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'Hamnet' nos lembra do poder da arte diante das ausências mais sentidas

agazeta.com.br By Ana Laura Nahas 2026-02-22 415 words
Como administrar a dor de uma partida? Que práticas adotar diante do vazio deixado pela morte dos nossos? Quais hábitos amenizam e quais, ao contrário, amplificam o luto? O que fazer com os não ditos? Quanto de ausência, raiva, resposta malcriada, olhar perdido ou desistência você tem direito quando tudo dói?A morte tem formas distintas de atravessar os que ficam.Há muitas delas em "Hamnet", o magnífico filme da diretora chinesa Chloé Zhao.

Na história, a morte do filho pequeno de Agnes Hathaway e William Shakespeare desperta um misto de agonia, culpa, tensão, fraqueza, fúria e distanciamento.

Agnes se ressente do que até então estimulava - a completa dedicação do marido ao teatro e à escrita, a necessidade de estar longe de casa em nome da carreira. Sua força descomunal, atrelada ao amor, às mulheres que vieram antes dela e à ligação com a natureza, se transforma em rancor, daqueles que embaraçam a visão, arrebentam elos antes inabaláveis e botam o fígado no comando.

Shakespeare, por sua vez, se aproxima e se afasta da mulher, mergulhando ainda mais no trabalho. Sua tentativa de organizar o caos e a tristeza passa pela arte, especialmente pela criação de uma obra-prima que sobreviveu aos séculos sem perder a relevância.

Em "A Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca", escrita entre 1599 e 1601, o fantasma do rei, traído e assassinado pelo próprio irmão, aparece para o filho pedindo que vingue sua morte. Hamlet finge loucura, hesita em agir e mergulha no célebre dilema existencial resumido pela frase "ser ou não ser, eis a questão", mas acaba atendendo ao pedido do pai.

Com "Hamnet", vemos a peça por outro ângulo. A história de traição e vingança da família real dinamarquesa se revela uma forma de seu criador expressar o luto. Ao interpretar ele mesmo o papel do fantasma do patriarca assassinado, Shakespeare se despede do filho no palco, por intermédio da palavra.

Alguém disse, com toda razão, que a arte não devolve ninguém, não cura e não explica, mas pode virar permanência, memória e sentido quando a vida desaba. "Hamnet" nos lembra do quanto ela também funciona como um poderoso instrumento de reconexão e reconciliação com os outros e com a gente mesmo, até - ou principalmente - diante das ausências mais sentidas.

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