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Como brasileiro foi trabalhar em marca de carros mais exclusiva que Ferrari

uol.com.br By Raphael Panaro Colaboração para o UOL 2026-02-22 1382 words
Como brasileiro foi trabalhar em marca de carros mais exclusiva que Ferrari

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O Brasil é reconhecido por sua capacidade de engajamento e torcida por brasileiros que representam e levam o nome país no exterior.

O exemplo mais comum é nas competições esportivas, como Copa do Mundo e Olimpíadas. Mais recentemente, tivemos o mesatenista Hugo Calderano e também o cinema nacional sendo novamente colocado em um pedestal e gerando uma comoção em torno da atriz Fernanda Torres e de Wagner Moura.

Mas quando falamos do mundo dos carros também temos alguns personagens. E, nos últimos tempos, um brasileiro tem sido, digamos, o orgulho para a comunidade que venera automóveis. Trata-se de Fabio Monteiro, um engenheiro que trabalha há quatro anos na Koenigsegg - marca sueca de carros esportivos mais caros e exclusivos do que modelos da icônica Ferrari.

O paulista atua desde 2022 na marca sueca que já fabricou ícones da indústria, como os CCX, Agera, Regera e Gemera, e agora concentra seus esforços nos modelos Jesko e Sadair's Spear. Atualmente, Monteiro ocupa o cargo de diretor de compliance de produto na fabricante escandinava.

Mas sua história começa há quase 20 anos em outra marca: a Ford. Fabio fez carreira na marca norte-americana atuando a maior parte do tempo nas áreas de homologação e certificação dos automóveis. Sua base era o Campo de Provas localizado em Tatuí (SP), que funciona até hoje como laboratório para diversos produtos vendidos no Brasil e no mundo.

A homologação, por exemplo, é um processo técnico e legal que certifica que um veículo (e tudo que o envolve) atende às normas de segurança, ambientais e técnicas exigidas pelos órgãos competentes de cada país para garantir sua conformidade para circulação em vias pública.

Monteiro, inclusive, foi o responsável pela certificação do EcoSport para outros mercados fora da América do Sul. O SUV, um produto global desenvolvido pela engenharia do Brasil, foi vendido em diversas regiões. "Fui para a Europa algumas vezes, Japão, China e Estados Unidos. Essa fase de certificação foi a base importante para conhecer outros mercados, processos e regulamentações", afirma.

Mais para a frente passou a chefiar um departamento de investigações criado pela Ford para resolver potenciais complicações dos veículos após o início das vendas para o público em geral. "Depois que entrega o carro, a gente precisa criar processos para monitorar esses modelos e olhar para os problemas. Não só para os que potencialmente poderiam gerar recall, mas também de satisfação de cliente", conta.

"É um trabalho difícil porque você não tem boa notícia para empresa. É só dor de cabeça", brinca. Fabio só não imaginava que toda essa expertise acumulada ao longo de mais de 15 anos na Ford renderia uma convite que mudaria sua vida.

De 15 dias para 15 minutos

Em agosto de 2021, surge a oportunidade, mas nada de uma história de conto de fadas ou uma carta vinda da Escandinávia. No mundo atual globalizado e digitalizado, o brasileiro recebeu uma notificação em uma conhecida rede social voltada ao mundo corporativo.

"Eram 11:30 da noite, eu estava sentado na minha cama mexendo no celular e recebi uma mensagem do responsável pelo departamento de certificação da Koenigsegg no LinkedIn dizendo que viu meu perfil e que queria conversar comigo", revela.

Fabio soube que havia uma vaga aberta na marca sueca. Porém, ele mesmo desconhecida a fabricante. "Eu sabia o que era [a marca], mas eu não sabia nem onde era, não sabia como era a estrutura, não conhecia a modelo, não conhecia os volumes deles, não conhecia nada", diz. Em 2022, a Koenigsegg tinha "apenas" 500 funcionários contra os milhares da Ford.

O brasileiro conta que ficou meio desnorteado com o primeiro contato. "Eu não sabia qual era a expectativa deles, do que eles estavam procurando e que tipo de conhecimento", comenta Fabio, que também não se sentia, de certo modo, preparado para lidar com o mundo totalmente diferente. "Foi a mesma coisa que se a Red Bull falasse para eu trabalhar na Fórmula 1, sabe? Achei que era demais", completa.

Após a segunda entrevista já com o vice-presidente de Recursos Humanos da Koenigsegg, Fabio recebeu a notícia que em duas semanas saberia do resultado do processo seletivo. O porém é que os 15 dias viraram 15 minutos.

Enquanto comentava os detalhes do bate-papo com sua esposa, o brasileiro recebeu a proposta de emprego por email logo em seguida. Fabio então começou as negociações de salário e assuntos relativos à mudança de país. "Em 15 minutos, disseram ok. Então foi muito rápido, muito prático", diz.

Religioso, casado e com dois filhos, Fabio conta que gosta de pensar e refletir sobre sua vida. E que a decisão de aceitar a nova vida, apesar de parecer, não foi fácil. "Eu jurava para mim mesmo que eu nunca pediria a demissão da Ford. Eu gostava do que eu fazia.E, depois de 17 anos, você tem uma história na empresa. Eu tinha carro designado, estava tranquilo e estabilizado. Todo mundo me conhecia, já sabiam o que eu fazia e quem eu era", afirma.

A Koenigsegg é relativamente uma jovem fabricante. Foi fundada em 1994 por Christian von Koenigsegg, que segue como CEO até hoje. Trabalhar na marca sueca era um desafio, mas também uma aposta.

De São Bernardo do Campo para Helsingborg

Em janeiro de 2022, Fabio e sua família se mudaram para Helsingborg, a 30 minutos da pequena Ängelholm, sede da Koenigsegg. O trabalho era parecido com o da Ford, mas em vez de EcoSport e companhia, seus produtos eram, digamos, bem mais sofisticados: Regera, Gemera e Jesko, supercarros esportivos com mais de 1.000 cv de potência e uma tecnologia de ponta.

O brasileiro fala que a chega ao novo país foi difícil, principalmente com para sua filha que tinha apenas 7 anos à época. Hoje, Fabio diz que está completamente adaptado com o clima frio, idioma diferente e com os costumes e tradições na região. E que não pensa em voltar ao Brasil.

Desde 2023 Fabio assumiu o departamento como diretor de compliance de produto e é responsável pela investigação e solução das falhas que os carros possam ter após a entrega para o proprietário. Recentemente, o caso de um colecionador e youtuber foi publicado nas redes sociais após seu Jesko apresentar um defeito. O brasileiro, no entanto, é muito serene sobre o assunto.

"Ao mesmo tempo em que a gente tem de ter coragem para fazer o que a gente faz, tem de ter humildade de olhar e falar que talvez haja um problema mesmo", diz.

"Criamos um departamento para olhar para esses problemas, para a gente reagir o mais rápido possível e eu sou a pessoa que hoje lidera esse movimento, de sentar junto com a engenharia, junto de outros departamentos e de fazer uma investigação para encontrar a raiz da causa e resolver. Eu estou bem envolvido com isso", completa.

Fabio se reporta diretamente a Christian von Koenigsegg, fundador e presidente da marca. O engenheiro também viu nas redes sociais, por meio do Instagram (@fabiodtmonteiro) uma oportunidade de interagir com fãs brasileiros que tem curiosidade de saber sobre a montadora, sobre sua profissão, seu papel na marca e também curiosidades sobre von Koenigsegg. Fabio diz que Christian "desafia a engenharia em quase tudo"

Eu já participei de reuniões que o Christian fez uma pergunta e chamou um engenheiro de transmissão. O engenheiro falou que trabalhava com câmbio há 40 anos e que não dava para fazer. O Christian então fala que a gente vai tentar. Essa é a cultura de sempre estar se desafiando. Impossível não é palavra lá dentro", revela.

Brasileiro terá um Koenigsegg

Em breve, todos poderão ver um dos produtos com os quais Fabio trabalha. O misterioso colecionador brasileiro conhecido como Junior comprou uma unidade do Jesko. O hipercarro tem motor V8 5.0 litros biturbo que pode chegar a 1.600 cv. O exemplar ainda é a versão Attack, mais focada no uso em pistas, com mais detalhes aerodinâmicos e que pode gerar 1.400 kg de downforce nas curvas.

Fabio conta que o hipercarro já está no último departamento de finalização antes de ser enviado ao comprador. O bólido foi até postado pelo dono da marca, Christian von Koenigsegg, nas redes sociais. E, depois da repercussão, Fabio e Christian gravaram um vídeo de agradecimento aos brasileiros.

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