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Carta ao Leitor — Edição 310

revistaoeste.com By Branca Nunes 2026-02-20 551 words
Além das boas e más ideias, existem as genuínas ideias de jerico. Estas costumam ignorar qualquer tipo de alerta. João Santana, ex-marqueteiro de Lula, avisou nas redes sociais que nesta terceira categoria seria enquadrada a ideia de transformar o Presidente da República em enredo da Acadêmicos de Niterói. Como se não bastassem todas as evidências de propaganda eleitoral antecipada, o desempenho foi considerado tecnicamente tão medíocre que levou a escola de samba de volta à segunda divisão.

De quebra, a reportagem de capa desta edição, assinada por Rachel Díaz, mostra que a popularidade de Lula caiu mais ainda no universo dos evangélicos, dos conservadores e dos pagadores de impostos — que financiaram o fiasco na Sapucaí. "Enlataram os religiosos, as famílias — enlataram e satirizaram, além da direita, o Centrão — o fiel da balança eleitoral", observa Alexandre Garcia. "Se Lula pensava em atrair o MDB para vice, perdeu, após a escola mostrar Temer arrancando a faixa presidencial de Dilma."

Outra que não saiu bem no retrato foi Cármen Lúcia, presidente do Tribunal Superior Eleitoral. Depois de políticos oposicionistas recorrerem ao tribunal para tentar impedir o desfile, a ministra optou por um voto semelhante ao proferido na eleição presidencial de 2022. De novo, ela reconheceu que a Constituição e a jurisprudência do Supremo vedam qualquer forma de censura prévia. Há quase quatro anos, contudo, ela proibiu a veiculação de um documentário da Brasil Paralelo sobre o atentado contra Jair Bolsonaro. Desta vez, Cármen Lúcia liberou geral. E o desfile da Acadêmicos de Niterói transformou o maior espetáculo da Terra num mero palanque eleitoral, resume Adalberto Piotto.

Se os brasileiros acreditam que o ano só começa depois do Carnaval, neste verão antecipou-se o trabalho no Supremo. O caso Master, o vazamento de uma reunião reservada da Corte, o afastamento de Dias Toffoli da função de relator e a ofensiva de Alexandre de Moraes contra auditores da Receita fizeram destes primeiros meses um período atípico. A reportagem de Augusto Nunes e Cristyan Costa evidencia a quebra da harmonia entre os ministros — e avalia suas possíveis consequências.

O comportamento do Judiciário também é o tema da coluna de Rodrigo Constantino. "Somente agora que Alexandre de Moraes estaria disposto a partir para cima da imprensa tradicional, com 'sangue os olhos', que muitos jornalistas se deram conta do perigo de inquéritos ilegais". Constantino pergunta: "Será que essa gente nunca leu sobre regimes tirânicos para entender que o abuso de poder jamais fica restrito aos primeiros alvos?".

Longe das plumas e dos paetês, existe um Brasil que sobrevive sem água tratada e distante das redes de esgoto. Embora a situação tenha melhorado nos últimos cinco anos, depois da aprovação do Marco Legal do Saneamento, o país ocupa a 112ª posição no ranking do setor, que reúne 200 nações.

"Enquanto algumas cidades se aproximam da universalização dos serviços, outras ainda convivem com índices comparáveis aos dos países mais pobres", relata Edílson Salgueiro. No Norte, pouco mais de 20% da população são alcançados pela coleta de esgoto. No Nordeste, o índice gira em torno de 30%. No Sudeste, supera 80%. Os piores indicadores se concentram nas regiões onde Lula e o PT costumam obter seus melhores resultados eleitorais. A geografia do voto, no Brasil, raramente se dissocia da geografia do atraso.

Boa leitura.

Branca Nunes,

Diretora de Redação

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