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Eu sou, amor. Da cabeça aos pés. Eu sou, por Cristiane Hillal

jornalggn.com.br By Coletivo Transforma MP 2026-02-20 1277 words
Eu sou, amor. Da cabeça aos pés. Eu sou.

por Cristiane Corrêa de Souza Hillal

Pai não conhecia a palavra medo, mas falava muito, com palavras que eram de dar medo. Gritava: "Fala, bicho do mato. Fala mais alto". Filha gostava dos bichos do mato, mas pai não. Pai queria que filha falasse com as pessoas, mas só o que ele quisesse e na hora que ele deixasse. Nessas horas, por ter mais medo de pai que da própria voz, filha obedecia. Falava baixinho e tremido, com voz de bicho do mato. A voz saia com vida própria, desconectada da boca e do corpo e filha paria, apavorada, uma voz picotada e esquisita. Como podia ser dela aquela voz? Como alguma coisa podia ser, assim, tão dela? Apenas dela? Sozinha sendo dela?

Ter voz é ter muita coisa sozinha dentro da gente, filha pensava.

Mãe andava rápido. Era carnaval e mãe corria pra pegar o ônibus. Não era pra mãe trabalhar no dia do carnaval, mas foi o marido da Dona Lilian que ligou pra mãe falando que ela tinha que limpar a sujeira que a molecada tinha feito da folia do dia anterior. Voz de homem era coisa muito séria. "Tá bom, Sr Valter, mas vou ter que levar a filha", disse a mãe, com voz tremida de bicho do mato.

Na casa da filha todo mundo era bicho do mato. Menos o pai. Ele era bastante homem mesmo, desses que suam, gritam, quebram coisas e dão murros na mesa quando se sentem contrariados. Às vezes, filha ouvia mãe chorar do quarto e pensava que a mãe tinha se transformado na Siriema do Mato Grosso, da música que a Dona Ofélia ouvia.

O pai não gostava de carnaval. Dizia que era festa de gente vagabunda e depravada. Nesses dias, o pai ficava mais homem e a mãe mais siriema.

O pastor também era homem: falava. E muito. Naquele dia mais que os outros. Estava bravo com as mulheres peladas do carnaval que não temiam Deus pai e com a mulher que deixou o marido tão destruído e tão, mas tão fora de si de tristeza, que ele acabou se matando e levando os filhos dela com ele. Colheu o que plantou, disse o pastor. Pais matavam filhos se as mulheres ficavam peladas.

Filha tinha medo de gente, de voz e de pai. Quando pai bebia, filha pulava o muro que dava para casa da Dona Ofélia pra não morrer igual os filhos da mulher pelada. Enquanto não morria, passava a mão no pelo macio do gato gordo da velha. Dona Ofélia colocava moda de viola enquanto mãe virava siriema, e filha e velha sentavam na varanda pra sentirem, juntas, saudades profundas dos campos de Maracaju que nenhuma conhecia.

"Nenhum homem presta", a velha dizia, com voz de onça pintada.

A casa do Sr Valter era a maior casa que já tinha visto. Tinha piscina e ele deixava colocar os pés na água, mas mãe olhava pra filha, e filha não queria não. "Tem que ir pra escola, hein? Tem que estudar bastante!", Sr Valter falava com a voz grande de homem rico dele, enquanto esperava a comida que mãe fazia. Mãe era calada, mas nessa hora falou: "Filha vai estudar na escola cívico-militar, Sr Valter".

Era bonito ver orgulho parir voz de mãe.

O sol se punha quando mãe terminou a faxina. Mãe não corria pra voltar pra casa. A cidade estava diferente, as ruas vazias de carros e cheias de gente. Um homem vestido de borboleta passou por elas seguido de um monte de sereia, bailarina, palhaços, piratas e cangaceiros. Era gente de todo jeito, cor, tamanho e idade. Mulher e homem. Branca, pobre, preta, rica, desmiolada, pelada, mascarada, maltrapilha, velha e criança. Mulher que era meio homem. Homem que era meio mulher. Tudo junto e misturado. Eles cantavam para abrirem alas que eles queriam passar, e eram mais barulhentos que todos os bichos da mata juntos. A música, o sol, a risada solta e longa foi entrando igual flecha no corpinho da filha, fazendo cócegas bem no fundo da sua barriga. As cócegas vinham lá de dentro e iam aumentando sem que a filha soubesse o que fazer com elas. Vinham subindo, subindo pelo corpinho magro, sem pedir para abrir alas. Fortes e sem controle. Sem saber o que fazer com aquilo tudo e com medo de explodir de cócegas, a filha olhou pra mãe. A mãe ria. Filha riu junto. Mãe riu mais. Filha riu muito, e tanto, mas tanto, que o tempo parou nas cócegas da mãe, da filha, da rua e do mundo.

Das cócegas seguiu-se o torpor. Filha e mãe na rua, de mãos dadas, envolvidas em uma multidão de gente feliz e colorida, cantando, dançando, se abraçando e se beijando. "Vila Esperança, foi lá que eu passei, o meu primeiro carnaval", tocava a marchinha.

Como fui feliz, naquele fevereiroPois tudo para mim era primeiroPrimeira rosa, primeira esperançaPrimeiro carnaval, primeiro amor criança

Filha olhou pra mãe. Ela não sentia mais cócegas. Mãe agora chorava, mas não era choro de siriema. Era daquelas gotinhas que ficam em cima das folhas verdes e que nenhum bicho do mato estraga, como se fossem diamantes. Filha achou que mãe era bonita.

Era um luxo ver festa parir mãe feliz.

Mãe e filha foram para casa levando o carnaval no corpo. Filha pensava que a primeira coisa que faria quando chegasse em casa, era pular o muro, não para fugir de pai que mata, mas para contar pra Dona Ofélia como eram as gentes que brincavam de carnaval. Filha queria perguntar pra Dona Ofélia se ela achava que o homem borboleta prestava.

"A velha morreu", disse o pai.

Filha pulou o muro. O gato gordo estava encolhido na varanda, assustado com a multidão de policiais, pastor, rezadeiras e vizinhos que invadiam a solidão da velha.

Filha abraçou o gato gordo. Fechou os olhos para sentir seus pelos macios nos dedos. Quando abriu, o gato brilhava, de glitter.

De dentro da filha, a música ainda tocava:

Não se assuste pessoaSe eu lhe disser que a vida é boaNão se assuste pessoaSe eu lhe disser que a vida é boa

Enquanto eles se batem, dê um rolê e você vai ouvirApenas quem já diziaEu não tenho nadaAntes de você ser eu souEu sou, eu sou o amor da cabeça aos pésEu sou, eu sou, eu sou o amor da cabeça aos pés

Eu sou, disse a voz. Era a sua voz.

A sua única voz.

Aquela coisa grande, que só ela tinha e que era tão somente dela quanto do mundo todo.

Eu sou, eu sou o amor da cabeça aos pés, cantava com a voz que era dela.

Eu sou, amor. Eu sou.

Meu nome é Carolina.

Meu nome.

Eu SOU.

Este artigo não representa necessariamente a opinião do Coletivo Transforma MP.

Cristiane Corrêa de Souza Hillal – Promotora de Justiça. Integrante do Coletivo Transforma MP

Referências:

Músicas –

"Dê um Rolê" de autoria de Moraes Moreira e Luiz Galvão, gravada originalmente pelo grupo Novos Baianos em 1972, no álbum Acabou Chorare, considerado um dos mais importantes da música brasileira.

"Vila Esperança", de autoria de Adoniran Barbosa e Marcos César, composta em 1954 e gravada, em disco, apenas em 1975, no álbum Adoniran Barbosa, também conhecido como O Poeta da Cidade.

"Siriema", também conhecida como "Siriema de Mato Grosso", do cancioneiro sertanejo de raiz, foi consagrada na voz de Pena Branca & Xavantinho. A autoria é de Mário Zan, compositor e acordeonista fundamental na formação do repertório rural brasileiro.

4) "Ó Abre Alas", considerada a primeira marchinha de carnaval brasileira, composta em 1899 por Chiquinha Gonzaga.

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