aumento de 20% em relação a 2024. Santa Catarina, terra de Orelha e Caramelo, foi o segundo estado com mais notificações em 2025, atrás apenas do Rio Grande do Sul.
ONGs de proteção de direitos dos animais pontuam que os casos de violência quase nunca são isolados. "Dois pesquisadores norte-americanos no começo da década de 1980 entenderam que a violência é uma só. As pessoas que abusam e violentam animais podem violentar pessoas ou vice-versa", afirma Rosangela Gebara, diretora de relações institucionais da ONG Ampara Animal.
Os pesquisadores citados, Phil Arkow e Frank Ascione, criaram a Teoria do Elo, que identifica uma conexão próxima entre a crueldade animal e a violência doméstica contra mulheres, crianças e idosos, alvos considerados vulneráveis. Estudos sobre serial killers apontam que quase todos eles tiveram episódios de maus-tratos a animais – como o Maníaco do Parque ou Jeffrey Dahmer.
"Se você tem criança ou adolescente muito violento contra animais, isso tem que ser investigado do ponto de vista psiquiátrico. Não se pode dizer que é coisa de criança. Pode ser um fator preditivo, precoce, de pessoas desajustadas que poderiam cometer crimes piores", diz Gebara.
No Brasil, frequentemente as punições a pessoas acusadas de maus-tratos a animais são brandas ou substituídas por penas alternativas – com exceção dos casos que mobilizaram a opinião pública.
A primeira pessoa condenada por crueldade animal no país é Dalva Lina da Silva, presa em 2018. Ela se apresentava como protetora de animais, mas ONGs desconfiavam que os cachorros e gatos entregues a ela eram adotados muito rapidamente. Um detetive particular a acompanhou por quase um mês e identificou mais de 30 corpos de animais mortos em sacos de lixo que ela deixava na rua de sua casa. Segundo as investigações, eles recebiam injeções letais de uma substância controlada. A mulher recebeu pena de 12 anos de prisão, posteriormente ampliados para 17 anos.
Os casos de maior repercussão foram responsáveis pelas mudanças na legislação penal nos últimos anos. Entre os episódios mais emblemáticos está o da cadela Manchinha, em 2018, atacada e envenenada por um segurança na frente de uma unidade do Carrefour em Osasco (São Paulo). A violência gerou protestos nas ruas e redes sociais, contribuindo para consolidar no Congresso um projeto de lei que revisou as penas por maus-tratos a animais domésticos.
Em julho de 2020, o caso do pit bull Sansão – mutilado com a remoção das patas traseiras em Confins (Minas Gerais) – ensejou a aprovação da chamada Lei Sansão, em 2020, que aumentou a pena para quem cometer abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar cães e gatos.
O episódio de Orelha deslanchou debates sobre possíveis alterações legislativas, inclusive propostas recentes para aumentar ainda mais as penas ou vedar a substituição de pena privativa de liberdade por restritiva de direitos para crimes de maus-tratos.
Um dos projetos de lei apresentados recentemente trata da proteção de animais comunitários, como Orelha e Caramelo. Se aprovado, o texto reconhece a existência de milhares de animais sem lar fixo e prevê programas de incentivo para pessoas e comunidades responsáveis pelos cuidados com eles. Ainda não há previsão de quando será votado.
Conteúdo extremista se espalha pelas redes quase sem controle
Segundo estudo do Núcleo de Estudos da Violência Universidade de São Paulo (USP), entre 2001 e 2024, houve 49 ataques a escolas no Brasil. Entre eles, há um padrão de comportamento: os autores frequentemente estavam vinculados a comunidades digitais, como Discord, X, Telegram e TikTok, e eram, em sua maioria, jovens, brancos e do sexo masculino.
Apesar do conteúdo extremista estar presente em quase todas as redes, o Discord parece ser o ambiente preferido pelo seu modo de funcionamento. A rede é formada de grupos fechados, cujo conteúdo veiculado internamente não é acessível para quem está fora e sofre pouco controle de moderação. Para entrar, é necessário ter um convite e muitas vezes passar por uma entrevista. Além disso, boa parte do conteúdo é transmitida ao vivo, e não fica gravada após ser encerrada.
Investigações mostraram que o Discord foi palco do planejamento de uma série de atos violentos, como um ataque a bomba no show da cantora Lady Gaga no Rio de Janeiro em 2025, que foi desarticulado pela polícia após uma denúncia anônima, e atentados contra pessoas em situação de rua em quatro estados em abril de 2025.
Em 2023, a rede foi associada a ataques armados em escolas no Brasil. Representantes da empresa, junto com outras big techs, como X (antigo Twitter) e TikTok, foram chamados a tomar providências pelo então ministro da Justiça, Flávio Dino. De lá para cá, porém, pouca coisa mudou.
Para Tatiana Azevedo, que em seu período infiltrada observou como as redes sociais são permissivas com o acesso de menores de idade a discurso de ódio, nada realmente deve mudar se não houver responsabilização das grandes empresas de tecnologia.
"Algumas têm iniciativas incipientes de controle, outras simplesmente lavam as mãos", afirma. "Tem que haver um investimento muito grande das big techs em dinheiro e em ações que busquem mudanças reais, não só pra tampar buraco, senão ação policial nenhuma vai ser suficiente." Ela cita como exemplo a iniciativa do Roblox de vedar a conversa entre menores, que, em vez de resolver o problema, também criou um mercado de venda de contas verificadas.
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Source Quality
Source classification (primary/secondary/tertiary), named vs anonymous, expert credentials, variety
Summary
Multiple named expert sources and researchers, but limited primary sources from perpetrators or victims.
Specific Findings from the Article (4)
"Tatiana Azevedo e Letícia Oliveira"
Independent researchers who monitored extremist groups and authored a report.
Named source"Fábio Costa Pereira, que integra o Projeto Sinais"
Prosecutor with expertise in youth violence prevention.
Expert source"Rosangela Gebara, diretora de relações institucionais da ONG Ampara Animal"
Director of an animal protection NGO.
Expert source"Segundo estudo do Núcleo de Estudos da Violência Universidade de São Paulo (USP)"
Cites a university study on school attacks.
Tertiary sourcePerspective Balance
Acknowledgment of multiple viewpoints, counterarguments, and balanced presentation
Summary
Acknowledges multiple perspectives including researchers, prosecutors, NGOs, and legislative context.
Specific Findings from the Article (3)
"Porém, especialistas apontam que situações como as de Orelha e Caramelo são sintomáticas de um processo de radicalização."
Introduces expert counterpoint linking animal cruelty to radicalization.
Balance indicator"ONGs de proteção de direitos dos animais pontuam que os casos de violência quase nunca são isolados."
Presents NGO perspective on interconnected violence.
Balance indicator"De lá para cá, porém, pouca coisa mudou."
Acknowledges lack of progress despite government calls.
Balance indicatorContextual Depth
Background information, statistics, comprehensiveness of coverage
Summary
Comprehensive context including statistics, historical cases, legislative history, and psychological theories.
Specific Findings from the Article (4)
"No ano passado, o Brasil teve 13 denúncias de maus-tratos a animais por dia – quase 5 mil no total."
Provides quantitative data on animal abuse reports.
Statistic"Os pesquisadores citados, Phil Arkow e Frank Ascione, criaram a Teoria do Elo, que identifica uma conexão próxima entre a crueldade animal e a violência doméstica"
Explains psychological theory linking animal and human violence.
Background"Entre os episódios mais emblemáticos está o da cadela Manchinha, em 2018, atacada e envenenada por um segurança na frente de uma unidade do Carrefour"
Provides historical case example that led to legislative change.
Context indicator"Segundo estudo do Núcleo de Estudos da Violência Universidade de São Paulo (USP), entre 2001 e 2024, houve 49 ataques a escolas no Brasil."
Provides broader context of school violence linked to online groups.
Context indicatorLanguage Neutrality
Absence of loaded, sensationalist, or politically biased language
Summary
Mostly neutral reporting with a few emotionally charged descriptors.
Specific Findings from the Article (3)
"Os atos são chamados de "lulz", termo usado para designar uma "brincadeira" ou desafio que muitas vezes envolve violência."
Neutral explanation of terminology.
Neutral language"Essa foi uma das cenas chocantes"
Emotional descriptor 'chocantes' (shocking).
Sensationalist"espetáculo macabro"
Emotional descriptor 'macabro' (macabre).
SensationalistTransparency
Author attribution, dates, methodology disclosure, quote attribution
Summary
Full author attribution, date, clear quote attribution, and source citations.
Specific Findings from the Article (2)
""São coisas que eu nunca vou esquecer, mudaram a minha vida", afirma Azevedo."
Quote clearly attributed to source.
Quote attribution""O zoosadismo é um grande indicador de radicalização e um passo grande para a mobilização à violência. A gente tem visto a violência como uma moeda social. Quanto mais sádico e perverso, maior esta..."
Quote clearly attributed to expert.
Quote attributionLogical Coherence
Internal consistency of claims, absence of contradictions and unsupported causation
Summary
No logical inconsistencies detected; claims are well-supported and connected.
Core Claims & Their Sources
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"Violence against animals in online groups among adolescents is increasing and linked to extremist radicalization."
Source: Research by Tatiana Azevedo and Letícia Oliveira, and analysis by prosecutor Fábio Costa Pereira. Named secondary
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"Online platforms like Discord facilitate the spread of extremist content with minimal moderation."
Source: Observations by researchers and references to specific incidents planned on Discord. Named secondary
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"Animal cruelty is often a predictor of future violence against humans."
Source: Theory cited by NGO director Rosangela Gebara, referencing researchers Arkow and Ascione. Named secondary
Logic Model Inspector
ConsistentExtracted Propositions (8)
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P1
"A 13-year-old girl live-streamed setting a cat on fire on Discord."
Factual -
P2
"The dog Orelha was beaten in Florianópolis and euthanized in January."
Factual -
P3
"Brazil had nearly 5,000 reports of animal mistreatment last year, a 20% increase."
Factual -
P4
"There were 49 school attacks in Brazil between 2001 and 2024."
Factual -
P5
"The Discord platform was used to plan a bomb attack at a Lady Gaga concert in Rio de Janeiro in 2025."
Factual -
P6
"Unlimited screen access by families causes adolescents exposed to extremist ideas online"
Causal -
P7
"Animal cruelty (zoosadism) causes indicator of radicalization and potential for violence against humans"
Causal -
P8
"Lack of platform moderation causes spread of extremist content and planning of violent acts"
Causal
Claim Relationships Graph
View Formal Logic Representation
=== Propositions === P1 [factual]: A 13-year-old girl live-streamed setting a cat on fire on Discord. P2 [factual]: The dog Orelha was beaten in Florianópolis and euthanized in January. P3 [factual]: Brazil had nearly 5,000 reports of animal mistreatment last year, a 20% increase. P4 [factual]: There were 49 school attacks in Brazil between 2001 and 2024. P5 [factual]: The Discord platform was used to plan a bomb attack at a Lady Gaga concert in Rio de Janeiro in 2025. P6 [causal]: Unlimited screen access by families causes adolescents exposed to extremist ideas online P7 [causal]: Animal cruelty (zoosadism) causes indicator of radicalization and potential for violence against humans P8 [causal]: Lack of platform moderation causes spread of extremist content and planning of violent acts === Causal Graph === unlimited screen access by families -> adolescents exposed to extremist ideas online animal cruelty zoosadism -> indicator of radicalization and potential for violence against humans lack of platform moderation -> spread of extremist content and planning of violent acts
All claims are logically consistent. No contradictions, temporal issues, or circular reasoning detected.