Eu sou, amor. Da cabeça aos pés. Eu sou, por Cristiane Hillal
por Cristiane Corrêa de Souza Hillal
Pai não conhecia a palavra medo, mas falava muito, com palavras que eram de dar medo. Gritava: "Fala, bicho do mato. Fala mais alto". Filha gostava dos bichos do mato, mas pai não. Pai queria que filha falasse com as pessoas, mas só o que ele quisesse e na hora que ele deixasse. Nessas horas, por ter mais medo de pai que da própria voz, filha obedecia. Falava baixinho e tremido, com voz de bicho do mato. A voz saia com vida própria, desconectada da boca e do corpo e filha paria, apavorada, uma voz picotada e esquisita. Como podia ser dela aquela voz? Como alguma coisa podia ser, assim, tão dela? Apenas dela? Sozinha sendo dela?
Ter voz é ter muita coisa sozinha dentro da gente, filha pensava.
Mãe andava rápido. Era carnaval e mãe corria pra pegar o ônibus. Não era pra mãe trabalhar no dia do carnaval, mas foi o marido da Dona Lilian que ligou pra mãe falando que ela tinha que limpar a sujeira que a molecada tinha feito da folia do dia anterior. Voz de homem era coisa muito séria. "Tá bom, Sr Valter, mas vou ter que levar a filha", disse a mãe, com voz tremida de bicho do mato.
Na casa da filha todo mundo era bicho do mato. Menos o pai. Ele era bastante homem mesmo, desses que suam, gritam, quebram coisas e dão murros na mesa quando se sentem contrariados. Às vezes, filha ouvia mãe chorar do quarto e pensava que a mãe tinha se transformado na Siriema do Mato Grosso, da música que a Dona Ofélia ouvia.
O pai não gostava de carnaval. Dizia que era festa de gente vagabunda e depravada. Nesses dias, o pai ficava mais homem e a mãe mais siriema.
O pastor também era homem: falava. E muito. Naquele dia mais que os outros. Estava bravo com as mulheres peladas do carnaval que não temiam Deus pai e com a mulher que deixou o marido tão destruído e tão, mas tão fora de si de tristeza, que ele acabou se matando e levando os filhos dela com ele. Colheu o que plantou, disse o pastor. Pais matavam filhos se as mulheres ficavam peladas.
Filha tinha medo de gente, de voz e de pai. Quando pai bebia, filha pulava o muro que dava para casa da Dona Ofélia pra não morrer igual os filhos da mulher pelada. Enquanto não morria, passava a mão no pelo macio do gato gordo da velha. Dona Ofélia colocava moda de viola enquanto mãe virava siriema, e filha e velha sentavam na varanda pra sentirem, juntas, saudades profundas dos campos de Maracaju que nenhuma conhecia.
"Nenhum homem presta", a velha dizia, com voz de onça pintada.
A casa do Sr Valter era a maior casa que já tinha visto. Tinha piscina e ele deixava colocar os pés na água, mas mãe olhava pra filha, e filha não queria não. "Tem que ir pra escola, hein? Tem que estudar bastante!", Sr Valter falava com a voz grande de homem rico dele, enquanto esperava a comida que mãe fazia. Mãe era calada, mas nessa hora falou: "Filha vai estudar na escola cívico-militar, Sr Valter".
Era bonito ver orgulho parir voz de mãe.
O sol se punha quando mãe terminou a faxina. Mãe não corria pra voltar pra casa. A cidade estava diferente, as ruas vazias de carros e cheias de gente. Um homem vestido de borboleta passou por elas seguido de um monte de sereia, bailarina, palhaços, piratas e cangaceiros. Era gente de todo jeito, cor, tamanho e idade. Mulher e homem. Branca, pobre, preta, rica, desmiolada, pelada, mascarada, maltrapilha, velha e criança. Mulher que era meio homem. Homem que era meio mulher. Tudo junto e misturado. Eles cantavam para abrirem alas que eles queriam passar, e eram mais barulhentos que todos os bichos da mata juntos. A música, o sol, a risada solta e longa foi entrando igual flecha no corpinho da filha, fazendo cócegas bem no fundo da sua barriga. As cócegas vinham lá de dentro e iam aumentando sem que a filha soubesse o que fazer com elas. Vinham subindo, subindo pelo corpinho magro, sem pedir para abrir alas. Fortes e sem controle. Sem saber o que fazer com aquilo tudo e com medo de explodir de cócegas, a filha olhou pra mãe. A mãe ria. Filha riu junto. Mãe riu mais. Filha riu muito, e tanto, mas tanto, que o tempo parou nas cócegas da mãe, da filha, da rua e do mundo.
Das cócegas seguiu-se o torpor. Filha e mãe na rua, de mãos dadas, envolvidas em uma multidão de gente feliz e colorida, cantando, dançando, se abraçando e se beijando. "Vila Esperança, foi lá que eu passei, o meu primeiro carnaval", tocava a marchinha.
Como fui feliz, naquele fevereiroPois tudo para mim era primeiroPrimeira rosa, primeira esperançaPrimeiro carnaval, primeiro amor criança
Filha olhou pra mãe. Ela não sentia mais cócegas. Mãe agora chorava, mas não era choro de siriema. Era daquelas gotinhas que ficam em cima das folhas verdes e que nenhum bicho do mato estraga, como se fossem diamantes. Filha achou que mãe era bonita.
Era um luxo ver festa parir mãe feliz.
Mãe e filha foram para casa levando o carnaval no corpo. Filha pensava que a primeira coisa que faria quando chegasse em casa, era pular o muro, não para fugir de pai que mata, mas para contar pra Dona Ofélia como eram as gentes que brincavam de carnaval. Filha queria perguntar pra Dona Ofélia se ela achava que o homem borboleta prestava.
"A velha morreu", disse o pai.
Filha pulou o muro. O gato gordo estava encolhido na varanda, assustado com a multidão de policiais, pastor, rezadeiras e vizinhos que invadiam a solidão da velha.
Filha abraçou o gato gordo. Fechou os olhos para sentir seus pelos macios nos dedos. Quando abriu, o gato brilhava, de glitter.
De dentro da filha, a música ainda tocava:
Não se assuste pessoaSe eu lhe disser que a vida é boaNão se assuste pessoaSe eu lhe disser que a vida é boa
Enquanto eles se batem, dê um rolê e você vai ouvirApenas quem já diziaEu não tenho nadaAntes de você ser eu souEu sou, eu sou o amor da cabeça aos pésEu sou, eu sou, eu sou o amor da cabeça aos pés
Eu sou, disse a voz. Era a sua voz.
A sua única voz.
Aquela coisa grande, que só ela tinha e que era tão somente dela quanto do mundo todo.
Eu sou, eu sou o amor da cabeça aos pés, cantava com a voz que era dela.
Eu sou, amor. Eu sou.
Meu nome é Carolina.
Meu nome.
Eu SOU.
Este artigo não representa necessariamente a opinião do Coletivo Transforma MP.
Cristiane Corrêa de Souza Hillal – Promotora de Justiça. Integrante do Coletivo Transforma MP
Referências:
Músicas –
"Dê um Rolê" de autoria de Moraes Moreira e Luiz Galvão, gravada originalmente pelo grupo Novos Baianos em 1972, no álbum Acabou Chorare, considerado um dos mais importantes da música brasileira.
"Vila Esperança", de autoria de Adoniran Barbosa e Marcos César, composta em 1954 e gravada, em disco, apenas em 1975, no álbum Adoniran Barbosa, também conhecido como O Poeta da Cidade.
"Siriema", também conhecida como "Siriema de Mato Grosso", do cancioneiro sertanejo de raiz, foi consagrada na voz de Pena Branca & Xavantinho. A autoria é de Mário Zan, compositor e acordeonista fundamental na formação do repertório rural brasileiro.
4) "Ó Abre Alas", considerada a primeira marchinha de carnaval brasileira, composta em 1899 por Chiquinha Gonzaga.
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Source Quality
Source classification (primary/secondary/tertiary), named vs anonymous, expert credentials, variety
Summary
No journalistic sources are cited; the narrative is a personal, fictionalized account.
Specific Findings from the Article (2)
"Cristiane Corrêa de Souza Hillal – Promotora de Justiça. Integrante do Coletivo Transforma MP"
Author is named with credentials, but no sources are provided for the narrative's claims.
Named source"Rolê" de autoria de Moraes Moreira e Luiz Galvão, gravada originalmente pelo grupo Novos Ba"
Only references are to cultural works (songs), not to factual claims in the narrative.
Tertiary sourcePerspective Balance
Acknowledgment of multiple viewpoints, counterarguments, and balanced presentation
Summary
The narrative presents contrasting perspectives on gender roles and societal norms through characters, but it is a crafted literary piece, not balanced reporting.
Specific Findings from the Article (3)
"Pai não conhecia a palavra medo, mas falava muito, com palavras que eram de dar medo."
Presents the father's authoritarian perspective indirectly.
Balance indicator""Nenhum homem presta", a velha dizia, com voz de onça pintada."
Presents a critical perspective on men through a character.
Balance indicator"Era um luxo ver festa parir mãe feliz."
Celebrates the carnival's liberating effect without counterargument.
One sidedContextual Depth
Background information, statistics, comprehensiveness of coverage
Summary
Rich contextual depth through literary devices, cultural references, and emotional background, but not journalistic data.
Specific Findings from the Article (2)
"Pai queria que filha falasse com as pessoas, mas só o que ele quisesse e na hora que ele deixasse."
Provides background on the father's controlling behavior.
Background"Era carnaval e mãe corria pra pegar o ônibus."
Sets temporal and social context (Carnival in Brazil).
Context indicatorLanguage Neutrality
Absence of loaded, sensationalist, or politically biased language
Summary
Uses evocative, literary language with some emotionally charged terms, but not overtly sensationalist or politically loaded.
Specific Findings from the Article (3)
"a paria, apavorada, uma voz picotada e esquisita. Como pod"
Emotionally charged description of fear.
Sensationalist"destruído e tão, mas tão fora de si de tristeza"
Dramatic language describing emotional state.
Sensationalist"Mãe e filha foram para casa levando o carnaval no corpo."
Neutral, descriptive language.
Neutral languageTransparency
Author attribution, dates, methodology disclosure, quote attribution
Summary
Clear author attribution, date, and disclaimer, but no methodology for the narrative's construction.
Specific Findings from the Article (3)
"por Cristiane Corrêa de Souza Hillal"
Author is clearly named.
Author attribution""Nenhum homem presta", a velha dizia, com voz de onça pintada."
Dialogue is attributed to characters.
Quote attribution"Este artigo não representa necessariamente a opinião do Coletivo Transforma MP."
Includes a disclaimer about institutional opinion.
MethodologyLogical Coherence
Internal consistency of claims, absence of contradictions and unsupported causation
Summary
The narrative is internally consistent as a literary piece, with no detected logical contradictions.
Specific Findings from the Article (1)
"Pais matavam filhos se as mulheres ficavam peladas."
Presents a causal claim (fathers kill children if women are naked) as part of the pastor's sermon, not as a factual assertion.
Unsupported causeCore Claims & Their Sources
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"The narrative explores the discovery of personal voice and identity against patriarchal constraints."
Source: Literary narrative by the author; no external sources cited for this theme. Unattributed
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"Carnival represents a temporary space of liberation and joy."
Source: Depicted through the characters' experiences; no external sources cited. Unattributed
Logic Model Inspector
ConsistentExtracted Propositions (2)
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P1
"The article references specific songs and their historical context (e.g., 'Dê um Rolê' from 1972)."
Factual -
P2
"Patriarchal control suppresses individual voice causes The carnival experience allows for emotional and vocal liberation."
Causal
Claim Relationships Graph
View Formal Logic Representation
=== Propositions === P1 [factual]: The article references specific songs and their historical context (e.g., 'Dê um Rolê' from 1972). P2 [causal]: Patriarchal control suppresses individual voice causes The carnival experience allows for emotional and vocal liberation. === Causal Graph === patriarchal control suppresses individual voice -> the carnival experience allows for emotional and vocal liberation
All claims are logically consistent. No contradictions, temporal issues, or circular reasoning detected.