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Do "eu" ao "nós" | Outras Palavras

outraspalavras.net By Janethe Fontes 2026-02-20 1226 words
Do "eu" ao "nós"

Não valorizar Educação e Cultura como programa estratégico de soberania despolitiza e individualiza a sociedade. O "projeto de vida" pessoal se sobrepõe ao "projeto social" – que orientaria a formação de sujeitos solidários e implicados em transformação

Publicado 20/02/2026 às 13:55 - Atualizado 20/02/2026 às 13:56

Introdução

Em um país marcado por profundas desigualdades sociais, raciais e regionais, a cultura tem sido frequentemente tratada como setor periférico, subordinado a lógicas de mercado ou a iniciativas pontuais, em vez de ser compreendida como dimensão estratégica da soberania nacional e da formação cidadã.

A ausência de um projeto nacional consistente compromete não apenas o acesso à cultura, mas também a capacidade da sociedade de produzir sentidos coletivos, preservar a memória histórica e fortalecer identidades sociais. Nesse cenário, a produção cultural tende a refletir a lógica individualizante do neoliberalismo, em detrimento de uma perspectiva coletiva, crítica e verdadeiramente emancipadora.

Cultura, educação e a lógica neoliberal

A relação entre cultura, educação e desenvolvimento nacional está diretamente vinculada ao papel do Estado. Em contextos marcados pela hegemonia neoliberal, observa-se o deslocamento da responsabilidade pública para o indivíduo, inclusive no campo educacional e cultural. A educação passa a ser orientada por discursos individualizantes e meritocráticos, voltados à adaptação ao mercado, enfraquecendo sua função formadora e crítica.

Paulo Freire já alertava que, quando a educação não promove consciência crítica, tende a reforçar a internalização da lógica do opressor, dificultando a construção de sujeitos históricos capazes de compreender e transformar a realidade. De modo convergente, bell hooks analisa como essa pedagogia da responsabilização individual pode assumir a forma de opressão pedagógica, ao ocultar as condições estruturais que limitam as possibilidades reais de escolha.

No campo cultural, esse processo manifesta-se na valorização de trajetórias individuais de sucesso e na despolitização da produção cultural, frequentemente reduzida à condição de mercadoria. Karl Marx demonstrou que essa inversão — na qual desigualdades estruturais são apresentadas como falhas individuais — constitui o funcionamento da ideologia, pois oculta as condições materiais que produzem a desigualdade. Achille Mbembe, por sua vez, analisa como o neoliberalismo fabrica sujeitos obrigados a administrarem a própria precariedade, como se cada indivíduo fosse uma unidade autogerida. Portanto, sem um projeto nacional que articule cultura e educação de maneira integrada, a produção cultural tende a se fragmentar, reproduzindo desigualdades e limitando seu potencial transformador.

A experiência chinesa como contraponto analítico

A experiência chinesa, particularmente a partir da Revolução Cultural e das transformações educacionais subsequentes, oferece um contraponto analítico relevante para compreender a relação entre cultura e projeto nacional de desenvolvimento. Conforme analisa Elias Jabbour, a China incorporou cultura e educação como elementos estratégicos de construção de soberania, identidade coletiva e mobilização social. E ainda que a Revolução Cultural chinesa apresente contradições amplamente debatidas, não se pode ignorar, nem menosprezar, seu papel na tentativa de romper com o elitismo cultural e ampliar o acesso à educação e à produção simbólica. As reformas educacionais chinesas mantiveram a centralidade do planejamento estatal de longo prazo, articulando cultura, ciência e desenvolvimento econômico.

O ponto central, conforme destaca Jabbour, não reside na reprodução mecânica desse modelo, mas na constatação de que projetos nacionais de desenvolvimento bem-sucedidos tendem a tratar a cultura como eixo estruturante, e não como política secundária. A cultura, nesse contexto, atua como instrumento de coesão social, formação crítica e fortalecimento da identidade nacional.

Escola, juventude e a necessidade de um projeto social

No caso brasileiro, a ausência de um projeto nacional de desenvolvimento integrado reflete-se diretamente nos desafios enfrentados pela produção

cultural. A descontinuidade das políticas públicas, a dependência de mecanismos de mercado e a fragilidade do financiamento estatal dificultam a consolidação de um sistema cultural inclusivo e sustentável. Nesse contexto, a escola assume papel estratégico. A centralidade atribuída, nos currículos recentes, à disciplina denominada Projeto de Vida expressa uma concepção individualizante de futuro, na qual o sucesso é compreendido como resultado exclusivo do esforço pessoal, dissociado das condições sociais, históricas e culturais que moldam as possibilidades concretas de existência.

Como contraponto a essa lógica, torna-se relevante analisar propostas que defendem o deslocamento do foco do Projeto de Vida — enquanto disciplina obrigatória prevista na BNCC — para um projeto pedagógico de natureza distinta, orientado à formação de sujeitos capazes de compreender sua inserção coletiva na sociedade. Esse deslocamento é aqui compreendido como a substituição do componente curricular Projeto de Vida por um componente denominado Projeto Social, cuja centralidade deixa de ser o planejamento individual e passa a ser a reflexão sobre problemas sociais concretos.

A adoção do Projeto Social como componente curricular implica abandonar a ênfase no sonho individual isolado e estimular o engajamento crítico dos jovens com questões relacionadas à desigualdade, à cultura, ao território e às políticas públicas. Nessa perspectiva, a escola pode contribuir de forma decisiva para a formação de uma juventude capaz de participar ativamente da elaboração de um projeto nacional de desenvolvimento que reconheça a cultura como direito e como prática social fundamental.

Projeto nacional, cultura e limite planetário

Além disso, qualquer reflexão contemporânea sobre projeto nacional de desenvolvimento precisa incorporar, de forma central, a dimensão ambiental. Não há futuro possível — nem econômico, nem cultural, nem social — dissociado das condições materiais de existência do próprio planeta. A crise ecológica impõe limites concretos aos modelos de desenvolvimento baseados na exploração predatória dos recursos naturais e na lógica individualista de consumo.

Pensar a cultura como eixo estratégico de um projeto nacional implica, portanto, promover também uma consciência ecológica coletiva. Nesse sentido, torna-se evidente a importância de uma inflexão no campo educacional, capaz de articular formação cultural, engajamento social e responsabilidade ambiental. A valorização do Projeto Social como componente curricular insere-se nessa perspectiva, ao favorecer a compreensão das interdependências entre sociedade, cultura e natureza.

A formação cultural e educacional desempenha papel fundamental na construção de valores, práticas e imaginários capazes de questionar a relação historicamente estabelecida entre sociedade e natureza. Sem essa inflexão, projetos de desenvolvimento tendem a reproduzir desigualdades, aprofundar a degradação ambiental e comprometer as possibilidades de vida das próximas gerações. Assim, não há projeto nacional de desenvolvimento sem um projeto de planeta. A sustentabilidade deixa de ser um complemento e passa a constituir fundamento indispensável de qualquer proposta que pretenda articular cultura, educação e futuro coletivo.

Conclusão

No contexto brasileiro, superar a fragmentação cultural exige abandonar a lógica estritamente individualista e recuperar a capacidade de imaginar transformações coletivas. Isso implica repensar o papel da escola, fortalecer propostas pedagógicas orientadas para o Projeto Social enquanto componente curricular, e compreender a cultura como direito, como prática social e como elemento fundamental da democracia.

Por fim, qualquer projeto nacional que se pretenda consistente deve reconhecer os limites ecológicos do desenvolvimento. Sem planeta, não há projeto de desenvolvimento possível. Com cultura, educação crítica e consciência ecológica, abre-se a possibilidade de construir uma sociedade mais justa, solidária e capaz de pensar coletivamente o seu futuro.

Referências

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido, 177ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

HOOKS, bell. Ensinando a Transgredir: a educação como prática da liberdade. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2017.

JABBOUR, Elias. China: o socialismo do século XXI. São Paulo: Boitempo, 2021. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. São Paulo: Boitempo, 2007. MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: n-1 edições, 2018.

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