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O rebaixamento apoteótico de Lula

oantagonista.com.br By Rodolfo Borges 2026-02-19 627 words
O rebaixamento apoteótico de Lula

Parecia o plano perfeito, mas o showmício carnavalesco da rebaixada Acadêmicos de Niterói virou dor de cabeça para o petista e o TSE

Parecia o plano perfeito: o cambaleante presidente seria cantado em samba e verso no maior showmício da história do Brasil, a um investimento módico de 1 milhão de reais — com os patrocínios municipais e estadual, o valor se aproximou de 10 milhões de reais —, tudo transmitido em horário nobre, sem custo adicional. Deu tudo errado.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) rejeitou a censura e permitiu a realização do desfile, mas avisou que os envolvidos poderiam ter problemas com a propaganda em ano eleitoral para um presidente da República que é pré-candidato à reeleição.

Os ministros do governo foram mais discretos, a primeira-dama Janja desistiu de desfilar, para "evitar perseguições", mas a propaganda foi feita, seguindo o script do desfile da Acadêmicos de Niterói, detalhado no livro Abre Alas do Carnaval do Rio de Janeiro deste ano:

"Dentro de um regime democrático, a popularidade é movida por altos e baixos. Mas, ao contrário do pensamento estoico, nem toda vida política caminha para um final fracassado. E, atualmente, existe apenas um líder no planeta que pode reivindicar tal fama: Luiz Inácio da Silva – o ex-operário que voltou à presidência do Brasil para cumprir um terceiro mandato. Goste dele ou não, é preciso aceitar: Lula é o político mais bem-sucedido de seu tempo. A combinação de uma personalidade carismática com sensibilidade social são trunfos sublimes do homenageado da Acadêmicos de Niterói para o Carnaval 2026."

Mitificação e campanha

O samba-enredo reproduziu toda a mitificação lulista, e nem sequer tentou esconder isso. Pelo contrário, está tudo explícito na justificativa do enredo:

"O legado político de Lula está diretamente associado a políticas de combate à fome, ampliação do acesso à educação, fortalecimento das universidades, inclusão social e reconhecimento da diversidade do povo brasileiro. Esses temas dialogam profundamente com os valores que o samba carrega. Transformar esse legado em enredo é traduzir políticas públicas em poesia, ritmo e imagem, tornando compreensível, sensível e emocionante aquilo que marcou a vida de milhões de brasileiros."

Pior: o desfile não se limitou a exaltar o pré-candidato Lula, mas atacou seus adversários e endossou também suas bandeiras atuais, com as quais pretende se reeleger, como a defesa da "soberania nacional", o fim da escala de trabalho 6×1 e a "taxação BBB" (bilionário, bancos e bets).

"A Acadêmicos de Niterói encerra o desfile dialogando com o que o país vive hoje. Em seu terceiro mandato como presidente da República, Lula volta a encarnar pautas voltadas ao trabalhador, ao mesmo tempo em que enfrenta uma extrema direita raivosa. O fim da nossa apresentação é uma ode à soberania nacional, através da figura de Lula", diz a explicação de um dos "setores do desfile".

Bandeira para a oposição

A propaganda foi tão explícita, com menções ao PT, ao número 13 e a programas sociais do governo Lula, como o Luz Para Todos e o Minha Casa, Minha Vida, que a Justiça Eleitoral foi inundada de questionamentos.

Os julgamentos dessas ações poderão levar até à inelegibilidade de Lula, já que há dinheiro público da Embratur envolvido no desfile, e o presidente participou da festa, inclusive convidando um humorista para interpretá-lo na Marquês de Sapucaí.

Além de tudo isso, o desfile entregou no colo da oposição, de maneira totalmente gratuita, a bandeira da defesa da família, bastante cara aos evangélicos, que Lula nunca conseguiu conquistar.

Para coroar a tragédia carnavalesca, a Acadêmico de Niterói foi rebaixada, puxando junto Lula, cuja popularidade só caiu ao longo deste ano, como aponta o Lulômetro.

A ressaca desse Carnaval será grande para Lula.

Leia mais: "Arte não é para os covardes", diz Janja após rebaixamento

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