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Paulo Nogueira Batista Jr.: "Já passou da hora de baixar a taxa de juros no Brasil"

brasil247.com By Dafne Ashton 2026-02-03 785 words
Paulo Nogueira Batista Jr.: "Já passou da hora de baixar a taxa de juros no Brasil"

Economista critica política monetária do Banco Central e propõe alternativas ao dólar nas reservas internacionais

247 - Em entrevista ao programa Brasil Agora, da TV 247, o economista Paulo Nogueira Batista Jr. afirmou que o Brasil já deveria ter iniciado a redução da taxa básica de juros. Para ele, a política monetária atual compromete o crescimento, transfere renda para os mais ricos e ameaça a estabilidade fiscal. Ao longo da conversa, o ex-diretor executivo no FMI também tratou da desdolarização do comércio internacional e da proposta de criação de uma moeda comum entre os países dos BRICS.

Ao ser questionado sobre a decisão do Comitê de Política Monetária de adiar mais uma vez a queda da taxa Selic, Batista Jr. foi direto: "Concordo com os que dizem que já passou até da hora de começar a reduzir a taxa de juro. A economia está em desaceleração, a inflação está controlada e dentro das metas que foram fixadas lá atrás".

Juros altos e concentração de renda

Paulo Nogueira destacou os impactos da política de juros elevados sobre a desigualdade social e a estrutura da dívida pública:"O professor Ladislau Dowbor tem toda a razão. Os grandes beneficiários são os ricos, super-ricos em especial. Os bilionários e mesmo os milionários. Essa política desequilibra as contas do governo porque onera o custo da dívida pública. E quem recebe os juros? São os detentores de ativos financeiros lastreados em dívida pública", afirmou.Ele alertou para os efeitos colaterais dessa escolha de política econômica:"É uma transferência de renda perversa que beneficia os mais ricos. E coloca dinheiro na mão de quem pode fugir do país a qualquer momento, como vimos no final de 2024, quando o Brasil perdeu muitas reservas com a saída abrupta de capitais".

A política do Banco Central e os efeitos fiscais

Na avaliação do economista, a atual diretoria do Banco Central atua de forma alinhada aos interesses do sistema financeiro:"A diretoria do Banco Central, quando mantém esses juros, agrada o mercado, agrada a mídia tradicional. E quem domina o mercado e a mídia? Os bilionários e milionários. Colher elogios nesse campo é sinal de que você está atuando de maneira pouco útil para a sociedade como um todo", criticou.Ele também chamou atenção para o desequilíbrio causado pelos juros na trajetória fiscal:"Fala-se muito em responsabilidade fiscal, mas pouco se fala que a irresponsabilidade monetária impede a responsabilidade fiscal. No ano passado, o déficit nominal foi de quase 9% do PIB, e cerca de 8,5% disso corresponde a juros líquidos. A dívida cresce por causa disso, e os juros aumentam ainda mais depois. É uma bola de neve", alertou.

Alternativas ao dólar e moeda dos BRICS

A entrevista abordou ainda a possibilidade de substituir o dólar em transações internacionais, após declarações recentes do presidente chinês Xi Jinping sobre o papel global do renminbi (moeda chinesa). Paulo Nogueira foi cético:"Tenho minhas dúvidas se esse objetivo é factível no curto ou médio prazo. A China ainda mantém controle de capitais e sua moeda não tem conversibilidade plena. Isso estabiliza a economia deles, mas impede que o renminbi desempenhe um papel global".Na sua visão, uma solução mais viável seria a criação de uma moeda comum entre países do Sul Global:"Do ponto de vista dos países emergentes, o mais interessante é trabalhar com os chineses numa moeda plurilateral. Começaria com uma cesta de moedas como unidade de conta e depois evoluiria para uma moeda para transações internacionais e reservas", explicou."É uma solução transnacional que nos dá meios de nos protegermos contra um sistema baseado em sanções, onde o dólar e o euro são usados como armas. O mundo está fugindo do dólar por causa da falta de solidez da política econômica americana, agravada pelo governo Trump", completou.

Crescimento baixo e perda de ambição nacional

O economista lamentou o rebaixamento das expectativas de crescimento no país:"Hoje em dia, estamos contentes quando a taxa de crescimento bate em 3%. O Brasil rebaixou suas expectativas. A combinação de pandemia com bolsonarismo foi um baque muito grande. E nossas elites dirigentes, bolsonaristas ou não, são desastrosas".Para ele, o próximo mandato do presidente Lula pode representar uma virada de rumo, caso haja ambição:"Com uma eventual reeleição, Lula terá autoridade política para fazer uma diferença grande. Com o que foi feito até agora, não houve uma mudança importante de trajetória da economia. Precisamos de audácia. Se ficarmos presos à cautela tradicional que tomou conta dos economistas — inclusive do governo Lula — não vamos longe".Ao final, o economista deixou uma advertência:"A manutenção dos juros nesse patamar pode provocar um problema de grande magnitude na economia brasileira. Não pode passar da próxima reunião do COPOM".

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